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4. Data og metode

4.2 Metode

O currículo é um dispositivo constituído de uma estrutura classificatória disciplinar que dá significado a máquina escolar, através de operadores como horário, calendário escolar, cronograma que diferenciam os saberes em áreas de conhecimento e por meio destes vai ganhando movimento, ao mesmo tempo que dá significado ao espaço educacional. Como operador curricular, os horários escolares ensinam os indivíduos envolvidos no processo educativo como se movimentarem no espaço escolar, mediados pelo tempo a ser

racionalizado pelas estratégias disciplinares pelos diferentes usos dos praticantes.

Os horários escolares se orientam em uma matriz que organiza a vida escolar em dias da semana, aulas e atividades, combinando racionalmente recreio, aulas, intervalos refeições, descanso, lazer. Essa organização temporal que movimenta os indivíduos no cotidiano escolar se dá numa relação entre tempo e espaço, localizando as práticas individuais e coletivas espacialmente. Desse modo, cria lugares significados por relações de poder, construídas por meio de estratégias e pelos usos dos indivíduos, do tempo levado para dentro do espaço escolar por meio das práticas, transformando-se em espaços diferenciados de mobilização dos saberes apreendidos nesse processo mediado.

Os movimentos internos da ETER, regulados por uma máquina moderna que difundia novas práticas espaciais e temporais entre os indivíduos, inventam e difundem saberes, como o currículo, que apresenta-se como um estruturante disciplinar. Os horários escolares como operadores curriculares, interligados numa teia, controlam e normatizam condutas particulares, sedimentadas no cotidiano escolar.

Nesse sentido, eles nos disciplinam, ordenando as ações dos nossos corpos, onde deveremos estar, fazendo o quê, em que momento, com quem. Além disso e mais sutilmente-, eles nos ensinam a ver o mundo como um mundo disciplinar; nesse caso, vale dizer: tanto um mundo cujos corpos e ações são ou devem ser (naturalmente) disciplinares, quanto um mundo cujos saberes são ou devem ser (naturalmente) disciplinares (VEIGA-NETO, 2012, p.10).

Silva (2005) analisa que até a década de 1960 questionava-se a concepção técnica de currículo, surgindo a partir das décadas de 1970-1980 diferentes discussões sobre sua influência social, econômica e política. Foi nesse momento que Althusser argumentou que para a manutenção da sociedade capitalista, além da reprodução econômica, havia também a reprodução ideológica. Assim, a sociedade capitalista cria instituições e mecanismos que favoreçam à manutenção do poder Estatal, mantido também, através da polícia, do judiciário e pelo convencimento, por meio da igreja, família e escola.87

87 Na década de 1970 algumas discussões sobre currículo se voltavam para as análise de Althusser, percebendo

que a escola seria o principal aparelho ideológico do Estado, uma vez que os indivíduos ali permaneceriam por muitos anos, recebendo informações e instruções que os acompanhassem pelo resto de suas vidas. Bourdieu e Passeron (2008) compreendem que o currículo está baseado na cultura dominante, expresso na linguagem, transmitido através dos códigos culturais utilizados na escola. Uma vez que a escola reproduz esses códigos em seu cotidiano escolar. Michael Apple (1989) teceu críticas em torno das concepções de Althusser, Bourdieu e Passeron, mostrando que apesar desses autores questionarem a educação liberal vigente na sociedade capitalista, eles não analisaram criticamente o currículo e o conhecimento escolar. O autor explica o currículo mostrando que a organização da economia da sociedade capitalista influencia outras esferas sociais como: a educação, a cultura, havendo assim vínculo entre economia, educação e cultura, por meio da ação humana. Em sua concepção, por o campo social ser contestado, a classe dominante procura mecanismos ideológicos para garantir a manutenção da sua hegemonia. Dessa maneira, a dominação econômica investe na hegemonia cultural como

O currículo da ETER foi criado pelas experiências dos/das elaboradores(as) da grade curricular de disciplinas, equipe de especialistas convidada por Pitiá para a organização do projeto de criação da Escola Técnica Redentorista, constituída por padres, dois engenheiros holandeses, pela antropóloga Salete Barbosa, o técnico Manoel do Carmo e uma professora de língua portuguesa.Tomaram por base as diretrizes da Lei n 5.692/71 que garantia a criação e obrigatoriedade do ensino profissionalizante, no nível médio, focado como prioridade para a preparação de mão de obra para o mercado de trabalho. Salete Cavalcanti frisou em sua narrativa a articulação da criação da ETER com o Estado em favor de um projeto de melhoria das condições das classes trabalhadora:

Eu acho que essa é uma questão que a gente tem que discutir; a questão do Estado, a autoridade de um currículo grande no Brasil, por exemplo, os cursos de pós- graduação são do tempo do Regime Militar. A Argentina não teve isso; é tanto que a Argentina, de certo modo, está em um processo, agora correndo para a formação de cursos de graduação, e tudo mais. Quer dizer, eu acho que tem ainda uma questão a ser discutida, é muito interessante a gente pensar hoje em dia, porque existem pessoas que discutem porque o governo militar não tinham grandes[...]As elites do governo militar não eram militares; no Brasil não tem. No Chile e na Argentina, sim, que faz parte do governo militar. Mas, essa questão da formação e da educação, como eu digo sempre, é muito interessante[...] A minha percepção do que foi Padre Pitiá nessa época. Eu acho que a gente discutia bastante, discutia muitas coisas com Padre Pitiá, e ele também era bastante pragmático, vamos dizer objetivo nas coisas; a gente não pode ficar idealizando o que a gente poderia estar gastando quantas horas para pensar o currículo. Tem as normas e as leis que você tem que seguir, mas dentro dele, é como se você maneja a questão do poder em função de um projeto. Tem um objeto social importante, tem um pouco disso. Tinha a grade. Como é que você vai desenvolver? E eu vejo hoje, engraçado, eu vejo hoje muitas pessoas, ótimo críticos, as pessoas que se engajaram em várias lutas, a universidade; você tem, por exemplo, Moema que foi da época, tudo isso. Esse pessoal veio do Redentorista (CAVALCANTI, 2012).

estratégia de dominação, e o currículo seria um instrumento estrutural/relacional com a estrutura econômica e social, não sendo por isso neutro. Embora seja um conhecimento particular, está diretamente ligado aos interesses das classes dominantes. Para este autor o currículo como instrumento de poder apresenta um campo também de resistências, uma vez que sua elaboração privilegia uns, excluindo outros, conforme os grupos sociais econômicos, políticos e culturais. (SILVA, 2005). Já Paulo Freire reflete sobre os problemas da educação bancária, contribuindo, assim, para pensarmos os limites da estrutura curricular da educação institucional. Segundo este autor, a educação bancária delega ao educador o lugar de sujeito no processo educativo, conduzindo os educandos à memorização mecânica dos conteúdos, transformando-os em depósitos de informações, percebidos como caixas vazias que vão sendo preenchidas por conteúdos programados pelos detentores do conhecimento. Se faz uma educação em que o educador é o depositário e o educando o que recebe passivamente os conhecimentos necessários para torná-lo eficiente e qualificado, pois “recebem os depósitos”, guardando-os e arquivando-os (FREIRE, 2005). Nesse sentido, a educação não é capaz de colaborar com o homem na indispensável organização reflexiva de seu pensamento, assumindo posições identificadas com a nossa realidade. A construção do currículo deve ser em parceria entre educador e educandos. Freire questiona os métodos de aquisição do conhecimento, uma vez que esse separa, exclui, hierarquiza os saberes e os sujeitos envolvidos em sua elaboração e relaboração. Apesar das críticas em relação à concepção freireana, por este analisar apenas os métodos da aquisição de conhecimento, sua visão contribui para pensarmos na possibilidade de uma educação libertadora, na medida em que educador e educando interagem dialogicamente no processo de construção do conhecimento.

Segundo Salete Cavalcanti o projeto de criação da ETER se baseou na Lei do Ensino Médio, servindo como referência para a elaboração do currículo da escola, mesclando as experiências dos engenheiros holandeses participantes da equipe, assim como das contribuições dela como antropóloga, da professora Nita, de língua portuguesa que lecionava no Colégio Redentorista, Manoel do Carmo Silva, com sua larga experiência em cursos técnicos, contribuindo com a organização da carga horária das aulas de laboratório.

Embora fosse ao final do segundo ano que os(as) alunos(as) tivessem que escolher a habilitação (Eletrônica e Telecomunicações), todos(as) os especialistas envolvidos(as) na construção curricular da ETER tiveram que mesclar a estrutura oficialmente autorizada dos conhecimentos com a formação geral do curso de eletrônica, que envolvia as disciplinas das áreas de Comunicação e Expressão e Estudos Sociais com carga horária de 270 horas no total cada uma e Ciências com 720 horas no total. A formação especial era composta de disciplinas da área de eletrônica com carga horária de 570 horas no total; e carga horária de 150 horas refrentes às disciplinas da formação especial em telecomunicações, conforme descriminado na grade curricular a seguir:

Figura 10 – Grade curricular da ETER do curso de telecomunicações, dos anos de 1975-1996.