“Tenho eu que moro aqui, tenho uma irmã que mora no Arara, tenho um irmão que
mora na Del Rey e frequento a casa deles sempre, as vezes tem almoço, um aniversário de algum sobrinho, eu sempre vou. A gente ás vezes tem um pouco de receio de transitar porque tem essa rivalidade de um lugar pro outro, por causa desse problema do tráfico de trogas. Mas nunca tive que sair de lá corrido, ninguem nunca me desrespeitou pelo fato de eu morar na Del REy não. E todos os lugares que eu vou eles sabem que eu moro aqui, porque pelo tempo que eu moro eu conheço todo mundo aqui no algomerado, sabem que eu nunca me envolvi com essas coisas e que eu não tenho nada a ver com isso...” (W.) SACRAMENTO/CHÁCARA
A liberdade de ir e vir é um dos principais indicadores de que “se relaciona bem” com os membros das gangues. Diferente deles, que têm o trânsito restrito ás suas áreas de atuação, os moradores, em geral, conseguem nutrir os laços intercruzados (Glukman,1976). Parece que
o tráfico de drogas no Aglomerado da Serra ainda não assumiu o caráter territorial- político-militar experimentado pelo Rio de Janeiro (Misse,1999), em que moradores, sob a influência das quadrilhas, também têm acesso restrito. Não registramos moradores que reclamam de não poderem visitar parentes ou amigos que moram em áreas dominadas por outras gangues, embora saibam os horários e locais em que o risco de tiroteios é maior.
9.3 - Comunidade e Os “Meninos do Movimento”
O que fez a classe média, desde o início da década de 70 do século XX, se cercar em seus condomínios e muros não foi, inicialmente, o tráfico de drogas, mas os furtos e roubos e assaltos a bancos, arrombamentos de residências, apartamentos e furtos e roubos de carros. O medo da violência não surgiu a partir do tráfico, embora essa criminalidade vá se associar a ele em meados de 80. A sensação de insegurança se instalou ainda na década de 70 (Misse,1999, p3).
A queda do roubo, a partir do auge de 1985 coincide com o período de crescente visibilidade do tráfico de drogas nas áreas urbanas pobres. Essa mudança de padrão ocorre entre 70 e 80, associando-se ou substituindo-se em seguida, ao crescimento do mercado mais lucrativo e ainda menos arriscado do tráfico de cocaína. Do ponto de vista econômico, a opção entre a transação dessas diferentes mercadorias criminalizadas (bens roubados e drogas) oscilou seguindo uma avaliação de custo/benefício.
Assim, só a partir do final da década de 70 é que o tráfico de cocaína começa a ser detectado, e sua importância se consolida ainda na primeira fase do tráfico, período em que o
mesmo foi efetivamente controlado pelo Comando Vermelho. Essa fase de controle pelo Comando Vermelho entra em declínio no final dos anos oitenta.
Então, de acordo com Misse (1999), a primeira fase do tráfico de cocaína se caracteriza pela avaliação da relação custo/benéfico e pela acumulação proporcionada pelo aumento da venda de maconha. Nessa época, o início da onda de assaltos a bancos e a residências nos anos 70 do século XX, a oferta (e a nova demanda) de cocaína a partir de meados dos anos 70, bem como a organização de presidiários, que se estrutura na Ilha Grande(Falange Vermelha, depois, Comando Vermelho) e a Penitenciária da Frei Caneca(Falange do Jacaré), marcaram a transição da “boca de fumo” tradicional para o “movimento”, baseado no comércio de cocaína. Ainda segundo o autor, a expressão “movimento”, que se generalizou para designar a organização mais abrangente da primeira fase, aplica-se hoje ao restou dessa organização; a rede local do tráfico (Misse,1999 p8). Assim, “meninos do movimento” é uma expressão que faz referência a um tipo de comércio e comportamentos que, embora tenha os seus “tentáculos” cravados para alem da comunidade, só adquire sentido em uma dimensão localizada e comunitária. Para os moradores do Aglomerado da Serra, “Meninos do movimento” refere-se aos membros das gangues do aglomerado da Serra. Significa que são as gangues do aglomerado da Serra, e não de outra localidade, que estarão sendo avaliadas. Isto parece se verificar em todas as outras periferias, em que tal expressão traz á tona, para os moradores, comportamentos e interações com os membros das gangues de suas respectivas comunidades. Fora das comunidades, como mostra Misse(1999), o início do tráfico se nutre de uma estrutura econômica e logística originária dos presídios.
Contudo, dentro das comunidades, de acordo com Beato Et al....(2009) o primeiro estágio da estruturação das atividades criminosas, não apenas o tráfico, mas implicando-o necessariamente, tem uma lógica mais societária do que econômica, o que leva a que muitos episódios de guerras entre gangues e grupos criminosos sejam por motivos banais que ensejam uma infindável seqüência de vinganças, retaliações, conflitos, trocas de tiros, traições, crueldades e chacinas de toda sorte. Aspectos sociais também contribuiriam para estabelecer as condições de eclosão da violência, como famílias desestruturadas, gravidez precoce, pouco tempo em escolas, além do alcoolismo e uso de drogas que criam igualmente o contexto para o surgimento de gerações de jovens com baixo grau de supervisão, cujos familiares têm limitado controle sobre seus comportamentos (Beato Et al., 2009,p1).
A descrição de Beato parece ser coerente com o que ocorreu no Aglomerado da Serra no final da década de 70 e toda a década de 80. Todos os moradores mais antigos são saudosos da época em que podiam atravessar o Aglomerado de uma vila á outra para irem a uma festa na casa de alguém com quem nem se tinha intimidade. O “penetra” passava a ser visto como inconveniente apenas quando não respeitava a filha do morador, a namorada do filho do dono da casa. Época em que os conflitos armados eram raros, mas que todos os conflitos tinham desdobramentos para além do aqui e agora. Mas as vinganças e retaliações tinham muito mais componente moral do que utilitário ou de defesa de territórios. Obviamente que o uso e venda de maconha, principalmente, e cocaína (raramente) estavam presentes, mas de forma bastante fragmentada, desestruturada e independente da figura de lideranças, o que vai ocorrer apenas no final da década de 80 e início de 90. Até então eram os conflitos interpessoais, por motivos aparentemente banais, que ressaltava nas cenas do cotidiano.
Nos aglomerados cariocas, segundo Misse(1999), muitos moradores dessas áreas caracterizam essa primeira fase em aberta descontinuidade com a segunda fase, marcada pela segmentação do “movimento” e pelo enfraquecimento do Comando Vermelho, com a prisão e morte de suas principais lideranças, dominada por lideranças “maduras”, “experientes”, que tinham “respeito”, enquanto a segundo fase é dominada pelos “garotos”, “empolgados”, “muito violentos” e “sem respeito pelas famílias”(P.9). Mas no momento em que fizemos o trabalho de campo no Aglomerado da Serra, em 2008, parece que deparamos com um cenário idêntico ao que Beato Et al.i (2009) define como a segunda fase do ciclo de violência. Ou seja, um período de intensa competição entre esses grupos, marcada por um processo seletivo de depuração através de violentos conflitos e grande número de mortes. Inicia-se aqui a utilização massiva da arma de fogo. Tanto Beato quanto Misse interpretam tal fase como a mais violenta, “caracterizada [...] por constantes guerras entre grupos do movimento...que continua até hoje, mas atingiu o seu ápice, até o momento, entre 1985 e 1992 (Misse,1999,P5)”. Para os moradores do Aglomerado da Serra, tais conflitos parecem inerentes à dinâmica social na qual estão inseridos:
“...A guerra entre gangues, boca de fumo. Eu já quase fui vítima disso já com bala
perdida. Porque tipo assim, quando eu tava saindo da igreja aqui em baixo tava indo embora entrando no beco da minha casa, perto da sacramento. O pessoal da gangue da Band chegou na hora aí começou a trocar tiro no meio da sacramento. Todo mundo correndo. Eu não tinha esposa ainda não e tava eu e meu colega. Foi aquela
correria. Só barulho de bala passando...”
(W)- Sacramento e Chácara
“...Tem hora que a gente chega de madrugada e pode tomar uma bala sem saber o
que ta acontecendo...” G- Sacramento e Chácara
As trocas de tiros entre bandidos e polícia e entre bandidos de gangues rivais parecem cumprir duas funções fundamentais no tráfico de drogas. A defesa do território e a conquista do
“...Um ethos da honra masculina pervertido aparece também nas relações entre bandidos. Entre eles...parece haver, no limite, uma avaliação moral da coragem do parceiro e da sua posição na hierarquia do tráfico...matar ou trocar tiros implica o risco de ter a imagem pública analisada pelos demais moradores segundo as justificativas de seu ato...O ato de matar uma pessoa não é julgado a priori como um crime, segundo a concepção universal de justiça. A avaliação moral deste ato depende de quem foi morto e em que circunstâncias isso ocorreu...(1985,p143)”
“... tipo assim do morador lá querer roubar a casa de outro morador, mas mesmo assim
o cara já foi até expulso da favela, nem mora aí mesmo. Os meninos do movimento mesmo expulsou ele. Ou então o cara, tipo assim, que nem aconteceu , tem um morador lá perto de casa que é usuário. O rapaz tava devendo 3 mil pros meninos do movimento. Aí os meninos pegou ele e matou ele e ficou com a casa. Por que eles não caça confusão à toa, eles não matam ninguém à toa. Sabe quando eles matou a M ? Ela não tava envolvida, mas depois que eu descobri. Foi ela que escondeu os meninos da Band ( Bandonion) e depois mostrou onde o Q. morava. Aí os meninos da band entrou na casa do Q. de manhã bem cedo e mataram ele com mais de 70 tiros. E o Q. era considerado na Sacramento. Porque eles não ameaça moradores que não tá envolvido não...”