Dois padrões foram utilizados como referencial para ajustar e analisar o modelo: as tendências temporais da prática de atividade física no lazer e da distribuição populacional de intenção em praticar atividade física no lazer.
Quanto ao primeiro padrão, estudos em diversos locais do mundo com populações adultas apontaram proporções de pessoas praticando atividade física no lazer estáveis ou com pequeno crescimento, normalmente inferior a um ponto percentual ao ano, em períodos variando de cinco a 10 anos, período equivalente às simulações nesta tese. Devido às particularidades em relação às localidades dos estudos, aos instrumentos utilizados, ao período monitorado e ao momento histórico, os patamares das proporções variaram de 35 a 50% (CRUZ, 2015; JUNEAU; POTVIN, 2010; KNUTH; HALLAL, 2009; MIELKE et al., 2014; NUNES et al., 2015; ROMÁN-VIÑAS et al., 2007; SILVA et al., 2014; STAMATAKIS; CHAUDHURY, 2008).
Em relação ao segundo padrão, a informação desejada era a evolução temporal da distribuição populacional de intenção em praticar atividade física no lazer em adultos. Como
proxy de intenção, buscou-se também pela distribuição populacional de estágios de mudança
de comportamento, constructo parte do modelo transteórico (PROCHASKA; REDDING; EVERS, 2008). No entanto, a busca na literatura não retornou nenhum trabalho com essa informação. Dessa forma, buscaram-se estudos transversais de base populacional, nos quais só distribuições de estágios de mudança de comportamento foram encontradas. Em geral, as distribuições apresentaram forma de U, com maiores proporções nos estágios de manutenção (de 25 a 45%) e pré-contemplação (de 20 a 35%). Os estágios de contemplação e preparação
alternaram a terceira maior proporção (em torno de 15% cada) e o estágio de ação é o que apresentou os menores valores (em torno de 5%) (BULL et al., 2001; DUMITH; GIGANTE; DOMINGUES, 2007; KEARNEY et al., 1999; LAFORGE et al., 1999).
Portanto, esperou-se que o modelo fosse capaz de reproduzir cenários em que a prática de atividade física no lazer fosse estável ou tivesse pequeno crescimento no decorrer do tempo e que apresentasse uma distribuição populacional de intenção em forma de U.
A última coluna do Quadro 5 apresenta os valores definidos para todos os parâmetros do modelo. Tamanho da rede proximal (network.size), da comunidade percebida (observed.comm) e a quantidade/densidade de espaços em que atividade física no lazer pode ser praticada (prop.ltpa.sites) foram definidos com base em informações empíricas.
Estudos apontam que, em geral, adultos reportam de cinco a 20 pessoas que consideram próximas, com moda em torno de 10 (CARROLL, 2004; ROBERTS et al., 2009; STILLER; DUNBAR, 2007). Ao mesmo tempo, parece haver um limite para a quantidade de pessoas de quem se consegue integrar e atualizar informações, em torno de 100 a 300 (HILL; DUNBAR, 2003; KANAI et al., 2012; STILLER; DUNBAR, 2007).
Quanto à quantidade/densidade de espaços em que atividade física no lazer pode ser praticada, apesar da alta heterogeneidade metodológica entre os aspectos metodológicos dos estudos, pareceu plausível e consistente, com base nas informações obtidas na literatura, que cada adulto reconheça de nenhum a oito locais de prática, com média em torno de três (ESTABROOKS; LEE; GYURCSIK, 2003; HALONEN et al., 2015; HINO, 2014).
O raio de percepção do indivíduo (perception.radius) foi definido de forma a ser consistente com o tamanho da comunidade percebida (observed.comm), a quantidade/densidade de espaços em que atividade física no lazer pode ser praticada (prop.ltpa.sites) e com os padrões sistêmicos relatados na literatura. Um raio de percepção de tamanho nove equivale 254 (10%) células da grade. A média de quantidade de pessoas dentro
do raio é igual 170 (desvio-padrão = 40, mínimo = 50, máximo = 240) e de locais em que atividade física no lazer pode ser praticada é 3,2 (desvio-padrão = 1,8, mínimo = 0, máximo = 9).
Os parâmetros prop.low, min.low.in, max.low.in, min.high.in e max.high.in foram definidos de forma que a distribuição inicial de intenção e a proporção de pessoas praticando atividade física no lazer se assemelhassem às reportadas na literatura.
Para os demais parâmetros, foi definido um valor que reproduzisse as tendências temporais da prática de atividade física no lazer e dos níveis de intenção esperadas, já que para eles não foram encontrados dados empíricos para a parametrização. Informações da revisão da literatura foram consideradas para garantir coerência conceitual, como no caso dos parâmetros alpha.behavior, alpha.network e alpha.comm, em que seus valores decrescentes basearam-se na informação de que comportamento da própria pessoa tem tamanho de efeito maior sobre a sua intenção do que o comportamento das pessoas próximas e da comunidade em geral.
Como exemplo, uma pessoa nesse cenário com intenção de 0,506, que tenha praticado atividade física no lazer na semana anterior, assim como 60% da rede proximal e 47% da comunidade percebida também tenha praticado, e que o melhor local em que atividade física no lazer pode ser praticada dentro seu raio de percepção tenha utilidade percebida de 0,455 (i.e., de utilidade neutra à baixa), terá sua intenção atualizada para 0,508 (ou em uma escala percentual, em 0,2 ponto percentual).
A Figura 7 apresenta as tendências temporais de pessoas praticando atividade física no lazer e de pessoas com baixa, intermediária e alta intenção (outputs do modelo), gerados a partir do cenário com os valores dos parâmetros apresentados no Quadro 5. Observou-se que esse cenário foi capaz de reproduzir os padrões temporais reportados na literatura, com a prevalência de atividade física no lazer estável em torno de 48% no decorrer dos anos, enquanto a
distribuição populacional de intenção apresentou forma de U, com proporções crescentes de pessoas com baixa e alta intenção com o tempo.
Figura 7. Outputs do cenário investigado do modelo obtidos a cada 52 iterações (equivalente a anualmente), sumarizados a partir 80 replicações. Legenda dos outputs (linhas): vermelho = proporção de pessoas praticando atividade física no lazer; azul = proporção de pessoas com baixa intenção (0 ≤ intenção < 0,25); verde = proporção de pessoas com intermediária intenção (0,25 ≤ intenção ≤ 0,75); preto = proporção de pessoas com alta intenção (0,75 < intenção ≤ 1).