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Os padrões silábicos de uma língua são propostos a partir da observação da estrutura silábica e dos componentes que os preenchem. Para tanto, é preciso efetuar os passos de silabificação (CLEMENTS, 1990; ITÔ, 1986) às palavras, buscando dividi-la em sílabas, a fim de observar o seu padrão de preenchimento.

Seguindo a proposta de Itô (1986), o primeiro passo, explicitado em (4), é identificar todos os núcleos silábicos de uma palavra, que são os segmentos mais sonoros da escala de sonoridade, em geral, os segmentos [+soa, +sil], como as vogais. Feito isso, é preciso, ainda, associar ao nó de núcleo os outros elementos [-cons] que existem, deixando- os ligados ao núcleo. É importante esclarecermos que essa última associação corresponde à perspectiva que defende que a semivogal está ligada ao núcleo silábico.

55 (5) R R R R R N N N N N X X X X X X c a s c a m a i s p r e s t a r

O segundo passo se ocupa do estabelecimento do ataque ou onset. Aqui serão associados ao nó de onset os segmentos [+cons] que precedem imediatamente o núcleo. Fazendo o mesmo a outros segmentos [+cons] que antecedam o segmento [+cons] já associado ao onset, no entanto, é preciso obedecer ao princípio de seqüenciamento de sonoridade.11 Isso pode ser observado nas estruturas em (6):

(6) O R O R O R O R O R N N N N N X X X X X X X X X X X X c a s c a m a i s p r e s t a r

Como vimos em (6), os segmentos „s‟ internos às palavras „casca‟ e „prestar‟ não foram associados ao onset porque não obedecem ao princípio de sonoridade, já que as seqüências „sc‟ e „st‟ teriam o primeiro elemento mais sonoro do que o segundo, contrariando o movimento de ascendência de sonoridade em relação ao núcleo. Fato que não acontece na seqüência „pr‟ da palavra „prestar‟, em que ocorre o padrão desejado para onset, o crescimento da sonoridade em direção ao núcleo.

11 O Princípio de seqüenciamento de sonoridade é derivado da escala de sonoridade, já discutida

anteriormente. De acordo com esse princípio, a sonoridade cresce em direção ao pico da sílaba, decrescendo em seguida.

56 Por fim, os segmentos [+cons] que não foram associados a nenhum onset serão ligados à rima precedente, através do nó de coda. As propostas que consideram a semivogal como um componente da coda associam aqui os segmentos [-cons], ao invés de associarem ao núcleo. (7)      O R O R O R O R O R N C N N C N C N C X X X X X X X X X X X X X X X c a s c a m a i s p r e s t a r

Em seu trabalho sobre a estrutura silábica do PE, Mateus e Dandrade (1998) seguem esses passos para explicitar a formação da estrutura silábica dessa língua. E destacam, no processo de silabificação do PE, um passo que antecederia a atribuição de codas, que seria a criação de núcleos vazios. Isso se daria porque algumas consoantes que não são aceitas como coda nessa língua ficariam “flutuando”, não sendo associadas a nenhum nó da sílaba. Para os autores, essas consoantes seriam onsets de núcleos subjacentes que podem ser preenchidos na superfície durante o processo de silabificação.

Um exemplo para esse caso seria a palavra „afta‟, que possui um segmento flutuante. Em „afta‟, o segmento „f‟ não forma um onset complexo, já que não obedece às condições de boa formação de onset complexo, nem forma uma coda, pois, segundo os autores, não faz parte do inventário das codas aceitas nessa língua /R/, /L/ e /S/, tornando- se, dessa forma, um segmento flutuante com núcleo subjacente que, quase sempre, é preenchido durante a silabificação dessa palavra.

57 (8)    R O R O R N N N X X X X X a f (i) t a

No PB, seguindo os passos de silabificação citados anteriormente, podemos chegar ao inventário dos segmentos que podem ocupar cada posição da sílaba. Observamos que, nessa língua, todas as consoantes podem figurar na primeira posição de ataque. É importante salientar que as consoantes palatais // e // têm maior freqüência em ataques que ocorrem no interior da palavra. Os exemplos em (9) ilustram os ataques simples do PB: (9) /paso/ /taa/ /loa/ /sapo/ /ama/

/bife/ /dado/ /xaro/ /zaga/ /mio/ /kana/ /nabo/ /vazo/ /amo/ /oke/

/gole/ /maka/ /fava/ /ato/ /mia/

A segunda posição do ataque do PB só pode ser preenchida pelas consoantes /r/ e /l/, combinadas com algumas obstruintes para formar os grupos consonantais. Esses onsets complexos são bem-formados, já que obedecem ao seqüenciamento de sonoridade da sílaba, ou seja, elemento com menor sonoridade seguido por elemento de maior sonoridade. Alguns encontros, contudo, não são produtivos, como o „vr‟ e o „tl‟ em ataques iniciais e o

58 „dl‟ e o „vl‟ em ataques iniciais ou internos à palavra. Em (10), destacamos alguns exemplos de ataque complexo:

(10) /prato/ /plaka/ /bruto/ /bloco/ /kravo/ /klaro/ /kapri/ /aplike/ /kobre/ /sublime/ /makro/ /deklive/ /grave/ /globo/ /trato/ --- /frade/ /floko/ /magro/ /sigla/ /setro/ /atlas/ /kofre/ /aflora/ /droga/ --- --- ---

/madre/ --- /livre/ ---

No caso do núcleo, as vogais são as responsáveis pelo seu preenchimento. Bisol (1989) afirma, no entanto, que os ditongos leves ou falsos12 são ligados a um único elemento V, ou seja, vogais e semivogais estão ligadas ao núcleo, mas unicamente nesse caso, como atestam os exemplos em (11).

(11) N N N N

/peje/ /kaja/ /kejo/ /bejo/

É consenso na literatura que a posição de coda no português é ocupada apenas pelas consoantes líquidas /r/ e /l/, pela nasal /N/, que se realiza através do traço de nasalidade na vogal precedente, pela fricativa coronal /s/ e pelas semivogais /j/ e /w/ que formam o ditongo verdadeiro, como comprovamos através dos exemplos em (12).

12 Para Bisol (1989), ditongos leves ou falsos surgem diante de consoante palatal, podendo apresentar

variação com monotongos: [peji] ~ [pei], e, por isso, são ligados a um único elemento V, ou seja, possuem estrutura CV. Já os ditongos verdadeiros, esses não sofrem variação e são, conseqüentemente, ligados a dois elementos V (CVV), equivalendo, portanto, a uma estrutura travada CVC: [maw], [foj], [kaj].

59 (12) le.gal – mal.da.de; fó.rum – can.to; la.zer – par.te; lá.pis – cas.ca; he.rói – a.cei.to.

Retomando a proposta de Selkirk (1982), podemos concluir que a coda é a posição mais débil da estrutura silábica, por isso torna-se bastante suscetível à variação em qualquer que seja a sua posição dentro da palavra, acentuando-se ainda mais na posição final.

Os trabalhos sociolingüísticos sobre os dialetos brasileiros têm comprovado esse comportamento variável, demonstrando a presença bastante recorrente de variantes como a semivocalização, o enfraquecimento, a palatalização e o apagamento; distribuídas de maneira não uniforme nas posições interna e final, como atestam os dados de Hora (2006; 2003), Hora e Monaretto (2003) e Ribeiro (2006), cujas variantes encontradas são expostas em (13):

(13) /l/  [l] : [w] : [h]: []; /r/  [r] : [h] : [w] : [j] : []; /s/  [s, z] : [, ] : [h] : [].

Outro processo que merece destaque, apesar de não ser muito recorrente, é a inserção vocálica após a coda, que passa a ser lida como onset porque cria uma nova sílaba.

Dessa forma, é possível depreendermos que os padrões silábicos do PB se encaixam na estrutura (C)V(C).(C)V(C)], sendo o ataque e a coda não obrigatórios. É consenso na

60 literatura sobre a sílaba a menção à tendência universal das línguas por padrão CV, sendo confirmada pelo apagamento das consoantes em posição pós-vocálica e da inserção de vogal após ela, a exemplo da fricativa coronal, como veremos com detalhe na Seção (2.4).