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Temos mencionado em vários momentos neste capítulo a respeito da interdisciplinaridade. Na verdade, utilizamos esse termo para nos fazer compreender durante nossa abordagem, já que esse não era o tema central. Entretanto, chega o momento de nos dedicarmos especificamente à relação entre as disciplinas e cabe-nos dizer que a interdisciplinaridade não comporta mais as necessidades humanas e científicas atuais, fazendo-se necessário ir além, em prol de uma transdisciplinaridade.

Edgar Morin (2002), mencionado anteriormente, explica a diferença entre a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade. Acompanhemos seu raciocínio:

A interdisciplinaridade pode significar que diferentes disciplinas encontram-se reunidas como diferentes nações o fazem na ONU, sem entretanto poder fazer outra coisa senão afirmar cada uma seus próprios direitos e suas próprias soberanias em relação às exigências do vizinho. [...]

A transdisciplinaridade se caracteriza geralmente por esquemas cognitivos que atravessam as disciplinas, às vezes com uma tal virulência que as coloca em transe. (MORIN, 2002, p. 48-49)

Ou seja, a interdisciplinaridade apenas coloca as disciplinas em contato, mas não cria uma linha que as atravessa e as torna uma só. É preciso algo mais. Esse algo mais foi chamado por Edgar Morin (2002) de transdisciplinaridade, e temos concordado com ele quanto à validade do termo, sem desprezar as contribuições interdisciplinares, que já são, pelo menos inicialmente, de grande valia.

Em virtude da mentalidade científica vinda do século XIX, baseada no positivismo e na divisão das áreas do conhecimento, o que vemos em nossa sociedade atualmente é uma tentativa cada vez mais forte de separação dos saberes. Somos ensinados a isso desde a infância, na escola, quando as disciplinas não parecem ter qualquer ligação umas com as outras. Esse treinamento separatista que é a nossa vida faz com que as pessoas tenham

dificuldade de lidar com temas e problemas multidimensionais, que envolvem questões díspares. Faz-se mister, portanto, substituir esse modo de pensar por outro, transdisciplinar, contextual, “com o emprego total da inteligência geral” (MORIN, 2002, p. 19). Assim, não pode ser pertinente um saber isolado. Edgar Morin (2002, p. 56) afirma:

Um conhecimento só é pertinente na medida em que se situe num contexto. A palavra, polissêmica por natureza, adquire seu sentido uma vez inserida no texto. O texto em si mesmo adquire seu sentido no contexto. Uma informação só tem sentido numa concepção ou numa teoria. Do mesmo modo, um acontecimento só é inteligível se é possível restitui-lo em suas condições históricas, sociológicas ou outras.

A nossa proposta, seguindo Morin, não é suprimir as disciplinas, eliminar as suas especificidades, mas articulá-las, tornando-as lentes de um mesmo caleidoscópio e, dessa forma, fecundas. O objetivo não é reduzir os saberes a um único conhecimento, pois isso não o ampliaria. Com efeito, o intento buscado é uma “comunicação com base no pensamento complexo” (MORIN, 2002, p. 55), isto é, a ligação intrínseca entre as disciplinas, levando em consideração o pensamento como um todo, em todos os seus aspectos, em toda a sua complexidade. E não entendamos o pensamento complexo de Morin como a dificuldade, mas como um conjunto de teias interligadas separando-nos do conhecimento, de maneira que há duas opções: quebrar todas as teias, numa tentativa de voo direto, ou seguir os labirintos que elas formam, numa verdadeira apreensão do saber. É mais fácil quebrar as teias. Por isso, o que vemos em nossa sociedade é a busca pela simplificação e facilitação das coisas, num cada vez maior distanciamento entre as pessoas e os saberes. Mas não podemos continuar perpetuando essa prática.

Não podemos esquecer que cada disciplina faz parte de um todo complexo, que, para ser compreendido, enquanto todo, precisa do exame de suas partes, que, por sua vez, só serão compreendidas, se se tiver sempre em vista o todo. São as velhas, porém atuais, reflexões religiosas expressas por Gregório de Matos em seu famoso poema “Ao braço do menino Jesus quando apareceu”, abaixo transcrito:

AO BRAÇO DO MENINO JESUS QUANDO APPARECEO O todo sem a parte não é todo,

A parte sem o todo não é parte, Mas se a parte o faz todo, sendo parte, Não se diga que é parte, sendo todo. Em todo o Sacramento está Deus todo, E todo assiste inteiro em qualquer parte,

E feito em partes todo em toda a parte, Em qualquer parte sempre fica o todo. O braço de Jesus não seja parte, Pois que feito Jesus em partes todo, Assiste cada parte em sua parte. Não se sabendo parte deste todo, Um braço, que lhe acharam, sendo parte, Nos disse as partes todas deste todo.3

O poeta afirma que o todo só é todo por causa das partes e que, por sua vez, as partes só são partes por causa do todo, isto é, um só tem sentido em função das outras, e vice- versa, pois se fundem numa coisa só, porque o todo se faz em partes e as partes formam o todo. Essa complexidade que não é complicada, essa unidade que não denigre a diversidade, é o que advoga Edgar Morin (2002), no tangente ao conhecimento. Vejamos como Morin exemplifica tal relação entre o todo e as partes:

Por exemplo, a noção de homem se encontra fragmentada entre diferentes disciplinas biológicas e em todas as disciplinas das ciências humanas: o psiquismo é estudado de um lado, o cérebro de outro, o organismo alhures, assim como o genes e a cultura. Trata-se, efetivamente, de aspectos múltiplos de uma realidade complexa, que só adquirem sentido se forem religados a esta realidade em vez de ignorá-la. (MORIN, 2002, p. 46)

Infelizmente, as ciências humanas separam-se umas das outras. “Quem somos nós?”. Temos uma natureza biológica, uma natureza social, uma natureza individual. A Sociologia mostra o destino social do ser humano, a Psicologia mostra seu destino individual, a História seu destino histórico, a Economia seu destino econômico que se desenvolve nos tempos modernos do ser humano. Tudo isso se encontra separado. Não somos um espelho do universo, mas em nossa singularidade – porque ultrapassamos a natureza – todo o universo encontra-se contido em nós. Justamente o que desenvolvemos como algo estranho, exterior à natureza, permite que conheçamos um pouco este universo. (MORIN, 2002, p. 87)

Esse modo transdisciplinar de pensar é importante, inclusive, para a humanização do homem, como diria Antonio Candido (2004), pois, retomando Edgar Morin (2002, p. 25):

só um modo de pensar empenhado em ligar e solidarizar conhecimentos separados ou desmembrados é capaz de prolongar-se numa ética da dependência e solidariedade entre os seres humanos. Um pensamento capaz de integrar o local e o específico em sua totalidade, de não permanecer fechado no local e no específico, que seja apto a favorecer o sentido da responsabilidade e da cidadania. A reforma do pensamento traz consigo consequências existenciais, éticas e cívicas.

3 Retirado de: MATOS, Gregório. In: Jornal de poesia. Disponível em:

Portanto, estamos diante de uma realidade em que o ser humano tem-se mostrado cada vez mais cruel, cada vez menos humano, se considerarmos que ser “humano” é algo bom, já que esta palavra tem recebido conotações negativas devido aos atos cometidos por esta espécie a que pertencemos. Se o mundo não fosse tão compartimentado em nações, culturas e saberes que se acham melhores do que os outros; se as pessoas aprendessem a enxergar com olhos complexos, abarcando o todo, sem esquecer, porém, as partes; se as pesquisas fossem feitas apreendendo todas as suas implicações; se os saberes se comunicassem; se fosse buscada a unidade das coisas diversas; se o modo de pensar

transdisciplinar, que é muito mais do que um método de pesquisa ou de ensino, ganhasse

espaço neste mundo, então, talvez, fosse possível o ser humano voltar a ser “humano”, no sentido bom e acalentador que essa palavra já teve.

Enquanto pesquisadores, devemos sempre nos lembrar de que somos também pessoas e de que nossas pesquisas devem trazer contribuições inovadoras para o meio acadêmico e, acreditamos, para a humanidade. A Teoria da Residualidade tem sido eficiente também neste sentido, pois nos ajuda a descobrir o que há de semelhante e o que há de diferente entre povos distantes no tempo e no espaço, entre sociedades cujas culturas parecem nunca ter tido algum contato. A Residualidade nos permite enxergar o todo, encarar o mundo como um grande conjunto de grupos sociais, cada um com o seu modo de pensar particular, mas com elementos que os ligam uns aos outros. Academicamente falando, isso é relevante porque, quanto mais transdisciplinar for a pesquisa, mais aspectos do objeto de estudo ela vai revelar e mais perto ela vai chegar de compreender o todo em que este objeto se insere; compreendendo o todo, chega-se de volta ao objeto, dessa vez com olhos mais sagazes. É também algo inovador, tendo em vista a tendência atual para uma superespecialização dos conhecimentos, apesar de todos os esforços interdisciplinares de alguns educadores e orientadores.

“Somos mais filhos de nossa época do que de nossos pais”, disse Marc Bloch (2002), em Apologia da História. De fato, nosso modo de pensar, sentir e viver é fruto de nosso tempo e de nosso espaço. Mas há alguma coisa que liga os homens de um mesmo tempo e de um mesmo espaço. E há também alguma coisa que liga homens de uma mesma humanidade e de um mesmo planeta, e que não pode ser apenas biológico. A humanidade forma um todo, que deve ser examinado sem detrimento de suas partes. A Residualidade possibilita esse tipo de pesquisa científica que leva à compreensão humana. A partir da Teoria, verificamos que as culturas possuem elementos comuns e díspares, que elas entram

em contato umas com as outras o tempo inteiro, atualizando-se continuamente, perpetuando e modificando muitos modos de pensar. Em outras palavras, o resíduo, a cristalização, a

hibridação cultural, a mentalidade e o imaginário, unidos sistematicamente num mesmo

contexto de estudo e de observação do mundo, permitem-nos mergulhar no mais profundo de cada sociedade, revelando, através das relações transdisciplinares da Literatura com as outras artes e saberes, sua (des)humanidade escondida.