A comunidade de São José, mais conhecida como Malalahá, localiza-se na margem direita do rio Preto, na confluência com o igarapé Malalahá. A história da fundação da comunidade apresentada aqui está fundamentada na história oral, complementada por documentos escritos expedidos pelas prefeituras de Santa Isabel e Barcelos. Esses documentos dizem respeito à permissão para exploração das terras do Igarapé Malalahá e seus confluentes por parte da família Marat, que, assim, mantém domínio social, político e econômico na área desde os anos 1960.
A comunidade segue a estrutura necessária para caracterizá-la como tal naquela região, a saber: escola, capela, centro comunitário, campo de futebol, posto de saúde, casa de radiofonia. É administrada por um administrador, aqui eleito de maneira muito peculiar. Ele não é escolhido pelos moradores, mas pela família Marat. Os Marat são conhecidos como os patrões mais violentos do rio Preto, e controlam o cargo de administrador ali.
Os igarapés Malalahá e Diogo, antes da chegada da família Marat, eram habitados por um grupo de famílias indígenas (Baniwa e Baré), mas estas famílias se sentiam ameaçadas pela ocupação da área por um grupo de arigó. Então, os Baniwa resolveram descer o rio Preto e os Baré permaneceram. Essa situação aconteceu nos idos da década de 1950, sem que se soubesse do destino da família baniwa. Depois da descida, a área começou a ser ocupada por um homem chamado Antônio Sanches que era indígena baniwa e casou com uma mulher migrante da cidade. De acordo com seu Caetano41 de Jesus Baré, fundador da comunidade de Campinas do Rio Preto, na região do igarapé Malalahá e Diogo habitava de fato um grupo de índios baniwa e que provavelmente este poderia ser o grupo do seu Antônio Sanches. Os pais do Antônio Sanches vieram do rio Caiari, porém, Caetano de Jesus não chegou a conhecê-los.
Somente a partir do final da década de 1960, a família Marat passou a ocupar a região, quando seu José Marat da Silva Pinheiro comprou o igarapé Diogo das mãos do seu Antônio Sanches Baniwa, na proximidade do lugar denominado de Raizal, onde
41 Faleceu em 2012 com cento e três anos. Dois anos após a minha primeira estada em Campinas do Rio Preto.
ergueram as primeiras colocações nesse igarapé. Os pais do José Marat vieram da Venezuela, da localidade denominada de Maroa, nos meados dos anos 1920. Antes de migrarem para o rio Preto, a família Marat residia na cidade de Barcelos, onde atualmente ainda possui propriedades.
A partir de 1960, a área vem sendo ocupada pela família Marat que teve como objetivo da compra e da ocupação, exclusivamente, a exploração da piaçaba. Em decorrência do trabalho árduo que exige a extração da fibra, a família passava boa parte do ano no igarapé. Os seis filhos do seu José Marat nasceram no local, Raizal. Seu José Marat tornou-se um patrão bem sucedido e começou a arregimentar um aglutinado de fregueses, principalmente os Baré habitantes de sítios no curso maior do rio Negro, indígenas do Içana e migrantes de outras regiões do Brasil. Foram os içaneiros, como são chamados os índios baniwa, que primeiramente passaram a trabalhar na região do Malalahá.
A família Marat passou a morar num sítio denominado São José em meados da década de 1960, localizado na foz do igarapé Malalahá e confluência com o rio Preto. Nesta localidade ergueram casas, construíram uma capela, tornando-se ali o ponto de referência para o comércio de piaçaba no médio rio Preto. Há dez anos, seu José Marat abandonou o trabalho na região, migrando para a cidade de Barcelos. Dentre os seus seis filhos, apenas o senhor Edson Marat permaneceu na região, herdando do pai as funções de patrão. Edson Marat procurou a Associação das Comunidades Indígenas do Médio Rio Negro - ACIMIRN para requerer carteira de identidade indígena, com argumento de que seus avôs vieram da Venezuela e eram indígenas verdadeiros. Há muitas controvérsias quanto a sua indianidade, sobretudo por Edson Marat ter herdado do seu pai todos os adjetivos de um patrão feroz, motivo pelo qual a Associação Indígena de Barcelos - ASIBA não deu permissão de expedição da carteira indígena para o patrão Edson Marat.
Recentemente, o sítio São José, mais conhecido como Malalahá, foi elevado à categoria de comunidade, recebendo visita de autoridades do poder executivo e legislativo da cidade de Santa Isabel para formalizar a passagem para o novo status e assumir alguns compromissos, tais como construção de uma escola e a reforma do posto de saúde. Antes de se tornar comunidade, Malalahá já possuía escola e posto de saúde que recebiam ajuda em parte dos missionários católicos e do patrão Edson Marat, o qual nos afirmou que a primeira escola foi fundada em 1980, pela professora Marilena, que realizou curso no internato salesiano na cidade de Santa Isabel.
Em 2003, Malalahá, junto com as comunidades de Campinas do Rio Preto e Águas Vivas, resolveram fundar a Associação das Comunidades Indígenas do Rio Preto (ACIRP), que busca atender aos interesses das populações que habitam as margens do rio Preto. A Associação ainda não está formalmente regularizada devido à demora dos tramites burocráticos necessários. A Comunidade de Mangueira, que é dissidente de Malalahá foi fundada somente em 2011, quando passou a integrar à ACIRP.
Em Malalahá, vivem atualmente onze famílias, residindo em onze casas. A população é composta de cinquenta e sete pessoas, sendo vinte e nove do gênero masculino e vinte e oito do gênero feminino; deste total, trinta e sete são crianças de zero a quinze anos, sendo dezoito mulheres e dezessete homens. Veja o modelo diagramático abaixo.
Figura 08: Desenho diagramático das famílias de Malalahá
Do ponto de vista econômico, os moradores de Malalahá se dedicam em boa parte do tempo às atividades extrativistas da piaçaba e, de forma complementar, nas horas em que não estão nos piaçabais, praticam a caça e a pesca. Poucos na comunidade se dedicam ao trabalho nas roças. Das onze famílias, apenas duas estão envolvidas com este tipo de atividade. Existe ainda ali uma produção de artesanato muito restrita, baseada na confecção fogão de barro, chapéus e vassouras de piaçaba, porém o destino
desse artesanato são as mãos dos patrões na cidade de Barcelos e também Santa Isabel. O local apresenta uma área relativamente densa de piaçabais, havendo conflitos relacionados à exploração de recursos naturais; isto porque os patrões consideram-se donos dos igarapés, limitando a entrada de pessoas, salvo aquelas que estão amarradas às dívidas, ou seja, que se tornaram fregueses cativos.
Diante dessa conjuntura, os moradores são obrigados a se submeter ao regime de aviamento, pois para morar em Malalahá eles têm que ter a permissão do administrador, que é um representante do patrão.
Nós não temos liberdade de escolher patrão aqui, porque os lugares de trabalho [igarapés] são controlados por eles. O patrão é temperamental; às vezes ele tá bom é amigo, é menos feroz, mas logo ele se zanga, vira uma fera, cobra tudo com se fosse o dono de tudo, o dono da mata. Ele se diz o verdadeiro dono, dificulta tudo com a história de dizer que as terras foram legalmente concedidas para a família dele. Nós somos impedidos de trabalhar nos igarapés do patrão. Se uma pessoa trabalhar nesse igarapé e não for freguês do patrão, tem que pagar uma renda muito forte para o patrão. (o entrevistado pediu para não ser identificado. Entrevista realizada no dia 19 de agosto de 2010).
Em decorrência dessa situação, criou-se um cenário de fissão entre grupos e comunidade, fato comum no rio Negro. Cerca de seis famílias que estão em Malalahá migraram para outras comunidades e outras duas fundaram a comunidade de Mangueira, abaixo da Malalahá. Em relação à política de vizinhança, a maioria das famílias em Malalahá não está ligada por laços de consanguinidade, mas sim por relações de afinidade, compadrio e descendência étnica, ou seja, a maioria se identificou como pertencente ao povo Baré.
Para amenizar os conflitos entre os fregueses e o patrão visto como feroz, a comunidade de Malalahá festeja São José no mês de março. Durante as festividades há uma integração entre as pessoas, os conflitos são suspensos temporariamente. Nesta época os fregueses abandonam os trabalhos nos piaçabais e passam a se dedicar mais ao “santo” em detrimento do patrão. Encerradas as festividades, muitas famílias estão endividadas, primeiro por terem passado uma semana fora do piaçabal e, segundo, porque o “santo”, além de gerar perspectiva de boa vida, gera dívidas, pelo intenso consumo de bebidas e alimentos nessas festas. Porém, na argumentação do seu Alberto da Silva, um indígena baré conhecido com Bilolô, há uma justificativa para o significado e a razão de festa:
(...) A vida aqui é sofrida, mas também é boa, sabe? Sofrida porque ainda temos que trabalhar para o patrão. Também é sofrida porque as coisas estão muito longe de nós. Tem coisa que nos não sabe que tem, mas é por causa da nossa vida ser assim mesmo, o senhor sabe! Gente que mora dentro dos rios (...). Nós já estamos acostumados com essa vida. Tem o momento bom pra nós também, tem o peixe, tem a caça, tem outras coisinhas que garante nossa vida, o sustento da família. Tem o momento de alegria, tem os nossos vizinhos que não arruma confusão e tem a festa do “santo” que ajuda a nos proteger dos homens e dos bichos do mato, dos bichos-do-fundo, dos encantados. Então temos que respeitar e participar de tudo. Faz tudo isso, mas a presença dos padres aqui é bem pouca, nem sei quem é ele mesmo. (Alberto Nunes da Silva – seu Bilolô, comunidade Malalahá, setembro de 2010)
Outro morador do lugar, complementa essas informações da seguinte maneira: Aqui até a casa que eu moro é do patrão. Ele manda em todo palmo de terra que a gente pisa. Ele que diz quem vai pra escola ou quem deve deixar de ir. Fica falando até para as mulheres deixar de engravidar, por que assim dá muito trabalho. Se um dia eu for embora de Malalahá eu não posso levar nada. Sei se o que eu dedico ao santo pode me acompanhar. A camaradagem do patrão aqui é bem diferente, ele manda em tudo, até no jeito do nosso alimento, na minha vontade de ter as coisinhas da rua, um rádio, uma camisa, uma manteiga. Sabe, aqui tem mais controle. (O narrado solicitou para não ser identificado, setembro de 2010).
Essa questão, dentre outras relacionadas ao patrão Edson Marat motivou um grupo de família a fundar a comunidade de Mangueira.