Conforme Martins et al. (2005), os imigrantes alemães que chegaram à região de Novo Hamburgo encontraram a matéria-prima necessária para a produção de calçados. Com isso, a fabricação de calçados foi a primeira atividade industrial a se desenvolver na região. Mesmo antes da imigração alemã oficial para o Brasil, Nicolau Becker já havia instalado o primeiro curtume na região. Por este motivo, é conhecido como o fundador da indústria coureira do Vale dos Sinos.
Foi com a criação da primeira fábrica de calçados, por Pedro Adams Filho, em 1898, que ocorreu o marco do crescimento da atividade calçadista em Novo Hamburgo. Pedro Adams Filho é considerado o pioneiro da indústria calçadista em Novo Hamburgo e no Vale dos Sinos. A empresa era a Pedro Adams Filho & Cia Ltda. Foi ela que contribuiu para a criação da Energia Elétrica Hamburguesa Ltda, tendo Pedro como primeiro presidente. As indústrias calçadistas e os curtumes foram se desenvolvendo, aos poucos, na região.
De acordo com Raupp (apud MARTINS et al., 2005, p. 83), a empresa Expresso Rio Grande – São Paulo, através de seu proprietário Arlindo Spindler, sentiu que havia necessidade de agilizar as entregas dos produtos das indústrias para as lojas.
Partindo dessa necessidade, em 1939, foi feita a 1ª viagem interestadual a Santa Catarina, saindo de Santo Antônio da Patrulha e indo pelo litoral até Blumenau, Joinville e Florianópolis com uma carga de calçados. Até Torres, foi utilizada a beira da praia e a chegada a Santa Catarina deu-se pelas mesmas estradas, utilizadas pelos tropeiros do século XVII. O maior problema era a falta de mapas e estradas certas para chegar até o destino, pois até este momento todo o transporte era feito por barco a vapor. O caminho teve que ser, então, mapeado e anotadas todas as localidades e distâncias até Blumenau. O resto foi mais fácil, pois haviam estradas melhores. A carga chegou ao seu destino em três dias e os lojistas passaram a pedir aos fabricantes que mandassem as mercadorias de caminhão. Nesse mesmo ano foi feita a primeira viagem a São Paulo, que levou onze dias, mas poderia levar até mais de um mês. Nesse momento, aumentou a possibilidade de crescimento do setor coureiro-calçadista, pois, entre outros fatores, o transporte rodoviário evitou que as mercadorias fossem armazenadas em depósitos ou fossem extraviadas.
Feijó (apud MARTINS et al., 2005, p. 103) afirma que “Na 2ª Guerra Mundial, embora não pareça, o Vale dos Sinos foi o maior fornecedor de couro para o mundo. Então começaram a abrir fábricas e todas elas tinham vínculos com os curtumes”.
A imprensa começa a surgir e, no ano de 1960, foi fundado o Jornal NH que, no primeiro número, circulou por todo o país. Teve como seu primeiro anunciante uma fábrica de calçados, a Calçados Petry, a qual forneceu lista entre 300 e 400 lojistas para a distribuição do jornal. Conforme Martins et al. (2005, p. 97). O jornal “Trouxe, como norteadora, a proposta de engajar, propagar e incentivar o setor industrial da cidade e de todo o Vale do Rio dos Sinos, assim como, ser o porta-voz atuante da comunidade em geral”. Gusmão (apud MARTINS et al., 2005, p. 124), acrescenta:
O que aconteceu no dia 19 de março de 1960? Circulou pela primeira vez o “Jornal NH”. No editorial do jornal desse dia, edição número 1, estava dito do propósito da nossa empresa de dar um apoio na divulgação do setor calçadista. Nós dizíamos que, pela importância da indústria calçadista, ela teria que ser mais
empolgada. Até em nível nacional e quem sabe, internacional. Esse foi o propósito que o jornal assumiu e que cumpriu. A partir dali então, nós nos engajamos no apoio ao setor.
No mesmo ano, uma comitiva tomou a decisão de conhecer os Estados Unidos. Tal comitiva foi composta por: Edgar Siller, presidente da Associação da Indústria e do Calçado; Oscar Adams, fabricante de sapatos de salto Luis XV; Nilo Grin; Artur Kunzler, fabricante de sapatos masculinos; Bruno Petry, fabricante de sapatos de criança. As passagens foram pagas pelo governador Leonel Brizola. Também os acompanharam Aquiles Gerhardt, do Arplac, Cláudio Strassburger, Hugo Hoffmann, publicitário, e o jornalista Alceu Mário Feijó, que foram por conta própria.
Relata Feijó (apud MARTINS et al., 2005, p. 105) que: “Depois que eles voltaram, reuniram-se e criaram uma empresa de Estudo da Exportação. Nomearam o Carrasco, uma pessoa experiente, vinda da Europa, que conhecia tudo de fabricação, para fazer uma viagem pela Europa Central e Estados Unidos”. No retorno da viagem, esboçaram a fundação de uma empresa exportadora, contando com a participação de empresários. Estudaram os aspectos legais, contrataram Egon Kroeff, gerente do Banco do Brasil, para realizar uma pesquisa de mercado em visita à Alemanha e Itália que acabou por proporcionar a vinda de americanos.
Ainda afirma que:
Com sua ida à Europa, Cláudio conseguiu vender muitos pares de sandálias para uma rede inglesa. Oficialmente, aquela foi a primeira exportação. Nesse meio tempo, Pedrinho Adams já tinha ido à Europa e à África, e vendido em torno de 250 pares do Grande Gala; extra-oficialmente, foi o primeiro a exportar. Cláudio fundou, junto com o Maurício Schimtt e o Raul Brandeburger, uma empresa exportadora, chamada SKB. Feijó (apud MARTINS et al., 2005, p. 106).
Surgiam novas empresas e, com elas, a tecnologia e o desenvolvimento da região. Segundo Senger (apud MARTINS et al., 2005, p. 98):
Um ano depois, foi criada a FENAC, Feira Nacional do Calçado, com o objetivo de atrair os lojistas do país para Novo Hamburgo. Os integrantes da imprensa local foram de suma importância para a divulgação dessa feira. Eles, acompanhados de belas senhoritas, realizaram o Raid do Calçado, que foi uma viagem, uma verdadeira epopéia, visitando as principais capitais do país, televisões e jornais, convidando a todos para prestigiar a FENAC.
Para Feijó (apud MARTINS et al., 2005, p. 111): “Os grandes acontecimentos do calçado nos últimos anos foram: a viagem para os Estados Unidos, a FENAC e a exportação. Três grandes acontecimentos, que geraram tudo e criaram tudo, criaram esta cidade fabulosa que a gente não reconhece mais”.
Conforme Gusmão (apud MARTINS et al., 2005, p. 129):
A FENAC, na minha avaliação, representou um passo vital pra economia da região do Vale do Rio dos Sinos, para o setor calçadista. Foi uma linha divisória, o que tinha antes e o que passou a ser depois. A partir da feira, a região adquiriu aquele grau de importância e Novo Hamburgo passou a ser a “Capital Nacional do Calçado”, coisa que não era antes.
Até então, as grandes indústrias estavam localizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nos anos 1967 e 1968, começou a exportação de calçados. Segundo Senger (apud MARTINS et al., 2005), os anos 70 foram a época de ouro do calçado.