De acordo com a concepção de Popper, o nosso aprendizado se dá, fundamentalmente, a partir de nossas buscas na solução de problemas. No capítulo 7 de sua obra Conhecimento Objetivo (denominado “A evolução e a árvore do conhecimento”), o autor argumenta que muitos concordam que habitualmente partimos de problemas, mas concluem que tais problemas seriam resultado da observação e da experiência, pois estariam familiarizados com a concepção de que tudo que existe em nosso intelecto teria nele se incorporado pelo caminho dos sentidos. E é exatamente esta idéia, tão conhecida quanto influente, que Popper se dispõe a contestar.
O ponto de partida do questionamento é a constatação de que todo animal nasceria com expectativas ou antecipações, que poderiam ser interpretadas como hipóteses, “uma espécie de conhecimento hipotético” (POPPER, 1975, p.236).
Teríamos então uma espécie de conhecimento inato do qual poderíamos partir, mesmo que indigno de confiança. Seriam essas expectativas e conhecimentos
inatos que, quando desiludidos, levariam aos primeiros problemas, e a todo desenvolvimento posterior do nosso conhecimento. A esse respeito, Popper afirma:
Todo conhecimento adquirido, todo aprendizado, consiste da modificação (possivelmente da rejeição) de alguma forma de conhecimento, ou disposição, que existia previamente, e em última instância de disposições inatas. (POPPER, 1975, p.76).
Essas disposições estariam “impregnadas de teoria”, adotando-se um sentido amplo para a palavra “teoria”. Segundo Popper, isto pode ser entendido se percebermos que toda observação se relaciona com um conjunto de situações típicas, em condições ambientais específicas, aos quais já estamos biologicamente preparados para reagir. Sendo assim, afirma:
O olho de um gato reage de modos distintos a diversas situações típicas para as quais há mecanismos preparados e embutidos em sua estrutura: correspondem estes às situações biologicamente mais importantes entre as quais ele tem de distinguir. Assim, a disposição para distinguir entre essas situações é embutida no órgão do sentido e, com ela, a teoria de que essas,
e somente essas, são as situações relevantes para cuja distinção o olho deve ser usado. (POPPER, 1975, p.76).
Sendo assim, a teoria do senso comum do conhecimento8 é confrontada com um forte argumento, já que supõe a existência de “experiências observacionais ‘diretas’ ou ‘imediatas’”, ou seja, um “conhecimento subjetivo puro, ou genuíno ou não adulterado” (POPPER, 1975, p.77). Este tipo de conhecimento “puro”, segundo Popper, não existiria, pois o que pode ser percebido (biologicamente) por nós e o que não pode, o que o organismo elege como relevante ou irrelevante, depende da estrutura inata do organismo, de sua “programação”.
Segundo Popper, um organismo só poderia aprender com a experiência se suas disposições para reagir se alterassem no decorrer do tempo, seja por alterações no próprio estado do organismo ou por mudanças no ambiente externo. Essas modificações na disposição dos organismos para reagir podem ser relacionadas ao conceito de “expectativa”, mais particularmente ao de “expectativas desiludidas”.
Um exemplo seria o encontro de um degrau inesperado em nosso caminho: é o inesperado do degrau que nos pode tornar conscientes do fato de que esperávamos encontrar uma superfície plana. Tais desilusões nos forçam a
corrigir nosso sistema de expectativas. O processo de aprender consiste
amplamente de tais correções; isto é, da eliminação de certas expectativas (desiludidas). (POPPER, 1975, p.316).
Essas expectativas desiludidas se constituem nos problemas que conduzirão o organismo a uma busca de solução. Enquanto na maioria dos animais esses 8 A esse respeito, ver item 3.1 supra.
problemas (no caso, expectativas desiludidas) se ligam à questão da relação do organismo com o ambiente e podem representar um risco à sua sobrevivência, para o ser humano, os problemas podem ser enfrentados com a mediação de idéias e teorias que serão discutidas criticamente e escolhidas de acordo com sua adequação. Dessa forma, supondo-se a ocorrência de um debate apoiado em evidências, experiências, argumentos, avaliação crítica e escolha racional, pode-se afirmar que a experiência humana de sobrevivência e aprendizado se daria em uma situação de crescimento do conhecimento.
Este crescimento do conhecimento se daria de acordo com o método de conjectura e refutação. Ele consistiria de partirmos de um problema ou dificuldade de ordem prática ou teórica. No primeiro contato com o problema, não teríamos condições de saber muito a seu respeito, mas o caminho seria exatamente conhecê- lo melhor através da produção de soluções (provavelmente inadequadas) e da crítica atenciosa a essas tentativas de resolução. A esse respeito, Popper afirma:
Pois compreender um problema significa compreender suas dificuldades; e compreender suas dificuldades significa compreender porque ele não é solucionável facilmente – por que as soluções mais óbvias não funcionam. Devemos, portanto, produzir essas soluções mais óbvias; e devemos criticá- las a fim de descobrir por que não funcionam. Assim ficamos conhecendo o problema e podemos passar de soluções más para outras melhores – sempre, contudo, desde que tenhamos capacidade criativa para produzir suposições novas, e mais suposições novas. (POPPER, 1975, p.237).
Trabalhando desta forma com o problema, começaríamos a conhecê-lo melhor, percebendo com mais clareza as hipóteses ou conjecturas que não seriam adequadas e identificando os requisitos que teriam de ser atendidos em relação às tentativas com maior potencial para resolvê-lo. Assim procedendo, conforme fôssemos avançando nessas tentativas, perceberíamos as ramificações do problema e suas conexões com outros problemas. Em razão desta dinâmica, Popper afirmou que o progresso do conhecimento “[...] vem de problemas velhos para novos problemas, por meio de conjecturas e de tentativas críticas para refutá-los”. (POPPER, 1975, p. 238).
Esse método das conjecturas e da busca de refutações9 está na base da concepção de aprendizado de Karl Popper. De acordo com esta concepção, se é do interesse do cientista (e por extensão, de qualquer pessoa) a evolução do conhecimento, ou seja, saber mais do que se sabia anteriormente, então o próprio cientista deveria ser o primeiro a adotar uma postura crítica, criativa e curiosa em
relação às suas conjecturas originais. Esta seria uma postura ideal, pois favoreceria algo que está sendo apresentado como a principal característica do conhecimento científico, a sua evolução. De acordo com Popper, este seria o principal diferencial entre o conhecimento científico e as outras formas de conhecimento. Sem a idéia de progresso, de constante aperfeiçoamento, a ciência perderia sua principal característica.
Mesmo que alguns cientistas não estivessem propensos a essa atitude auto- crítica, isto não seria obstáculo para o desenvolvimento científico, à medida em que o progresso da ciência seria preponderantemente algo institucional, ou seja, ele se daria principalmente em função dos debates que ocorreriam nas diversas instituições ligadas ao fazer ciência: universidades, centros de pesquisa, publicações, congressos, etc. Segundo Popper, nesses debates da comunidade científica, a postura condizente com o objetivo principal (o crescimento do conhecimento) seria aquela de se procurar as falhas, as deficiências de nossas conjecturas, seja pela auto-crítica ou pela consideração das críticas de nossos amigos ou opositores (POPPER, 1975, p.238). Dessa forma, estaríamos conhecendo melhor os problemas e as hipóteses que procuram respondê-lo. Estaríamos aprendendo tanto nos casos de refutação como nos de corroboração, pois as refutações nos colocariam novos desafios, novos problemas e hipóteses (com maior capacidade explanatória) e as corroborações nos dariam uma idéia do potencial de algumas teorias, e garantiriam apenas que a teoria em questão, em face das críticas e de outras teorias concorrentes, poderia ser tomada, temporariamente, como o ensinamento científico em vigor.
4.4 A evolução do conhecimento em Popper à luz de sua leitura da teoria da