• No results found

Metode

In document Intraprenørskap og bærekraft (sider 17-20)

Quando ainda era ocupado por famílias de pescadores, o Porto das Dunas chamava-se Barra do Pacoti. As origens desses grupos familiares provinha de Aquiraz e outros municípios do Estado segundo o relato dos antigos habitantes da ex-comunidade.

O povoado era simples como qualquer vila de pescadores. As casas eram todas feitas com madeira do mangue e cobertas com palhas de coqueiro. O sentimento de posse da terra valia pelo tempo que a família ocupava o espaço e passava de pai para filho. Assim como em Abreulândia, os terrenos à beira-mar foram apossados pelos moradores que plantavam coqueiros para demarcar seu chão.

A dificuldade de acesso era um entrave para a comunidade. Distante da sede de Aquiraz, município ao qual pertence essa área, os moradores tinham que suprir suas necessidades básicas, principalmente comprar alimentos e outros utensílios na vizinha comunidade de Mangabeira. Segundo Rita Helita Damasceno de Abreu, a canoa era o meio de atravessar o rio. As famílias mais pobres que não podiam ter uma canoa improvisavam balsas com troncos de bananeira e quem não tinha nenhum desses instrumentos indispensáveis naquela época pegava emprestado dos outros. A solidariedade era um sentimento muito forte entre os integrantes do grupo social.

Paulo Horácio de Brito, atual morador da Prainha do Aquiraz, lembra: A vida na Barra era boa. Nós pescava no mar e no rio e plantava nos quintais de casa mandioca , feijão, milho e batata. Criava gado, galinha, porco, cabra e ovelha. A fartura era grande. Em toda a costa do Aquiraz, o lugar que dava mais peixe era na barra do Pacoti. Era um ponto de pesca da melhor qualidade. Ali era onde se pescava os peixes maiores e de toda a espécie. O porto das jangadas era onde é hoje o Beach Park. Hoje é proibido botar barco em frente aqueles hotéis. (sic).

Nos anos 1970, iniciou-se o processo de compra e apropriação das terras dos pescadores. O sentimento que até hoje essas pessoas têm é o de que foram iludidas, pressionadas a deixar seu lugar de origem e onde viviam

com dignidade. De acordo com Sr. Paulo, “eles chegaram lá, aí iludiram os pescadores e compraram suas propriedades, por um pouquinho de dinheiro eles venderam suas casas e terras e se mudaram para outros lugares”.

Maria Alves Santos Silva nasceu e se criou na Barra do Pacoti. Seu pai nasceu na mesma localidade assim como seus avô e bisavô. Assim é possível ter uma idéia do quanto o povoamento desse lugar é antigo. Ela lembra, saudosa: “Lá era a riqueza, hoje ninguém pode criar que é tudo murado e as pessoas roubam o que é dos outros. Lá na Barra, todo mundo conhecia as coisas dos outros e respeitava”. Criada na bela paisagem da foz do rio Pacoti, dona Maria relata como era o lugar:

Onde hoje é as casas do Porto das Dunas era cheio de lagoas. Tinha lagoa que parecia piscina, aterraram tudo pra fazer as casas. Tinha a lagoa do canal, a água era possível ver uma agulha no fundo. Hoje aterraram tudo, arrancaram os coqueiros. Sempre que vou lá tenho pena, sinto saudade.

Com relação à saída dos pescadores, ela conta que as primeiras famílias foram para o Iguape e para a praia do Barro Preto e, ainda hoje, alguns vivem por lá. Outros foram para a Prainha e as últimas famílias foram para Mangabeira. A família de dona Maria foi a última a sair da barra do Pacoti. Eles mudaram-se para Mangabeira em 1977. “Se todos tivessem resistido, não teríamos saído de lá”, diz ela.

Dantas (op.cit,78) apresenta uma discussão interessante que reforça a fala dos antigos moradores do Porto das Dunas e retrata bem o processo que se deu no lugar relativamente à ocupação e transformação da área da comunidade de pescadores em espaço para veranistas e turistas. O autor esclarece:

A modificação da estrutura da propriedade da terra é obtida mercê da ação dos empreendedores imobiliários, responsáveis por pressão exercida sobre as zonas de praia, ao comprarem ou tomarem posse de grandes extensões de terra nesta zona, para disponibiliza-las como loteamentos aos veranistas. A construção de infra-estrutura torna-se possível com a chegada dos veranistas, que começam a pressionar o poder público, no intuito de dotar os recém-criados loteamentos de condições mínimas de ocupação.

Os anos em que se deu a posse da Barra do Pacoti pelo novo dono, foram muito difíceis para a comunidade. Segundo o depoimento de dona Maria

Alves, as pessoas eram forçadas a entregar suas casas por um preço irrisório sob alegação de que “a terra onde moravam não era deles, já tinha dono”. Houve ameaças, intrigas, resistência, incêndios de casebres e cercas e violências física e psicológica. “Não sei como alguém compra morro” - questiona dona Maria e acrescenta: “João Gentil tomou conta desses morros todos sem dar um centavo a ninguém”. De acordo com os relatos de quem vivenciou o momento histórico em contexto, percebe-se claramente a caracterização de um processo de grilagem. Considera-se grilagem a apropriação por meios ilegais de terras públicas ou apossadas por particulares. Geralmente os grileiros se beneficiam ao se apropriarem de instrumentos legais, ou seja, registro em cartório das terras que pretendem tornar sua propriedade. Naquela época, os pescadores não tinham o registro legal da terra e isso facilitou o processo de apropriação pelo incorporador.

Assis Abreu, esposo de dona Maria, resistiu bravamente, enquanto pôde. Sofreu ameaças, mas dizia sempre “Essa terra foi dos meus avós e depois do meu pai que deixou para mim, como é que agora aparece um outro dono? Aqui ninguém roubou ou matou, então deixa eles virem fazer o que querem”. Dona Maria recorda o quanto sofreu enquanto enfrentou essa situação. No casebre onde moravam, recebiam freqüentemente a visita de policiais averiguando denúncias falsas feitas pelo interessado em comprar seu espaço e foram ameaçados de despejo várias vezes sob alegação de morarem no que era alheio. Assim, percebendo que não poderia mais enfrentar tais ameaças, desamparado ante a situação posta, eles entregaram por pouco o seu cantinho.

Sem forças diante do poderio econômico e político que os pressionava, sem o apoio do Estado ou da Prefeitura de Aquiraz, os moradores perderam tudo e iniciaram a total retirada do seu lugar de origem e de sobrevivência, passando a enfrentar adversidades de toda espécie.

Depois de consolidada a posse do novo dono, foi construída a ponte sobre o rio Pacoti. Segundo consta nos relatos orais das pessoas que vivenciaram esse episódio, a instalação desta deu-se com recursos próprios do

incorporador. Foi a partir do estabelecimento dessa primeira infra-estrutura, incluindo a estrada transformada posteriormente na CE 025, que se iniciou o loteamento, com a rápida ocupação pela atividade de veraneio na área.

A figura 06 (pág,43) mostra o projeto original do empreendimento imobiliário Porto das Dunas, que desconsidera as características morfológicas do terreno, estabelecendo a implantação de ruas e lotes na área total do estuário, sobre as lagoas que havia em grande quantidade na área e em cima das dunas. O projeto desconsidera ainda o direito de propriedade de uma proprietária fundiária dona de uma área de 40 hectares situada próximo à foz do Pacoti e que, até o momento, não foi negociada com os incorporadores atuantes na região. Segundo o Sr. Chico, pessoa responsável por garantir a proteção dessa gleba, a disputa por essa área foi intensa, chegando inclusive à Instância Federal do Poder Judiciário, que deferiu ganho de causa para a atual proprietária.

In document Intraprenørskap og bærekraft (sider 17-20)