O movimento de descentralização da Constituição de 1946 foi novamente detido pelo golpe de Estado promovido pelos militares em 1964. Esse golpe era guiado por uma ideologia técnico-militar que buscava “purificar” a política brasileira, tanto da esquerda,
27 Em 1947, foi eleito Joel Marques do PSD e Manuel Gomes de Freitas do PSP. Em 1950, Joel Marques é novamente eleito pelo PSD e Antônio Gomes de Freitas, substituindo o irmão Manuel Gomes, é eleito pela UDN. Em 1954, Joel é eleito pelo PSD e Antônio Gomes pelo PTB, porém, em 1958 e 1962, Antônio Gomes, pelo PTB, ficou na suplência, permanecendo Joel Marque eleito pelo PSD.
mantendo assim o statu-quo, quanto dos “políticos tradicionais”, que dificultavam a
ramificação do Estado nos rincões do país.
No entanto, nas eleições de 1965, os candidatos que representavam a esquerda tiveram uma vitória expressiva. Com isso, o governo militar endureceu o regime. Publicaram- se Atos Institucionais limitando a participação política da população e concentrando o poder nas mãos do presidente da República.
Em 1966, foram decretadas eleições indiretas para o executivo federal e destituídas as instituições partidárias, dando origem a dois partidos: ARENA e MDB. O primeiro partido era formado por políticos que apoiavam a ditadura, estes vinham da UDN e da ala conservadora do PSD; o segundo era composto pela oposição ao regime e era formado por líderes de partidos pequenos, do PTB e de uma parte do PSD. Posteriormente, foram estendidas eleições indiretas ao poder executivo dos estados, das prefeituras das capitais e de alguns municípios considerados estratégicos. O ápice do endurecimento do regime militar aconteceu em 1968 com a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que destituiu o poder Legislativo.
No início da implantação da ditadura, quando foram mantidas as instituições democráticas, não ocorreu de imediato um desmonte dos grupos políticos tradicionais, uma vez que o governo militar queria um partido governista forte e uma oposição desarticulada.
No Ceará, o poder de Virgílio Távora, eleito governador em 1962, foi abalado pelo fato deste ter relações pessoais com João Goulart, tendo ocupado inclusive o cargo de ministro da Viação e Obras Públicas (1961-1962). Apesar dessas ligações pessoais, Virgílio Távora permaneceu no cargo até o final do seu mandato.
Posteriormente, em 1966, os militares passaram a indicar os governadores,
provocando a desagregação da “engenharia política” dos líderes tradicionais que possuíam o seu “ponto forte” na escolha dos nomes que iriam disputar o controle da máquina do Estado.
Como explica Carvalho (2009, p. 104):
A revolução de 64 proclamava a subversão e a corrupção como chagas da política a serem extirpadas a qualquer custo. A imagem do político profissional carregava o estigma desses dois males e portanto constituía-se o alvo natural de execração
pública naqueles tempos de “ardor revolucionário...”.
No Ceará, o MDB foi registrado em 1965, composto pela ala do PSD comandada por Martins Rodrigues, por líderes dos partidos pequenos, tendo a frente deputados como Álvaro Lins Cavalcante, Antônio Paes de Andrade e Francisco Castelo de Castro. Já o
“Partido da Revolução”, ARENA, foi registrado em 1966, composto por grupos que
formavam a Aliança pelo Ceará, com exceção de uma parte do PSD. Esse partido era liderado por Paulo Sarasate e Virgílio Távora.
O cargo do executivo estadual, nas eleições de 1966, foi indicado pelo presidente
da República Castelo Branco e “empossado” pela Assembleia Legislativa. Este, por ligações
pessoais com Paulo Sarasate, indica Plácido Aderaldo Castelo, um desconhecido na política do Estado. O fortalecimento de Paulo Sarasate na ARENA coincidiu com o ostracismo de Virgílio Távora.
Nas eleições de 1970, para o executivo estadual, o comando militar de Recife impôs a candidatura do Coronel César Cals, um cearense portador da ideologia técnico-militar do governo. O objetivo dessa indicação era minar o poder dos políticos tradicionais. Virgílio Távora, exercendo o mandato de deputado federal e conquistando novamente prestígio junto aos militares após o governo de Castelo Branco (1964-1967), conseguiu reinstaurar a participação dos chefes políticos nas composições das chapas governamentais. Nessa eleição, foi estabelecido um acordo entre as três maiores lideranças estaduais (César Cals, Virgílio
Távora e Adauto Bezerra) conhecido como “Política dos Coronéis”. Segundo Mota (1985, p. 178), este acordo tinha dois preceitos: “união na cúpula e divisão na base”. O objetivo era
concentrar o poder nas mãos da ARENA, não deixando espaço para o surgimento de novas lideranças. Assim, a divisão da chapa governamental ficou composta por: César Cals como governador; Humberto Bezerra, irmão de Adauto Bezerra, como vice; Virgílio Távora como Senador.
Instalou-se, assim, uma situação de certa forma contraditória, pois embora o governo fosse uma ditadura, ele ainda conservava as instituições democráticas como as eleições para o parlamento e para as prefeituras das cidades interioranas. Dessa forma, o novo governo28 carecia de votos como mecanismo de legitimação do poder.
Com isso, os donos de “currais eleitorais” viram seu prestígio novamente
reforçado como estratégia de contrabalançar a tendência ao voto oposicionista dos centros urbanos. Assim, o governo federal fortaleceu as oligarquias nos Estados e estas fortalecem as oligarquias nos municípios29.
Nesse período dos governos federais militares, a política local em Tauá era monopolizada por dois grupos políticos: o grupo familiar dos Gomes de Freitas, liderado pelo
28 A ditadura implantada no Brasil tratava-se de uma modernização conservadora que procurava aprofundar o processo de expansão do capitalismo no campo e na cidade. Caracterizava-se também pela busca da implantação de uma administração burocrática e racional, perseguindo assim os “políticos profissionais”.
deputado estadual Antônio Câmara; e o grupo político liderado pelo deputado Júlio Rêgo. Estes dois deputados eram filiados a ARENA e disputavam entre si o apoio do governo estadual. O grupo político familiar dos Motas representava o MDB no município, porém possuíam pouca liderança política. A hegemonia política desses dois deputados será abordada no capítulo II.