5.2.1. A relação entre pesquisa e intervenção
O caso abordado na investigação aqui efetuada decorreu de intervenção da pesquisadora junto aos trabalhadores do Almoxarifado Central da UFC. Tal intervenção está compreendida no projeto Elaborar, conforme mencionado previamente. Todo o material produzido na intervenção descrita adiante foi utilizado para a construção do corpus pertinente ao caso analisado.
O delineamento corrobora a perspectiva de Clot (2010), para quem primeiro realiza-se a intervenção para, em seguida, dar-se início à pesquisa e, por conseguinte, à discussão sobre os dados construídos no decorrer do processo interventivo. Os sujeitos e, portanto, a necessidade de ampliar seu poder de agir encontram-se como foco do processo de intervenção e não a construção de dados. Não se pode demandar que os trabalhadores atuem para que o pesquisador empreenda sua investigação, daí a necessidade de primeiro intervir para depois pesquisar.
Como afirma Brandão (2012, p. 118), ao tematizar a Clínica da Atividade, “pesquisa e intervenção possuem temporalidades distintas e configuram objetos diferentes também. Elas guardam uma relação de mútua independência”. Preservam-se assim as especificidades e os potenciais de cada um desses momentos, não os misturando ou fragmentando em categorias, esquemas ou elementos estanques ou repetitivos.
Kostulski (2011) supõe “não ser possível separar a posição do pesquisador de uma posição mínima de expertise ou de alguém que possui um saber”, sendo necessária essa distinção porque o foco da intervenção deve estar na ação de transformação pelos trabalhadores e não na compreensão desta ou do seu desenvolvimento por parte do pesquisador, a fim de não incorrer no risco de paralisar-se a ação. Desta maneira justifica-se a inversão da lógica científica tradicional, donde se assume “não mais compreender para transformar, não mais diagnosticar, mas transformar para compreender (pensar/agir para saber)” (BRANDÃO, 2012, p. 116). Pressupõe-se, por conseguinte, um trabalho posterior do pesquisador e, portanto, um outro tempo, um outro ofício com suas questões, com os dados construídos e suas hipóteses e perguntas suscitados pela intervenção.
Lousada (2015) aborda essa discussão a partir da questão do método, ao afirmar que os métodos propostos pela Clínica da Atividade, que surgem com o cerne na transformação dos contextos de trabalho, são métodos de intervenção. Segundo a autora (2015, p. 3), eles
“permitem a redução de conflitos no trabalho, ou seja, eles visam e têm resultados práticos, como postulado por Vygotski (1997, 2004). Apenas após a intervenção, os dados obtidos são transformados em pesquisa”. Ela reforça ainda que não se trata de métodos de coleta de dados.
Enquanto a intervenção nasce da demanda do trabalhador para solucionar conflitos do contexto de trabalho, a pesquisa nasce de uma inquietação, um questionamento do pesquisador, e possui objetivo científico, por isso essas duas etapas guardam momentos e temporalidades distintas.
Em outras abordagens metodológicas de pesquisa-intervenção, esses momentos desenvolvem-se simultaneamente, a partir dos quais pesquisador-interventor precisa estar atento ao lugar que ocupa e em constante questionamento quanto a seu papel ao “conduzir” a intervenção, com suas questões de pesquisa pré-formuladas, bem como em relação aos seus a prioris, hipóteses, sendo necessário distanciar-se ou operar um deslocamento deste lugar para abrir-se ao novo, ao imprevisível, às possibilidades que se colocam no ato de pesquisar.
Clot propõe que a intervenção nos contextos de trabalho ultrapasse a mera prática da expertise. Como afirma Lima (2011, p. 245),
a proposta da clínica da atividade é a de criar condições que permitam restaurar o “poder de agir” dos sujeitos nos seus contextos de trabalho, ao invés de simplesmente fazer um “inventario de queixas” ou propor um diagnóstico dos problemas, apresentando, em seguida, sugestões de mudanças. Segundo ele, ao contrário da premissa positivista de “saber para prever e agir” o que a clínica da atividade propõe é “agir sem poder prever a fim de conhecer”. Dessa forma, a ideia é a de que se passe de uma posição “higienista positivista” para uma posição voltada para a ação.
Clot (2010, p. 117) acrescenta: “Mudar uma situação não pode constituir o objeto da intervenção de uma expertise ‘externa’”. Daí é que a Clínica da Atividade se propõe a implementar dispositivos metodológicos que sejam utilizados pelos trabalhadores em momentos posteriores/futuros, após o encerramento da intervenção e a saída da equipe de analistas do trabalho. Espera-se que o trabalho se torne alvo de pensamento para os trabalhadores ao longo da sua atividade e isto só poderá ser alcançado com estes assumindo o protagonismo nas análises do trabalho (CLOT, 2010).
Assim, na Clínica da Atividade o psicólogo deve sair da posição de especialista, daquele que afirmará sobre o certo e o errado. Questiona-se o “lugar do especialista como porta-voz da ciência e da vontade de verdade” (MIRANDA, 2014, p. 83), como aquele que não atuará como um expert que traçará planos de ações, diagnósticos, seguido de soluções
externas, mas age mais como um facilitador, um mediador dos processos envolvidos no debate sobre as demandas do coletivo de trabalho.
O desenvolvimento que se “propõe”, corroborando a proposta vygotskiana, diz respeito a uma noção de abrir-se às possibilidades, aos outros possíveis e inimagináveis do real da atividade.
Ao apontar a centralidade do papel do trabalhador como protagonista na análise da atividade tal perspectiva desloca o papel de expertise e centralidade do clínico do trabalho. Este sai do lugar de especialista e detentor do conhecimento para um lugar do não saber, ficando a condução do processo a cargo dos trabalhadores, que são implicados e responsáveis pelo decorrer das análises. O pesquisador torna-se responsável por mediar tais processos e facilitar as interlocuções, agindo sobre as controvérsias, que passam desapercebidas nos diálogos dos profissionais.
O papel do psicólogo consiste, portanto, em:
concentrar-se nos movimentos que os trabalhadores fazem para criar e recriar seu trabalho. [...] partem do princípio de que a temática saúde e trabalho, como objeto de investigação científica, tem uma especificidade que não pode ser tomada com posturas de exterritorialidade (Schwartz, 2004) no que diz respeito à relação do pesquisador com a análise desse objeto. As questões dos mundos do trabalho não podem estar baseadas apenas em quadros analíticos construídos externamente. (BARROS; TEIXEIRA, 2009, p. 82).
Assume-se, por conseguinte, “o diálogo como um caminho necessário para que se efetive um debate entre os saberes científicos e os saberes advindos da experiência” (BARROS; TEIXEIRA, 2009, p. 82), possibilitando a troca entre os trabalhadores e o psicólogo. A análise do trabalho consiste assim num espaço de debate coletivo, compartilhamento, troca e implicação.
Esta reflexão corrobora a proposta de pesquisa utilizada pela Clínica da Atividade e as questões éticas que perpassam o ato de pesquisar. Apontaremos ao leitor o contexto geral da intervenção realizada, apresentando como ela se desenvolveu para em seguida debruçarmo- nos sobre a metodologia da pesquisa a ser aplicada — a videografia como método de investigação e posterior análise dos resultados.