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Na espécie equina, diferentemente de outros animais de produção, na maioria dos casos, os animais são selecionados pelo seu desempenho atlético, sendo alguns indivíduos mantidos por tempo prolongado nas provas de desempenho esportivo, com consequente afastamento da atividade reprodutiva, que pode começar tardiamente (Pycock, 2006). Éguas com idade superior à 20 anos são mantidas, frequentemente pelos proprietários, seja para trabalho ou companhia. Nessa população, os oócitos permanecem em repouso na fase de meiose por décadas (Carnevale, 2008). Sendo assim, éguas de idade avançada fazem parte de diversos rebanhos, constituindo importante fonte de variação nos índices de fertilidade obtidos. Em um estudo envolvendo 659 éguas com data de nascimento conhecida, Hutton e Meacham (1968) observaram que a fertilidade média oscilou até os 7 anos de idade, atingiu um pico de 89,6% aos 9 anos, manteve um platô acima de 70% até os 15 anos e declinou gradualmente após esta idade.

Apesar da relação negativa entre o avançar da idade e a fertilidade ser clara na égua, permanece incerto se esse efeito é devido ao aumento da ordem de parto ou ao simples envelhecimento. Há uma correlação positiva entre a idade da égua e a taxa de perda embrionária, que provavelmente obedece à seguinte progressão: reduzida contratilidade e tônus uterino, menor habilidade para expulsão de contaminantes do útero e maior incidência de endometrites (Ginther, 1992). Associa-se a estas alterações, a redução da qualidade do oócito inerente ao avançar da idade (Carnevale e Ginther, 1995).

Ao estudar o comprimento da vulva e o seu ângulo de inclinação em relação ao ânus, em éguas de diferentes faixas etárias, Pascoe (1979) observou que quanto mais velha a égua, maior era o ângulo de inclinação da vulva que por sua vez esteve intimamente relacionado com a queda da taxa de concepção. Justificativa para tal associação

envolve a maior probabilidade de estabelecimento de endometrites com o aumento da inclinação vulvar.

Henry (1981) observou maior ocorrência de aderências do infundíbulo tubárico em éguas acima de 10 anos de idade, correlacionada a uma maior frequência de salpingites e endometrites, contribuindo para a infertilidade. Os cistos endometriais também foram mais frequentes em éguas mais velhas, acometendo 73,1% das éguas acima de 14 anos de idade e estiveram associados à uma redução da taxa de concepção (Tannus e Thun, 1995). Segundo Ginther (1992) torna- se difícil estabelecer a real contribuição dos cistos uterinos na subfertilidade de éguas mais velhas, uma vez que outras patologias uterinas têm maior incidência nesta faixa etária.

Clinicamente, anormalidades do endométrio têm sido consideradas um importante fator na reduzida fertilidade de éguas mais velhas. Um grande número de estudos tem caracterizado alterações degenerativas do endométrio em função do aumento da idade da égua, sendo o declínio da fertilidade, frequentemente atribuído ao aumento destas alterações que incluem endometroses, endometrites, bem como alterações vasculares (Ball, 2000). Éguas com idade superior a 15 anos apresentaram maior incidência de alterações inflamatórias e degenerativas uterinas, associadas à uma menor contratilidade do útero em relação às éguas jovens (Carnevale et al., 1993).

Embora os espermatozóides participem ativamente do seu transporte pelo sistema genital feminino, contrações do miométrio e da miosalpinge são importantes na regulação do seu transporte para o local de fertilização. Troedsson et al. (1998) observaram aumento da atividade miometrial 0,5 hora após a inseminação com sêmen fresco, sendo a contratilidade uterina afetada tanto por fatores inerentes à fêmea, quanto inerentes ao macho. Assim, a menor contratilidade uterina em éguas mais velhas seria um importante fator

capaz de alterar o transporte espermático no sistema genital feminino.

Camillo et al. (1997) relataram diferenças estatísticas para alguns parâmetros de fertilidade entre fêmeas de diferentes idades. Assim, para éguas acima de 15 anos a taxa de concepção/ciclo foi de 55,5% e inferior à de éguas com idade até cinco anos (82,7%), às de 6 a 9 anos de idade (74,3%) e às éguas de 10 a 14 anos de idade (71,2%).

Objetivando estudar a fertilidade de éguas inseminadas com sêmen equino diluído e resfriado, Valle (1997) agrupou as fêmeas em quatro faixas etárias: I) 3-6 anos; II) 7-10 anos; III) 11-14 anos e IV) 15-19 anos. As taxas de concepção por ciclo obtidas foram de 62,07%; 63,64%; 52,50% e 29,41%, sendo a média do grupo IV inferior às demais. Na maioria dos trabalhos, tem-se encontrado diferenças quanto à fertilidade entre os grupos de diferentes faixas etárias. Entretanto, utilizando éguas inseminadas com sêmen diluído em diluidor de leite em pó desnatado, Brandão (2001) não encontrou diferenças entre éguas de diferentes faixas etárias (4-6, 7-10, 11-14 e 15-16 anos de idade) no que se refere à taxa de concepção ao primeiro ciclo e à taxa de concepção/ ciclo, após quatro ciclos, com valores médios de concepção ao primeiro ciclo de 66,07% e de 53,85%, para a taxa de concepção/ciclo. Talvez, o fato do grupo de éguas mais velhas neste experimento não conter animais com mais de 16 anos de idade tenha impossibilitado a identificação de diferenças entre eles, no que se refere aos parâmetros de fertilidade avaliados.

Ball et al. (1986) e Ginther (1992) relataram que as taxas de fertilização aproximaram-se dos 90% e não sofreram grande interferência da idade, sendo de 91-96% para éguas jovens e de 81-92% para as éguas apresentando idade mais avançada. Vários autores demonstraram uma redução nas taxas de nascimento em uma amplitude de idade de 14 a 16 anos (Woods et al., 1987; McDowell et al., 1992; Gibbs e Davison, 1992). Apesar das perdas fetais aumentarem em éguas velhas ao

final da gestação, as perdas precoces são as principais responsáveis pela reduzida fertilidade observada. Estimativas do percentual de perdas embrionárias entre a fertilização e o décimo dia de gestação, estão em torno de 9% para éguas jovens e 60-70% para éguas velhas (Ball et al., 1986, 1989). Nas observações de Hemberg et al. (2004), a idade da égua não exerceu efeito significativo sobre a taxa de concepção, embora fosse comprometedora da taxa de nascimentos (p=0,008). A taxa de perdas gestacionais entre o primeiro diagnóstico de gestação, realizado entre os dias 14 e 15 pós-ovulação e o parto foi de 25,9% para éguas com idade superior a 13 anos, enquanto a média para todas as idades foi de 12,5%. Neste mesmo estudo, uma análise envolvendo a relação entre categoria reprodutiva e idade da égua mostrou que 72,7% das éguas solteiras ou que reabsorveram/abortaram na estação anterior estavam nos grupos entre 9-13 anos e acima de 13 anos. Isto indica que não somente éguas acima de 13 anos, mas também as entre 9 e 13 anos apresentam maior taxa de perdas gestacionais do que éguas mais jovens. Esta observação está de acordo com os achados de Morris e Allen (2002), quando observaram que as perdas gestacionais quase dobraram em éguas na faixa etária entre 9 e 13 anos, em relação àquelas entre 3 e 8 anos.

Possíveis causas de perdas embrionárias em éguas de maior idade incluem: anormalidades do ambiente uterino, falhas no transporte dos gametas ou alterações na tuba uterina e defeitos embrionários. Deformidades do sistema genital, que facilitam o acesso de contaminantes para o interior do útero, também contribuem para as menores taxas de concepção observadas (Ginther, 1992). Segundo Carnevale e Ginther (1995), a contratilidade uterina insuficiente poderia resultar em uma redução da mobilidade do embrião e um contato inadequado do mesmo com o endométrio, capaz de comprometer o mecanismo de reconhecimento materno da gestação e permitir a luteólise com consequente perda embrionária.

Quando blastocistos morfologicamente normais, nos dias 7 ou 8, foram transferidos para o útero de receptoras jovens ou mais velhas, as taxas de sobrevivência embrionária nos dias 12 e 28 não diferiram entre os grupos, sendo de 55% e 45% aos 12 dias, para éguas jovens ou mais velhas, respectivamente (Ball e Woods, 1987). Os resultados deste estudo indicaram que os efeitos uterinos não são os principais responsáveis pela alta incidência de perda embrionária observada previamente em éguas mais velhas. A recuperação de oócitos no dia 4, ou de embriões equinos no dia 7, e transferência dos mesmos para tubas uterinas ou úteros de éguas jovens, resultou em menores taxas de gestação, quando os oócitos ou embriões eram oriundos de fêmeas mais velhas (Ball et al., 1989; Carnevale e Ginther, 1995). Assim, os efeitos deletérios da idade da égua sobre a fertilidade devem ser atribuídos, principalmente, à defeitos intrínsecos ao oócito e ao embrião resultante. Assim, as anormalidades uterinas talvez exerçam maior impacto em estádios mais avançados da gestação (Ball, 2000).

Ao comparar as taxas de concepção aos três dias, utilizando-se embriões, e aos 11, através de ultrassonografia, entre éguas jovens (2 a 9 anos) e velhas (> 20 anos), Carnevale et al. (1993) observaram que a taxa de concepção e o número de células por embrião foram menores nas éguas velhas, aos três dias pós- ovulação. Os embriões obtidos deste grupo receberam maiores pontuações quando da avaliação morfológica, correspondentes a uma baixa qualidade morfológica. A taxa de gestação aos 11 dias foi superior nas éguas jovens (89%) em comparação às velhas (44%).

Brinsko et al. (1994) cultivaram embriões in vitro, coletados aos dois dias pós-ovulação, de éguas jovens (2-7 anos) e velhas (17-24 anos), na presença de células epiteliais de tuba uterina de éguas jovens e velhas. Observaram, neste estudo, que a proporção de embriões que atingiram o estágio de blastocisto foi similar entre os grupos, nos diferentes tipos

de cultura. No entanto, blastocistos desenvolvidos de embriões obtidos de éguas velhas foram inferiores aos das éguas jovens quanto ao número de núcleos celulares, escore de qualidade, e diâmetro aos sete dias de idade. Posteriormente, Aguilar et al. (2002) observaram que éguas velhas (>15 anos) apresentaram uma maior proporção (47% contra 19%, respectivamente) de oócitos com citoplasma fragmentado quando comparados aos de éguas jovens, de 3 a 8 anos, o que explicaria em parte os resultados obtidos por Brinsko et al. (1994).

Especula-se que, em éguas velhas, espécies reativas de oxigênio, geradas durante a fosforilação oxidativa, tenham mais tempo para causar danos cumulativos sobre a membrana mitocondrial do oócito. No entanto, essa lesão só se torna aparente quando a demanda de energia pelo oócito é maior, por exemplo, durante a maturação in vitro. A redução do número de mitocôndrias e da qualidade de oócitos maturados de éguas velhas pode ter um consequente efeito sobre a competência do seu desenvolvimento. Em mulheres, o baixo número de cópias do DNA mitocondrial (mtDNA) do oócito tem sido associado com a baixa fertilidade, enquanto em camundongos, grandes danos às mitocôndrias do oócito, restringem a habilidade deste em sofrer a quebra da vesícula germinal, a formação do fuso meiótico, a segregação dos cromossomos, a extrusão do corpúsculo polar e a formação do bastocisto (Rambags et al., 2005).

As anormalidades cromossômicas também foram propostas como contribuintes das perdas embrionárias precoces em equinos (Ball et al., 1989), embora sua ocorrência não tenha sido demonstrada. Em um estudo mais recente, Rambags (2007) comprovou que anormalidades cromossômicas podem ser encontradas em células de embriões equinos macroscopicamente normais. A maioria das anormalidades encontradas foram poliploidias (2n/3n, 3n/4n), sendo que os embriões continham uma pequena proporção de núcleos poliplóides. No entanto, permanece incerto se um pequeno grau de poliploidia

pode e como afetar a viabilidade do embrião. Finalmente, devido ao baixo número de embriões, não foi possível estabelecer uma correlação entre a idade da égua e a incidência de anormalidades cromossômicas. Mitchell e Allen (1975) estudaram o desempenho reprodutivo de 137 potras, entre 12 e 14 meses de idade, expostas ao garanhão pela primeira vez, por quatro estações de monta consecutivas. Houve concepção de 95 das fêmeas (69,34%), sendo que destas, 44 (46,32%) abortaram de forma espontânea. Como exames adicionais não indicaram agentes infecciosos como causadores das perdas, assim como as concentrações de gonadotrofina coriônica (eCG) foram similares entre as que perderam as gestações e as demais, concluiu-se que a alta incidência de perdas gestacionais foi ocasionada, principalmente, pela imaturidade das fêmeas púberes.

Também avaliando a eficiência reprodutiva de potras da raça Mangalarga, que iniciaram sua atividade reprodutiva aos 34 meses de idade, Oliveira et al. (1986) observaram alta taxa de perda embrionária precoce (50%), especulando que coberturas antes dos 36 meses de idade, de potras com maturidade reprodutiva eventualmente incompleta, podem contribuir para o aumento da incidência de perdas gestacionais.

A literatura a respeito do efeito da idade sobre a fertilidade de éguas destinadas a produção de muares é escassa. Jordão et al. (1954) observaram que éguas com idades entre 9 e 11 anos apresentaram as taxas de gestação mais elevadas enquanto as com idade entre 21 e 23 anos, as menores. Fêmeas mais jovens (entre 3 e 5 anos) tiveram fertilidade superior à média geral.

Rossi (2008) avaliou o efeito da idade sobre a fertilidade de éguas inseminadas com sêmen asinino diluído e resfriado a 5°C. Os 195 ciclos foram classificados de acordo com a idade das éguas, formando grupos com 2,5 - 6,0 anos; 6,5 – 10 anos; 10,5 – 14,0 anos e 14,5 a 19 anos, que não diferiram entre si

quanto à taxa de concepção ao primeiro ciclo (68,42%; 50,75%; 46,88% e 52,17%) e por ciclo (69,57%; 47,92%; 46,34% e 45,71). O fato dos maiores prejuízos envolvendo os efeitos da idade sobre a fertilidade da égua expressarem-se sobre a incidência de perdas gestacionais e não necessariamente sobre a concepção pode responder pelos resultados obtidos pela autora.

2.1.2.2. Efeito da categoria reprodutiva