Graça é o vigor da nossa força, para que se torne ainda mais forte. Quem se entrega a este vigor, acolhendo-o generosamente, caminha para a justificação. A experiência da graça supera o espírito tecnicista da retribuição, quando começamos a perceber e a saborear o sentido das coisas que ultrapassam as finalidades práticas dos interesses humanos. Nela contempla-se o mundo ligado ao Mistério.
Num primeiro momento, a vida é alegria, exuberância, agilidade e prosperidade. Num segundo momento, enfrenta obstáculos, resistências, defronta-se com a dor, o sofrimento e a perseguição. A experiência do encontro com o Deus Go’el, o faz entender que tudo pertence à vida. A graça surge como força de síntese em ambas as dimensões. Há graça na alegria, mas há também no sofrimento. O eu pessoal não se sente agente de seu próprio desígnio. Os interesses e projetos pessoais não são o centro do universo, há uma história global, cujo desígnio escapa à razão analítica. O desígnio de Deus é de amor e nunca de destruição. A vida é um universo de possibilidades e desejos. Nós, criaturas humanas, fazemos projetos, mas Deus tem Seu desígnio para toda a criação. O projeto de Deus tem em vista a realização e a salvação de todos e não apenas de um sujeito singular. A ação divina na história nem sempre é clara aos olhos humanos, mas o desígnio do Mistério é soberano. “A história caminha,
impreterivelmente, na direção da realização plena deste desígnio de amor” 236. Jó, despertado pela experiência da graça, acolhe o desígnio do Criador, faz a experiência de abertura total ao Transcendente, numa entrega humilde e generosa ao Mistério insondável.
A gratuidade do amor é a fonte da graça. O amor é a graça historicizando-se no homem. Santo Agostinho, no Livro das Confissões, diz: “Quia amasti me, feciste amabilem” 237. “Porque me amaste primeiro, me fizeste também amável e capaz de amar” e a teologia joanina ensina: “O amor procede de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus.” (1 Jo 4, 8). O amor de Deus está presente no mundo, por isso é preciso celebrar a gratuidade da vida. Assim que, graça e amor estão presentes nos paradoxos do mundo, como cita o Evangelho, a graça está no meio do trigo e do joio, que crescem juntos. Não é necessário destruir, imediatamente o joio, pois no tempo da colheita, o agricultor saberá separá-los perfeitamente. Dessa forma, o mal pode até se perpetuar na história, mas não será capaz de ofuscar os desígnios de Deus (Mt 13, 24-30).
236 BOFF, Leonardo. Graça e Experiência Humana. Petrópolis: Vozes, 1998. p. 233. 237 Ibidem. p. 242.
Concluindo, no caso de Jó, ocorre um julgamento totalitário. Os “amigos” tentam persuadi-lo de que merece ser linchado, e, em alguns momentos ele fraqueja, está prestes a admitir sua culpa. De repente, reaje: “Eu sei que o meu defensor está vivo e aparecerá,
finalmente, sobre a terra” (Jó 19, 25). A palavra “defensor” é importantíssima, pois está ligada ao termo “paráclito”, que em grego, parákletos, significa “advogado de defesa”. Defende do acusador, ou seja, de Satã. No livro de Jó, os “três amigos” são a voz de Satanás, representa a antiga religião, aquela do linchamento coletivo do bode expiatório.
No contexto do nosso estudo, dentro da perspectiva girardiana, a história de Jó é fundamental. É a vítima rebelde, que não aceita o linchamento coletivo, como aceitaram as vítimas arcaicas, assumindo a culpa que não tinham, por causa da pressão generalizada de toda a sociedade. A violência unânime desintegrava a personalidade dos inocentes perseguidos, a ponto de submeterem-se aos caprichos do mimetismo contagioso. Segundo Girard, Jó é a primeira vítima da Bíblia hebraica e a enfrentar as algemas assassinas do mimetismo nocivo. Sua rebeldia desmascara a violência unânime, não permitindo que o ciclo mimético se conclua com o sacrifício do bode expiatório e construção do sagrado violento; além de ser um protagonista da revelação de um Deus amoroso que está ao lado dos oprimidos da história 238.
6 Satanás: príncipe deste mundo
Satanás é o grande arquiteto do mecanismo vitimário. É o patrono da violência religiosa, por isso, exerce uma função decisiva no paradigma de Girard. Vamos analisá-lo no contexto bíblico para verificarmos como coordena a orquestra da violência sacrificial que conduz ao bode expiatório e à religião mitológica.
Afirmar a existência do demônio é, de início, reconhecer a operação entre os homens de certa força de desejo e de ódio, de inveja e de ciúmes, muito mais insidiosa e retorcida em seus efeitos, mais paradoxal e repentina em suas mutações e metamorfoses, mais complexa em suas consequências e mais simples em seu princípio, ou até simplista se quisermos, o demônio é ao mesmo tempo muito inteligente e muito estúpido, do que tudo aquilo que pôde conceber, depois, a fúria de certos homens ao explicar os mesmos comportamentos sem intervenção sobrenatural. A natureza mimética do demônio é explícita, pois entre outras coisas, ele é o macaco de Deus. Afirmando o caráter uniformemente “demoníaco” do transe, da possessão ritual, da crise histérica e da hipnose. A tradição afirma a
238 A história de Jó é muito especial para Girard. Suas intuições antropológicas sobre a Bíblia hebraica,
enquanto processo de superação do sacrifício arcaico é uma etapa decisiva. Mas, serão os Evangelhos, no evento público da paixão de Cristo, que revelarão com toda a intensidade o mecanismo vitimário e a sua perversidade. Nos capítulos IV e V estudaremos de maneira aprofundada o evento da cruz e a superação do sacrifício antigo.
unidade de todos esses fenômenos que é real e da qual é preciso descobrir a base comum para de fato fazer avançar a psiquiatria 239.
No judaísmo primitivo, Satanás 240 não era um ser específico, mas uma função. No Livro de Jó, Satanás é o adversário que, diante de Deus e depois diante do povo, acusa e instiga a violência contra a vítima inocente. Satanás é o grande sedutor e quer ser imitado, para isso se propõe como modelo dos nossos desejos, coloca-nos na estrada da rivalidade mimética, quando contagia a coletividade social o príncipe deste mundo e lança uma acusação mentirosa sobre um inocente. Satanás torna-se o mimetismo contagioso que convence a unanimidade social sobre a verdade da sua mentira, ou seja, sobre a culpa da vítima. Traz consigo o impressionante poder de persuasão e de sedução, capaz de convencer o povo de que a vítima acusada é o obstáculo supremo e precisa ser eliminada. Através da acusação de Satanás, a vítima torna-se o inimigo comum de uma multidão enfurecida, assumindo o lugar daqueles que antes estavam divididos pela rivalidade, viabilizando a passagem de todos contra todos ao fenômeno de todos contra um.
Satanás é o “princeps hujus mundi”, expressão usada pela Bíblia Vulgata, que traduzida significa príncipe deste mundo, porque é a fonte da ordem e da desordem, por meio da mentira, convence a multidão a sacrificar o bode expiatório. A morte da vítima provoca uma verdadeira metamorfose no seio das relações sociais, ocorrendo a passagem da discórdia à concórdia, da violência à paz. Essa transformação é entendida como um dom da vítima. Ao despertar novamente a sedução da imitação, desencadeia outra vez o círculo mimético que se concluirá com o linchamento coletivo de uma nova vítima inocente, como afirma René Girard: “Satanás não acaba nunca de expulsar Satanás” 241. Por isso, Satanás é o princípio da ordem e da desordem, da rivalidade e da harmonia. Seu reino é o mecanismo vitimário escondido na história humana desde o início do mundo e traz a origem do sagrado violento. Há uma tríplice correspondência entre Satanás, o assassinato fundador e a mentira. Ser filho de Satanás significa ser herdeiro da mentira que culpa, sacrifica e diviniza a vítima inocente. Os Evangelhos afirmam que Satanás é o princípio de todos os reinos que nascem da violência da expulsão ou do sacrifício do inocente.
Os Evangelhos afirmam expressamente que Satanás é o príncipe de todo reino. De que modo Satanás pode ser esse princípio? Sendo o princípio da expulsão violenta e da mentira que daí decorre. O reinado de Satanás expulsa a si próprio, em todos os ritos e exorcismos aos quais os fariseus acabam de aludir, porém mais originalmente
239 GIRARD, René. O Bode Expiatório. São Paulo: Paulus, 2004. p. 254.
240 A função do adversário Σατανασ é exatamente o oposto da função do Παρακλιτοσ (Paráclito), enquanto
consolador, protetor, defensor da humanidade.
na ação fundadora e oculta que serve de modelo para todos esses ritos, o assassínio unânime e espontâneo de um bode expiatório. É a definição complexa e completa do reinado de Satanás 242.