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22 “Racine ou Donne investigavam muito mais do que o coração. Deve-se investigar o córtex cerebral, o sistema

Como foi dito no início do tópico anterior, o levantamento bibliográfico da crítica a respeito de Donne feita ao longo dos séculos serve ao propósito de fazer a experiência do poeta. Cada época demonstra a determinada obra ou grupo de obras uma relação de diferença, identificação ou indiferença. A crítica a partir de Dryden, assim, mostra-se extremamente útil por auxiliar no processo de experiência em relação a Donne, pois evidencia, por meio de sua rejeição, características que não eram evidentes à sua própria época.

Foi demonstrado que o século XVIII não pode conceber Donne em seu despojamento em relação à metrificação. Esta evidência mostrada pela diferença auxilia a pesquisa porque, ao traduzi-lo, um dos passos importantes é captar exatamente onde ele quebra o convencionalismo e onde o mantém.

A crítica de Samuel Johnson demonstra ainda a sua falta de compreensão do uso de conceitos e imagens no Renascimento. É preciso, então, fazer o retorno àquele tempo, compreendê-lo em sua lógica interna, sua proposta peculiar de poesia.

A leitura da crítica de Coleridge, por sua vez, evidencia a dualidade, a idealização dos versos, em um movimento que, ao parecer elogioso, esconde a sua incapacidade de alteridade. Os versos são belos somente para os escolhidos, aqueles que sabem ler o tempo mostrado por meio da sua paixão. Não se deve lê-los pelo que eles são, mas ajustá-los sutilmente, destruindo justamente aquilo que os faz outros em relação àquela época. Assim, na tradução, é importante a atenção não a esta idealização do verso, mas à sua materialidade, à sua letra.

O século XX, por outro lado, toma as dores de Donne e se torna elogioso. Aí reside um perigo. Eliot, em seu ensaio, pretende realocar Donne dentro de uma tradição perdida, com a intenção de incorporá-lo à sua própria poética. Sua interpretação, portanto, acaba dando vazão para a leitura modernizante, romântica, pois o que está em jogo não é simplesmente a compreensão, mas a incorporação. Ao ler sua crítica, deve-se tomar o cuidado de separar o que Eliot projeta de si mesmo em Donne.

No próximo capítulo, é feito um estudo sobre as traduções de três poemas de Donne no Brasil. As escolhas de cada um dos tradutores demonstram caminhos a serem seguidos ou evitados, auxiliando na inserção da voz deste trabalho junto àquelas que se somam ao longo dos séculos já estudados neste capítulo.

3 As traduções de John Donne em língua portuguesa

Os capítulos 2 e 3 poderiam ter sido amalgamados, não fossem algumas diferenças conceituais entre crítica e tradução, além, é claro, do critério da organização. Aquilo a que tradicionalmente se chama crítica literária não é senão uma manifestação mais explícita de crítica. A tradução sempre implica leitura, interpretação. Ela implica, em seu próprio ato, uma maneira de crítica. “What is important to note is that criticism and translation are structurally related. Whether he feeds on critical works or not in order to translate such-and-such foreign book, the translator acts like a critic at all levels” (BERMAN, 2009, p. 28) 23.

Porém, essa crítica necessita ser esclarecida, pois o texto esconde em si mesmo a interpretação da obra de partida. Enquanto na crítica literária há o esforço por mostrar determinada interpretação, na tradução ela está velada. O trabalho para este capítulo consiste, portanto, em desvelar o projeto tradutório e a interpretação de cada tradutor perante a sua obra: uma crítica da crítica.

Mauricio Cardozo resume isto muito claramente em seu artigo A lição bermaniana:

Aqui, trata-se de entender que assumir a tradução como atividade de ordem crítica implica assumir que toda tradução, além de dizer o outro (o texto original), diz também de uma determinada forma de ler esse original, de uma determinada adesão ou não do tradutor a certas tradições de leitura dessa obra, de uma determinada forma de entender a cena literária do contexto cultural de partida e de chegada, de uma determinada forma de entender o que é literatura, o que é poesia, o que é tradução, e assim por diante. (CARDOZO, 2015, p. 153).

John Donne hoje alcança diversas traduções em língua portuguesa, muitas incidindo sobre os mesmos poemas e outras sobre obras até então inéditas em nossa língua. Desta forma, é preciso, dentro do pequeno espaço de um capítulo, fazer um recorte. Os critérios para a seleção residem na rede de semelhanças com a obra a que a dissertação se dedica prioritariamente, por apresentarem estas traduções maior pertinência para a análise. Assim, o primeiro critério é o de não fazer análise de obras em prosa. As traduções Meditações (tradução de Fabio Cyrino, DONNE, 2007) e Inácio e seu conclave (tradução de Marcus de Martini e Lawrence Flores Pereira, DONNE, 2013), portanto, não são discutidas.

23 “O que é importante é notar que a crítica e a tradução são estruturalmente relacionadas. Alimente-se de

trabalhos críticos ou não para traduzir tal e tal livro estrangeiro, o tradutor age como um crítico em todos os níveis” (tradução nossa).

Em segundo lugar, é dada prioridade às obras profanas. Assim, não se tratou de Sonetos

de Meditação (tradução de Afonso Félix de Sousa, DONNE, 1985) e das obras sacras nas

diversas antologias.

Restam-nos as já bastante debatidas traduções de Augusto de Campos (1978; 1986) e Paulo Vizioli (1985), e também aquela pouco mais recente, de Aíla de Oliveira Gomes (1991). No âmbito lusitano, há ainda as traduções de Helena Barbas (1997; 1998).