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A composição de Coletivos de Professores para cada ciclo ancora-se na idéia de que o trabalho em equipe é necessário para aumentar a eficácia do ensino. Neste sentido, com a constituição de Coletivos de Professores pretendeu-se desenvolver a cooperação profissional configurando-se como um espaço de reflexão e de formação.

Com esse propósito, por ocasião da implantação dos ciclos, a escola recebeu orientações no sentido de proceder à lotação dos professores por ciclo e não por turma. Os professores de cada Ciclo deveriam constituir um Coletivo de Professores de Ciclo, tendo preferencialmente carga horária semanal de 40 h/a lotadas na mesma escola, distribuídas em 36 horas para ações de sala de aula e 4 horas para estudo individual ou em grupo. A previsão era que cada Coletivo deveria contar com um professor a mais, o que possibilitaria tempo destinado ao estudo, planejamento das atividades e a avaliação.

Em relação aos Coletivos de Professores, especialmente quanto à sistemática de lotação, a administração da SEDUC que iniciou no ano de 2003, manteve as mesmas orientações,

assim sendo, nas Diretrizes emitidas para o ano letivo de 2004, é orientado que:

Cada Ciclo contará com um professor (40h/a) que se acrescenta ao número de turmas e que junto com os demais professores integra o coletivo de professores do Ciclo. Esse coletivo planeja e reveza-se nas turmas e nas atividades de estudo, de aula (dentro e fora da sala), de planejamento e de apoio pedagógico, como também preparação de sua ação docente, inclusive de materiais necessários ao seu melhor desempenho. No caso de professores com carga horária semanal de 20/h/a, somente duas dessas horas ficam disponíveis, em cada semana, para estudo [...] O planejamento continuará ocorrendo nos sábados destinados a essa atividade, reunindo todos os professores do coletivo do Ciclo. Nesse momento do planejamento (que é também momento de estudo) o coletivo dos professores define o quê, como, quando e quem realiza cada ação planejada para o período (CEARÁ, 2004).

No ano de 2005, é mantida a lotação das professoras por ciclo e não por turma, sendo orientado que deveria ser feito um revezamento entre as professoras de todas as turmas de um mesmo ciclo, de acordo com as atividades planejadas. Dessa forma, oficialmente, permanece o Coletivo de Professores de Ciclo. No entanto, suspendeu-se a inclusão de uma professora a mais no Coletivo de Ciclos, além de terem sido retiradas as 4 horas/aulas semanais concedidas inicialmente para estudo. A partir de então, as horas de estudo e planejamento deveriam ser realizadas aos sábados.

Tal postura dos gestores vai de encontro aos resultados de diversas pesquisas referentes à implantação dos ciclos no ensino fundamental no Brasil. Gomes, analisando os resultados apresenta uma síntese das medidas consideradas como essenciais, favoráveis e comuns nos modelos adotados na implantação dos ciclos: a redução do tempo de regência do professor, tempo suficiente para estudarem e se reunirem na escola. Segundo o autor,

Os principais fatores apontados são quase óbvios e indispensáveis á efetivação de quaisquer inovações educacionais com certo nível de complexidade, como os ciclos, o que indica que se acertou em condições simples e elementares (GOMES,2004, p. 40).

A eliminação da carga horária para estudo das professoras e a retirada do “professor a mais” são medidas que se situam no âmbito da política educacional atrelada à visão tecnicista, utilitária e mercantil do ensino, que, segundo Arroyo, “desqualificou a educação básica, o papel de seus profissionais e os processos de sua formação” (1999:4).

desconsiderada tal medida, potencialmente capaz de proporcionar melhores condições de trabalho ao magistério em face das tarefas complexas da organização do ensino em ciclo.

Esse fato vem reforçar a crença de parte significativa do magistério, segundo a qual a implantação dos ciclos tem forte motivação econômica e foi inspirada na política neoliberal. Assim, busca-se melhorar as estatísticas relacionadas à evasão, repetência e ao abandono, através da redução de custos. Seria, neste sentido, uma medida mais voltada ao cumprimento de objetivos financeiros do que pedagógicos. Essa convicção se fortalece quando os gestores retroagem, adotando medidas que comprometem e inviabilizam a concretização de uma concepção que traz possibilidades de promover reais mudanças na escola. A ausência de condições que favoreçam o desempenho adequado das professoras é reconhecida pela escola.

Falta tempo para o professor estudar. Quando os ciclos começaram o professor tinha aquele espaço que ele ficava na escola. Eu acho que poderia voltar isso daí, ter aquele professor que ficava na sala para o professor poder sair. Seria importante porque senão vai cair na mesmice, os problemas vão continuar. O professor tem que ter esse momento de estudo, já que em casa ele não tem. Tem que dar uma parada. A Secretaria e o CREDE tem que ver momentos de formação em serviço para esse professor (diretora).

O que se observou é que há uma grande distância entre o proposto e o realizado e a não observância das diretrizes da SEDUC quanto ao revezamento dos professores em todas as turmas do ciclo. Manteve-se a mesma sistemática de lotação praticada na seriação, ou seja, cada professor com sua turma, como se pode constatar neste depoimento:

[...] Tudo começa na matrícula, na organização das turmas, do professor que vai para aquela sala de aula, qual é o professor que vai ficar com aquela turma (coordenadora pedagógica).

Mantendo as práticas convencionais do ensino seriado, a escola perde a oportunidade de obter ganhos. O fato de responsabilizar vários professores por um mesmo ciclo traz como principal benefício, conforme Perrenoud (2004), a possibilidade de facilitar a diferenciação do ensino, estratégia fundamental em um processo de ensino aprendizagem que respeita os diferentes ritmos e necessidades dos alunos, sendo este um propósito da implantação de Ciclos de Formação:

O interesse dos ciclos é criar um espaço-tempo de formação mais amplo, mobilizando vários professores para criar outros dispositivos de diferenciação, mais potentes, grupos de níveis, de necessidades, de projetos ou módulos (PERRENOUD, 2004, p. 71).

A criação de uma cultura do trabalho de equipe entre os professores constitui-se um desafio para a escola, uma vez que a cultura da organização escolar na sociedade capitalista é baseada em uma divisão do trabalho em que predomina o individualismo. O individualismo é percebido pela professora do segundo ciclo T9 como desunião e não como “uma modalidade de gestão do pessoal em que não são concedidos privilégios às equipes”. (PERRENOUD, 2004:73). Em sua visão fragmentada da realidade, a professora não percebe a influência da estrutura social nos padrões de relacionamento entre os indivíduos. Assim sendo, constata-se uma percepção ingênua das relações entre as professoras, segundo a qual estas relações se restringem ao meramente pessoal.

Os professores são um pouco desunidos. Infelizmente eu acho os professores um pouco desunidos. Tem trabalho [...] eu não sou desse jeito. Quando eu tinha minhas coisas eu dava. Entendeu! Quando eu tenho material eu dou o meu material pra minha colega, mas eu percebi que muitas vezes tinha professor que não sabia dividir, isso eu acho desunião (professora segundo ciclo t9).

Para romper com a visão do senso comum entre os professores é essencial investir em processo de formação que possibilite a reflexão efetiva sobre a prática. A fim de melhor compreender a importância do coletivo de professores na organização em ciclos, é importante recorrer ao pensamento de Arroyo, idealizador da Escola Plural em Belo Horizonte, que influenciou a proposta de Ciclo da SEDUC – CE sobre a formação docente.

Para o referido autor, a formação dos profissionais envolvidos com as propostas que concebem os ciclos como Ciclos de Formação ou de Desenvolvimento Humano deve, como melhor estratégia, partir da formação que os docentes já possuem, reconhecendo que a função do educador é definida socialmente e recuperando o que há de permanente nessa função. A formação necessária, segundo ele, se daria através da criação de situações coletivas, reforçando a função social e cultural dos profissionais e que eles já põem em ação na sua prática. Nessa perspectiva, a formação ocorre ao mesmo tempo em que se questionam culturas escolares e profissionais e com o processo de desenvolvimento humano, social e cultural dos professores.

Essa concepção contrapõe-se à concepção tradicional de formação, que vê a qualificação dos profissionais como um pré-requisito e uma precondição à implantação de mudanças na escola. Esse caráter antecedente de toda qualificação é aceito como algo inquestionável quando se pensa na formação não só dos professores, mas quando estes

pensam na educação de seus alunos. Nessa ótica, o domínio da teoria precede o da prática. Polariza-se a vida em tempo de aprender e de fazer, tempo de formação e de ação, teoria e prática, o pensar e o fazer, o trabalho intelectual e o manual.

Em sua formulação, os Ciclos de Formação Humana são inseparáveis do avanço do direito à educação básica, ou do direito ao pleno desenvolvimento de todos como seres humanos. Compreende que trabalhar em um determinado tempo-ciclo da formação humana passa a ser o eixo identitário dos profissionais da educação básica e de seu trabalho coletivo e individual. Neste sentido, considera que as experiências de ciclo vêm sendo um campo fecundo para repensar concepções e práticas de formação de educadores.