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Guimarães (2009, p. 51) diz-nos que as relações de sentido são estabelecidas em virtude do modo como os elementos lingüísticos significam sua contigüidade pelo procedimento de articulação. Considerando-se um viés discursivo sobre tal procedimento, podemos afirmar que essas relações de contigüidade dão- se como uma relação linguística, no interior dos sintagmas, mas também em relação àquilo que o sujeito pode e deve enunciar de uma posição de sujeito no interior de uma formação discursiva. Assim, temos uma relação que ocorre em duas mãos, ou seja, considerando-se as relações internas à estrutura, mas tomando a organização do espaço de enunciação no acontecimento, de forma a distribuir as posições de sujeito das quais se enunciará.

Assim, vamos considerar a articulação como uma relação de contiguidade significada na instância da formulação que, de acordo com Orlandi

80 (2008, p.10), “(...) é o acontecimento discursivo pelo qual o sujeito articula manifestamente seu dizer.”, ou seja, em condições de produção e enunciação específicas. Para tanto, consideraremos que as relações de articulação podem se dar de três maneiras distintas (GUIMARÃES, 2009, p.51), quais sejam: por dependência, por coordenação e por incidência.

Na articulação por dependência, elementos contíguos organizam-se de tal modo que, no enunciado, apresentam-se como um só elemento, formando um único grupo nominal (GN). Por exemplo, em “Os alunos negros” (INFORMANDO, 2007, p.10), a relação estabelecida entre “Os”, “negros” e “alunos” é tal que há a formação de um único grupo nominal. Podemos perceber que nesta operação há uma determinação dos elementos “Os” e “negros” sobre “alunos”, uma vez que “negros” é atribuído a “alunos” pelo sujeito responsável pela formulação, no acontecimento, de sorte que conseguimos notar o assujeitamento deste indivíduo a uma determinada formação discursiva, que lhe determina aquilo que pode e deve ser dito. Se observarmos, agora, que este GN vem acompanhado de um aposto, formando com ele outro GN2, teremos a seguinte relação: alunos negros (pretos e

pardos). Neste caso, há duas relações de articulação por dependência, aquela explicada acima e uma entre “negros” e “pretos e pardos”. Assim, podemos perceber uma determinação de “negros” por “pretos” e por “pardo”; ou seja, em termos de sentido, atribuem-se os sentidos de “pretos” e “pardos” a “negros” 25; do ponto de

vista discursivo, essa aposição feita pelo sujeito enunciador é responsável por um deslocamento da posição de sujeito das formas-sujeito “pardo” e “negro”. Portanto, faz-se mister notarmos que, pela articulação por dependência, o sujeito desloca as posições de sujeito ocupadas no discurso. Se nos atentarmos para o fato de que cada posição de sujeito representa um lugar de dizer, uma tomada de posição, em uma formação discursiva, reguladora daquilo que pode e deve ser dito, podemos verificar que, por meio desse deslocamento dos sujeitos, deslocam-se concomitantemente seus dizeres, fazendo-os significar de outra forma.

Um outro modo de observarmos a articulação é por meio da coordenação. Nesse caso, encontramos elementos de uma mesma natureza

25 Trataremos, adiante, de caracterizar esse procedimento no interior daquilo que consideramos como

81 organizando-se de modo a formarem um único elemento, da mesma natureza de seus constituintes. Podemos encontrar coordenação, também, no exemplo que demos para dependência; no caso de “alunos negros (pretos e pardos)”, encontramos a coordenação entre pretos e pardos, mostrando um acúmulo de elementos presente na relação de contigüidade. De certo modo, estamos na presença de uma enumeração, que será tratada adiante. Interessa-nos, para o momento, verificar que a coordenação, no caso acima, é responsável pelo acúmulo de características, mas, mais importante que isso, é verificar que a relação de dependência entre “negros” e “pretos” e “pardos” divide a forma-sujeito negro em outras duas, quais seja, forma-sujeito preto e forma-sujeito pardo. Contudo, tal interpretação depende da formação social em que tais sujeitos inserem-se, visto podermos ter “pretos” e “pardos” subsumidos a “negro”, ou seja, tem-se, então, não mais um desdobramento da forma-sujeito, mas um apagamento dessas formas- sujeito, que passam a ser compreendidas por outra. No entanto, esse apagamento possui um efeito sobre o sujeito muito maior, que será discutido mais propriamente quando tratarmos da questão da política do silêncio.

Por fim, temos a incidência que, diferentemente dos modos anteriormente relacionados, é uma relação entre elementos de naturezas distintas, de modo a formar um terceiro elemento, cuja natureza é a mesma de uma da de seus formadores. Podemos verificar essa relação de incidência em um exemplo já tratado o capítulo II, qual seja

A estudante diz ter a pele clara, mas traços afrodescendentes.

A fim de tornar mais didática a análise, vamos separar os enunciados da seguinte maneira: (a) A estudante diz ter a pele clara; (b) mas traços afrodescendentes. Podemos perceber que os enunciados (a) e (b) se articulam por uma relação de paralelismo, em que há a elipse de “A estudante diz ter”, visto o enunciado (b) poder ser parafraseado por (b’) A estudante diz ter traços afrodescendentes. Assim, fica clara a relação de paralelismo entre os enunciados (a) e (b). Não obstante, devemos perceber a presença da conjunção mas que incide

82 sobre tais enunciados coordenados. A propósito do funcionamento da partícula mas neste enunciado, explicamos no capítulo II deste trabalho, chamando especial atenção para o fato de a presença da vírgula indicar, no objeto de análise do texto, duas formações discursivas que se confrontam, a saber, uma formação discursiva responsável pela forma de sujeito de pele clara, ou seja, branco, e aquela responsável por pela forma de sujeito afrodescendente, ou seja, de pele não clara, não branco. Assim, podemos notar que a articulação por incidência é responsável, na materialidade do texto, por indicar as divisões da forma-sujeito do discurso, marcando a presença de formações discursivas diversas no interior do mesmo.

Passemos, agora, a outro procedimento que garante a textualidade, quais sejam, as relações de reescrituração.