As políticas municipais de preservação em São Leopoldo possuem um início emblemático: a reforma da edificação da casa da Feitoria Velha em 1941. O SPHAN havia encaminhado um ofício à prefeitura de São Leopoldo e de Novo Hamburgo manifestando seu interesse de tombar a edificação como patrimônio nacional, algo que Meira (2008) aborda em sua tese. Ao que parece, pelas documentações encontradas por Müller (1979), o Sínodo Luterano, ao doar a edificação à prefeitura municipal e participar de uma campanha pela sua reconstrução, acreditava estar prestando um auxílio ao SPHAN, o que se trata possivelmente de uma dificuldade de comunicação entre o SPHAN, o Sínodo e prefeitura municipal. Ao contratar um arquiteto renomado como Theo Wiederspahn, fica evidenciado que as intenções da reforma eram as melhores possíveis.
A pedido do Pastor Hermann Dohms, Presidente do Sínodo, o arquiteto Theo Wiederspahn fez uma vistoria na Casa em agosto de 1939, com vistas a uma eventual restauração [...] algo deveria ser feito para salvar a Casa ‘talvez não agüente a um temporal’ como disse o arquiteto citado em seu relatório. (MÜLLER, 1979, p.71).
Em um documento apenso ao relatório de Wiederspahn, encontra-se a seguinte nota:
O Sínodo Rio-Grandense e a Sociedade União Popular do Rio Grande do Sul, declaram, preliminarmente, haver adquirido, há tempo, o referido imóvel, ulteriormente tombado pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, com o intuito de o salvar da ruína e de o transformar em museu. (MÜLLER, 1979, p.72).
Ao ter contato com tais documentos, podemos ver que a sociedade de São Leopoldo acreditava que a casa já estava tombada, e buscou, de uma maneira equivocada, auxiliar o SPHAN. Algo semelhante ao ato de arrumar a casa para uma visita.
A possibilidade de germanização da casa, levantada no início desta dissertação e reproduzida nos discurso contemporâneos, pode ser questionada. A ausência dos travamentos diagonais de madeira, tão marcantes da arquitetura teuto da imigração (WEIMER, 2004) é um indício de que o objetivo não era remeter ao enxaimel. Além disso, temos as informações de Dreher (2008) que o germanismo, no período, era associado ao idioma, e não à arquitetura.
Outro marco que temos na política pública de preservação de São Leopoldo aconteceu com o tombamento da Ponte 25 de julho. É emblemático porque envolveu a mobilização social, sensibilizando o então recém-criado IPHAE a utilizar o instrumento do tombamento para garantir a preservação do bem. O tombamento da ponte viabilizou a manutenção de um expressivo conjunto arquitetônico por meio de sua área de entorno. Todavia, essa ação não foi capaz de articular uma política pública de preservação histórica, fazendo com que as ações ainda sejam desarticuladas e sazonais.
Desde 2009, o COMPAC tem atuado na busca por construção de acordos com os proprietários dos bens edificados de interesse cultural com vistas à sua conservação, como no caso da construção da nova sede da Caixa Econômica Federal. A Caixa, apesar de ter um programa nacional de apoio à cultura, por meio da construção de centros culturais, adotou uma postura questionável em relação à casa, propondo a demolição de um casarão de 1928, na rua principal da cidade, que pertenceu à família Wolfenbuttel (Figura 92). Apesar do parecer negativo do conselho, um alvará de demolição foi expedido irregularmente, porém, o Ministério Público paralizou a demolição. Dessa forma, temos algo que Meira (2004) aponta como fase da amputação, onde os bens são parcialmente preservados – normalmente apenas a sua fachada–, uma “preservação” mais preocupada com a imagem do que com o entendimento do bem cultural como um elemento documental.
Figura 92 – Residência Wolfenbuttel
Fonte: Registrada pelo Autor (2017).
Um instrumento que irá certamente garantir à sociedade leopoldense uma melhor compreensão do seu patrimônio e cujo resultado será importantíssimo para um estudo da paisagem cultural urbana de São Leopoldo, é o inventário dos bens culturais edificados, trabalho concluído no fim de 2016, por Neutzling, já referido. Atualmente, o inventário encontra-se com a promotoria especializada do MP e foi negado acesso a este pesquisador, uma postura que o MP adotou com fins de proteger o sigilo até a homologação do mesmo. Entretanto, em algumas apresentações preliminares de Neutzling ao COMPAC (Figura 93), ficou claro que o patrimônio industrial, hospitalar e modernista, seriam incluídos em seu trabalho.
Figura 93 – Apresentação do Inventário ao COMPAC
O grande desafio que se impõe ao COMPAC é a compatibilização entre o plano diretor e o inventário. Atualmente, os quarteirões que apresentam maior quantidade de edificações históricas são justamente os quarteirões com maior índice construtivo. Dessa forma, qualquer política pública de preservação é ineficaz.
Segundo Stefani (2016), no processo de inventariamento foram analisados 3.657 imóveis, criando sete zonas de ambiência onde ainda existem conjuntos históricos. O centro histórico de São Leopoldo é compreendido como arquipélago, onde as zonas de ambiências são as ilhas, e o oceano são as porções já descaracterizadas.
Sobre os discursos na imprensa, e como o centro histórico vem sendo retratado, não há nenhuma pesquisa em São Leopoldo, sendo que o MHVSL possui um acervo de edições dos jornais antigos da cidade, entre eles o Deutsche Post. Toda pesquisa tem como desafio a falta de estruturação do acervo de periódicos, e o fato do jornal Deutsche Post ter sido publicado em idioma alemão. Atualmente, o pesquisador interessado terá que garimpar entre os jornais antigos, muitos em processos avançados de degradação.
Já no jornal Vale dos Sinos - VS, a tarefa é mais simples, já que Germano Oscar Moehlecke publicava uma coluna semanal sobre a vida em São Leopoldo, principalmente no intervalo dos anos 1920 a 1940. Essas publicações foram armazenadas por Moehlecke, em um acervo pessoal que o autor liberava para pesquisas. Com sua recente morte, em 2016, o destino deste acervo ainda é incerto. O VS, quando convidou a comunidade para opinar sobre a preservação de edificações históricas, sempre o fez de forma descontextualizada. No lançamento do inventário, foram publicadas, juntamente com a reportagem, algumas opiniões de cidadãos: “Acho que os gastos com os prédios históricos de São Leopoldo poderiam vir a calhar para outras coisas, como, por exemplo, um investimento maior na área de segurança da cidade” (ZUCHI, 2016, apud STEFANI, 2016).O jornal transmite a ilusão ao leitor que os gastos com bens edificados são altos, mas na realidade o Fundo Municipal do Patrimônio Histórico, desde a sua criação em 2006, nunca foi abastecido e o inventário só saiu por intervenção do MP: “Como os gastos com a preservação são enormes, acredito que o dinheiro poderia ser mais útil se fosse utilizado para tapar os buracos das ruas que estão numa situação crítica” (RAUPP, 2016, apud STEFANI, 2016).
O jornal não explica ao leitor o fato que, através do tombamento, o COMPAC planeja organizar projetos de restauração das edificações históricas por meio da Lei de Incentivo a Cultura – LIC e da Lei Rouanet, como parte dos preparativos para o bicentenário da imigração. Esses recursos, se capitalizados, não poderiam ser utilizados para a área da segurança ou para tapar buracos.
Ainda assim, a imprensa teve um papel decisivo em um momento recente ligado ao centro histórico de São Leopoldo, ao apoiar o tombamento federal do monumento ao imigrante, proposta encaminha ao IPHAN, em 2012 (Figura 94).
Figura 94 – Discursos na Imprensa
Fonte: Amigos do morro do espelho (2012).