Inspirada na publicação argentina Conta y gana, a revista Sou mais Eu organiza-se sobre os mesmos conteúdos e proposições: conte uma história interessante e receba algo por isso. Desde a capa, Sou mais Eu trabalha no esforço de transformar os participantes em personagens principais. Exceto os receituários, todos os textos das chamadas são escritos em primeira pessoa. Pessoas que assumem diversos papéis: conselheiros, aconselhados, amigos, especialistas, consultores. Segundo Costa (2011, p. 71), “a inserção do sujeito que fala dentro do conteúdo da revista Sou mais Eu é legitimada pelo estatuto do saber que é dado a ele. Assim, as leitoras que têm sua vida pessoal exposta podem afirmar uma posição perante o mundo” (grifos da autora).
Dentre as revistas populares aqui analisadas, Sou mais Eu apresenta uma proposta editorial inovadora ao optar por publicar histórias comuns e não embasar seu conteúdo em celebridades. Apesar da eleição das histórias que estamparão as capas e matérias da publicação, a revista é a única na atualidade construída a partir de histórias de pessoas reais, não conhecidas midiaticamente. O título da publicação denota uma postura de autoafirmação do sujeito, valorização de si mesmo, correspondendo ao objetivo da publicação de propiciar ao público leitor voz, empoderamento.
O enquadramento da subjetividade proposto na revista é semelhante ao que Sibila (2008) denomina de espetacularização da sociedade, a partir da introdução das novas mídias, em especial as digitais, no cotidiano das pessoas. A “democratização” dos meios segundo a autora possibilitou a superação do modelo de comunicação unilateral – um emissor para vários receptores, para um fenômeno de comunicação fluído e dinâmico: de todos para todos, em que todos podem ter “voz”.
Corpo, dinheiro e visibilidade são elementos interligados visualmente e textualmente na revista. O corpo preenche 100% das capas das revistas presentes no
corpus. Mas não é qualquer corpo, trata-se do corpo pós-dieta, corpo emagrecido, de preferência o corpo “seco”. É esse corpo que merece destaque e inclusive cachê.
De certa forma, essa tríade tem no corpo um ponto de intersecção: com o corpo emagrecido a colaboradora de Sou mais Eu recebe dinheiro e ganha uma semana de fama, de visibilidade.
Ao longo de oito anos a diagramação da revista se mantém sobre certa similaridade. O título, até 2008 escrito com o sinal matemático da adição (Sou + Eu), passou a ser escrito por extenso, ao mesmo tempo em que o corpo feminino foi ocupando centralidade na capa, enquanto, antes, aparecia o busto e destacava-se o rosto feminino46. Desse modo, Sou mais Eu já estabelece um padrão a ser seguido, uma vez que mantém os mesmos recursos de imagem e texto, alterando apenas a mulher que estampará a capa.
Apesar de, no início de 2006 e ao fim de 2014, trazer na capa histórias que não contemplam necessariamente a perda de peso, o forte apelo a dietas é também um padrão na revista, sempre apreciada nas capas e destacada pelo processo de “antes” e “depois”.
Costa (2011) comparou elementos das capas de Sou mais Eu e Claudia47. Segundo a autora, há semelhanças entre as capas de ambas as revistas, como a faixa etária das mulheres da capa, o olhar direcionado para o leitor, produção em roupas e maquiagem. Contudo,
há dois pontos de distinção a serem ressaltados. A mulher da revista Claudia está centralizada na capa da revista, sendo contornada pelo texto, deixando mais espaços de respiro; e toda produção presente na foto, do figurino à maquiagem, conferem à atriz o status de celebridade de que ela desfruta. Dessa forma, a mulher estampada na revista Sou mais Eu, da Abril, não consegue atingir o status de “diva” que possuem as famosas que posam para as publicações direcionadas às classes A e B. Por meio da imagem, é ratificado o lugar de pertencimento imagético dessas mulheres, que é diferente do das de outras publicações (COSTA, 2011, p. 82).
Ainda de acordo com a autora, a mulher da capa transcende à sua individualidade ao ser apresentada como modelo de corpo a ser seguido.
A visibilidade em Sou mais Eu é, sem dúvidas, proporcionada pela “interatividade” presente desde o seu lançamento em 2006, quando a revista
46v. figura 9 no tópico “A performática Sou Mais Eu”, no Capítulo II.
47 Claudia é uma revista publicada pela Editora Abril, destinada ao público feminino, em circulação desde
outubro de 1961. Disponível em: http://www.publiabril.com.br/marcas/claudia/revista/informacoes- gerais. Acesso em: 25 fev. 2015.
disponibilizava canais de comunicação com possíveis “colaboradoras”. Na atualidade, a revista recebe materiais tanto por meio de cartas quanto via internet.
Em geral, em sua segunda página Sou mais Eu traz a seção “Como usar a revista”, espaço onde convoca a leitora a participar efetivamente da publicação. Nesse espaço, é disponibilizado um passo a passo, ensinando a como colaborar com a revista e a “receber por isso”. O convite “Seja uma colaboradora da revista!” acentua ainda mais o aspecto de protagonismo das leitoras ao passar a ideia de que a revista é feita por elas e delas depende. No mesmo ambiente textual, fica claro que as histórias de vida e dicas disponibilizadas pelas/os leitoras/es serão pagas. Os valores são destacados, em especial o cachê de capa, no valor de mil reais. O dinheiro, e provavelmente a perspectiva de fama e visibilidade, mantém a revista em pleno desenvolvimento.
Ao explicar como é realizada a seleção dos conteúdos enviados – e já que se trata de uma seleção, subentende-se que apenas alguns relatos escolhidos serão publicados – o enunciador motiva o enunciatário a continuar colaborando com a revista e pede que este não desista: “Se sua história ou foto for selecionada, entraremos em contato com você. Caso não seja publicada num prazo de até três meses, não desista. Tente de novo!” (SME, Edição 254, p. 02).
A linguagem mais cotidiana, casos de pessoas comuns, objetiva aproximar o público leitor do conteúdo editorial, tornando-o fiel, já que a revista é editada semanalmente e não é obtida por assinaturas ou em formato digital. Porém, um dado nada sutil chama atenção e nos faz questionar o papel da revista no reconhecimento de seu público leitor. Todas as capas da revista, deste 200648, trazem em sua imagem de capa a representação da mulher branca. Segundo estudo realizado pelo Ibope49, “Pessoas brancas não são maioria absoluta na classe C. Esse grupo é composto pelos herdeiros da miscigenação, que, somados aos negros, fazem a maioria dessa população”. O estudo ainda sugere que a maioria da classe C é jovem, negra e magra. Tais dados denotam que a revista não representa a mulher que é a maioria do seu público leitor – e, provavelmente, colaborador. Por que Sou mais Eu não seleciona
48 Até o transcurso da pesquisa não constaram capas trazendo mulheres negras ou com representações
desse grupo. Apenas em Janeiro de 2015, na edição 426, a publicação trouxe uma mulher negra na capa. Neste mesmo ano, as capas passaram a exibir com maior frequência outros tipos de histórias de vida além de receituários de dietas.
49“A Classe C urbana do Brasil 2010: Todas as informações relevantes Análises & Insights”. Disponível
mulheres negras com frequência? Por que o problema de excesso de peso é evidenciado como o que mais aflige a classe C, público-alvo da revista?
Acreditamos que mais uma vez aqui se desenha o que Ciampa (2005) conceituou como “identidades pressupostas”. Para além de uma demarcação classista, Sou mais Eu reverencia os demais moldes das revistas impressas femininas, ao menos na maioria de suas imagens de capa e mesmo que esta não alcance o patamar de diva. Ao priorizar a mulher de pele clara, que, mesmo miscigenada, preserva traços de uma época de colonização europeia, a revista se assemelha às demais publicações criadas para mulheres. É nesse ponto também que podemos questionar a parceria entre revista e leitora e o esforço de tratá-la como colaboradora soa artificial.
Há várias possibilidades de ganhar dinheiro na revista. Além da própria exposição, há enunciados sobre atividades informais, como transformar roupas e acessórios, aproveitar promoções etc. Podemos citar a chamada de capa: “O milagre da decoração: transforme um cômodo em dois sem obra!” (SME, edição 351, de agosto de 2013). A matéria sugere, ao mesmo tempo, dois benefícios: a possibilidade de aumentar o tamanho da casa e a economia, uma vez que custos com reformas são normalmente considerados altos.
Figura 27 – Matéria “Uma divisória: um novo quarto”.
Fonte: Sou mais Eu, edição 351, agosto de 2013, p.22-23.
A leitora Maria Aparecida Moreira Bovolon relata: “Uma divisória usada me fez ‘ganhar’ um quarto”. A colaboradora enfatiza que vivia em lua-de-mel como o “maridão” em um “quarto-sala-banheiro” até o nascimento do filho. A vida íntima do casal estava comprometida, já que dormiam os três no mesmo quarto. Depois do filho
perceber algo estranho no comportamento noturno dos pais, a leitora exigiu uma atitude do marido, que instalou um cortina. Porém, após dois anos, a cortina também incomodava. “Foi meu maridão mesmo quem colocou a divisória! [...] Ele pesquisou bastante e acabou encontrando uma loja no bairro mesmo, vendendo divisórias de madeira usadas, daquelas próprias para escritórios” (p. 22). A matéria de duas páginas traz as imagens do “antes” e “depois” da transformação e enfatiza a felicidade de Maria Aparecida e do filho com a nova situação. Um quadro informativo nomeado de “Da redação” explica para a leitora sobre divisórias, tipos, vantagens e desvantagens. E no espaço “Vitrine”, ao lado, anuncia alguns tipos e seus respectivos preços.
Da análise do eixo de Sou mais eu, percebemos que a construção do sentido de “ser mulher”, com base nas representações da revista e segundo Fairclough (2003), se ancora em um constante rearranjo, pautado em uma concepção dialética da relação entre eventos discursivos. No caso de Sou mais Eu, existem dois planos paralelos de enunciados. No primeiro plano, o da imagem, ao tentar representar a mulher da classe C, tomando como base atributos de uma mulher de classe mais alta – sobretudo pela maioria de suas eleições de capa – Sou mais Eu procura modelar-se como outras revistas femininas; no segundo plano, seus conteúdos textuais, dispostos no mesmo espaço, retomam temas voltados para a classe; midiaticamente associada à quantidade de dinheiro que (não) possui. Podemos observar, mais uma vez, através das práticas discursivas desse segmento de revistas, um processo de fixação/estabilização da construção identitária da mulher da classe C, em especial pela negação da sua diferença em relação a outras classes: o bolso.