Com a urbanização do calçadão, este “espaço público” do bairro se tornou uma espécie de “cenário” para contemplação do lazer, pois o largo Luiz Assumpção, os jardins, os bancos e os bares que se instalaram nas margens deste passeio orientavam as práticas sociais. Ou seja, o espaço físico norteava as práticas e guiava os comportamentos; vivia-se ali uma “sociabilidade normatizada” (Gomes, 2006). Porém, alguns anos após a urbanização do calçadão, esta “harmonia” nos usos foi quebrada pela presença de hippies, meninos em situação de rua e mendigos que passaram a se apropriar deste espaço para vender artesanato nos bancos do calçadão, pedir dinheiro aos transeuntes e mesmo armar barracas e morar próximo ao passeio. Este fato originou um conflito simbólico na sua ocupação, pois as práticas destes novos usuários foram consideradas pelos “estabelecidos” (Elias, 2000) como “marginais” ou “poluidoras” dos espaços “requalificados”. Esta dissensão contribuiu para o início de um processo de permuta entre os diversos freqüentadores ou “espectadores” e os novos ocupantes.
que a não regulamentação sócio-espacial por parte das autoridades competentes acarretou numa “degradação” da infra-estrutura dos equipamentos “requalificados” da Praia de Iracema, favorecendo práticas sociais “ilícitas” para o bairro.
A Praia de Iracema está, definitivamente, abandonada pelas autoridades. O calçadão, que já foi atração turística, virou moradia para hippies, que ali montaram suas barracas de camping (no largo do Mincharia), e até ponto de encontro de jovens e adultos que se drogam e se prostituem. Em contrapartida, os comerciantes estão fechando ou mesmo alugando seus estabelecimentos. O policiamento está ausente (Diário do Nordeste, 14 de fevereiro de 2002, grifos meus).
Antigo reduto dos boêmios, a Praia de Iracema hoje já não abriga mais o brilho e a magia de antes. Às vésperas do pique da alta estação turística, problemas como abandono da infra-estrutura, falta de segurança, tráfico de drogas e prostituição estão conseguindo manchar a história de um dos bairros mais bonitos e visitados de Fortaleza (Diário do Nordeste, 18 de dezembro de 2002, grifos meus).
Considerando que os espaços urbanos são tanto um mundo objetivo como representação, a retórica do abandono, reproduzida nos meios de comunicação, contribuiu para uma transformação na representação do bairro, que passou a ser referenciado por meio de termos como “lugar dos hippeis”, “abandonado” e “território de ninguém”.
Os argumentos utilizados na mídia para definir esse novo “lugar” apoiavam-se no “mito adeus”, enquanto representação simbólica dos “bons usos” do passado, no sentido de definir a presença desses “praticantes” como não condizentes com os códigos de disciplina dos espaços “requalificados” e
residencial do bairro, ou não adaptados às “regras de civilidade”. A não “obediência” aos critérios impostos pela lei que regula os comportamentos em áreas comuns, neste caso a utilização dos bancos para expor produtos artesanais e a ocupação do calçadão com barracas de camping, foi noticiada nos jornais como o “fim da atração turística” ou “triste fim da Praia de Iracema”.
A Praia de Iracema vivenciou então uma sobreposição de lugares, pois o “lugar de lazer” se tornou “lugar de hippies, drogas e prostituição”. Como informa Certeau, um lugar é uma configuração instantânea de posições, sendo excluída a possibilidade de duas coisas ocuparem o mesmo lugar “os elementos considerados se acham uns ao lado dos outros, cada um situado num lugar ‘próprio’ e distinto que o define” (1994: 201). Então, esse espaço que foi urbanizado para se tornar um “lugar de lazer” não poderia abrigar apropriações relativas a “moradia” de grupos marginalizados. Como pode ser lido abaixo, este fenômeno foi denunciado, em alguns discursos, como uma “invasão” da Praia de Iracema:
Existiu uma invasão dos hippies no calçadão, os hippies começaram a se instalar no calçadão, traziam barraca, faziam comida, fogueira na praia eles faziam fogueira botavam panela, cozinhavam, tomavam banho no calçadão por que tinha a jardinagem no calçadão, e as torneiras para as pessoas, para os moradores, ou para o pessoal da prefeitura vir regar as plantas, só que os hippies tomavam banho semi-nus, então a prefeitura tirou todas as torneiras para evitar esse problema deles estarem morando mesmo, morando com família, com filho, com família mesmo, morava tudo na Praia de Iracema, e continuam morando, só que na época nós fizemos muito movimento, chamamos muito a imprensa, ofício para prefeitura, ofício para polícia, conseguimos retirar a metade, mas agora eles já estão voltando de novo, foi uma batalha muito, muito grande (Entrevista com uma
Como define Lévy, o que caracteriza o espaço público não é só a acessibilidade, mas também a “extimidade”, ou seja: “o percurso no espaço público supõe uma suspensão do íntimo, que paradoxalmente é uma condição de existência (…) só o ‘anonimato’, isto é, a garantia de que o outro urbano não projetará sua intimidade sobre a nossa” (1999: 239). Para Sennett (1995), o espaço urbano é o lugar da possibilidade do encontro sem que isso induza à compulsão da intimidade ou de uma suposta identidade profunda. Portanto, ao virem para a rua atividades privadas como cozinhar, tomar banho e dormir, isso significa que existiu na Praia de Iracema uma inversão dos sentidos simbólicos do que representa, na nossa cultura, a casa, enquanto ambiente privado, e a rua no sentido da coisa pública, conforme analisado por Roberto Da Matta (1997). Então, sendo os “lugares” construções sociais, a inversão do sentido público e privado neste espaço produziu um afastamento dos freqüentadores dos bares e restaurantes da orla marítima, pois a sua presença tornou-se uma “incursão” no “espaço privado” do outro. Essa falta de respeito aos códigos sociais nos espaços públicos decretou, enfim, uma crise para o comércio local, como pode ser visto nesse depoimento:
Existiu o problema dos hippies que moravam aqui e os meninos que ficavam cheirando cola e ainda ficam, antes foi a presença dos hippies e dos meninos que espantavam a freguesia. (Entrevista com o proprietário de um bar da Praia de Iracema, concedida em 23 de Agosto de 2005).
Segundo depoimentos de moradores e comerciantes da Praia de Iracema, os hippies e meninos em situação de rua chegavam a cobrar “pedágio” aos transeuntes, no sentido de intimidá-los pedindo para lhe pagarem bebidas e comidas. Ou seja, a privatização dos espaços públicos passou a ser representada nos discursos como uma falta de “controle social” no espaço urbano. Como descreve Arantes, em relação aos meninos de rua no
centro de São Paulo, este tipo de ocupação sócio-espacial é classificada também, “como ‘coisa fora de lugar”, e portanto simbolicamente suja e perigosa” (2000: 108).
Na busca de reverter esse cenário, moradores e comerciantes do bairro se uniram por meio de protestos, como abaixo-assinados solicitando às autoridades competentes medidas para coibir a “privatização dos espaços públicos por parte dos hippies”. É importante ressaltar que os argumentos utilizados nestes protestos eram da Praia de Iracema como um “lugar de lazer” para os turistas. Como pode ser observado no documento abaixo, era reivindicado um “lazer tranqüilo” para os freqüentadores, “na maioria turistas”. Nesse sentido, a consolidação do bairro como um “lugar de lazer” já era um fato; o que reivindicavam era a manutenção desse “lugar” em comunhão com o “lugar dos moradores”.
Os abaixo assinados [sic], residentes no bairro Praia de Iracema e adjacências, reivindicam junto à Prefeitura Municipal de Fortaleza a seguinte providência: Quanto à utilização e ocupação dos bancos existentes ao longo do calçadão da Praia de Iracema pelos artesãos (hippies), que comercializam seus artefatos e também dormem nas calçadas próximas aos bancos e restaurantes, impossibilitando a acomodação e um lazer tranqüilo das pessoas que por ali transitam, que na sua maioria são turistas que passam férias em nossa cidade (Fonte: arquivo da Sra. Waldelice Ratts, moradora da Praia de Iracema).
A partir da apreciação desse documento, percebo que os residentes denunciavam a transformação desta área do bairro num “espaço liminar”. Arantes (2000), a partir do conceito de Turner (1967), define “espaço liminar” como a fronteira entre o público e o privado, entre a necessidade coletiva e a
dos restaurantes e restos de lixo; o aconchegar-se se dá pelo ato de abrigar-se individualmente ou em grupo na rua; ou seja, “o medo e o risco habitam este espaço cujas ambigüidades sugerem que, a qualquer momento, tudo pode acontecer” (2000:107). Referindo-se às ruas de São Paulo, Arantes defende que a constituição desses espaços transforma o “controle social em retórica” criminalizando os habitantes das ruas. No tocante à Praia de Iracema, as possibilidades de “mistura social” foram vistas com desconfiança, medo, e portanto foram evitadas.
Seguindo o modelo de análise de conteúdo proposto por Martinez (1996) as palavras com significados relevantes para a identificação das “categorias de atribuição” da imagem da “degradação”, a partir da ocupação daquele espaço por hippies e meninos em situação de rua, são: abandonada; moradia (de hippies); falta de segurança; tráfico de drogas; prostituição; invasão; movimento e batalha. As expressões conceituais são as seguintes:
A Praia de Iracema está, definitivamente, abandonada pelas autoridades;
O calçadão, que já foi atração turística, virou moradia para hippies;
O policiamento está ausente;
Antigo reduto dos boêmios, a Praia de Iracema hoje já não abriga mais o brilho e a magia de antes;
Abandono da infra-estrutura, falta de segurança, tráfico de drogas e prostituição estão conseguindo manchar a história de um dos bairros mais bonitos e visitados de Fortaleza;
Existiu uma invasão dos hippies no calçadão;
Nós fizemos muito movimento, chamamos muito a imprensa, ofício para prefeitura, ofício para polícia;
Foi uma batalha muito, muito grande;
A presença dos hippies e dos meninos que espantavam a freguesia.
Abaixo apresento o quadro com este “evento”, suas características e as “categorias nativas de atribuição” para a imagem da “degradação” do bairro Praia de Iracema a partir deste acontecimento.
Quadro 18: A ocupação do calçadão por hippies e meninos em situação de rua e a imagem da “degradação” da Praia de Iracema
Evento Características “Categorias nativas de
atribuição” Falta de manutenção dos equipamentos
urbanizados e requalificados.
Lugar de hippies, drogas e prostituição;
Ocupação dos espaços públicos pelos hippies. Território de ninguém;
Falta de segurança. Invasão dos hippies.
Afastamento dos freqüentadores do calçadão e dos bares e restaurantes.
A ocupação do calçadão por hippies e meninos em situação de rua.
Protestos e denúncias contra a presença dos hippies.