Enquanto a síncope é descrita como apagamento segmental no interior da palavra, a apócope é delimitada como uma mudança fonética que consiste na supressão de um ou mais fonemas no final de um vocábulo. Dubois (1978) define apócope como:
[...] uma mudança fonética que consiste na queda de um ou mais fonemas ou sílabas no fim de uma palavra. Na maioria das vezes a apócope corresponde a um fenômeno de sândhi e provem do hábito de tratar certas palavras da frase como se fizessem parte da palavra que precede ou que segue. Ex: elisões portuguesas dele, deste, daqui, etc. são fenômenos para evitar hiato (DUBOIS, 1978, p. 20).
No período anterior ao latim clássico (latim pré-literário), segundo Faria (1955, p. 170), a apócope da vogal e era observada com frequência; entretanto, a manifestação do fenômeno parecia não obedecer a nenhum critério. Nas palavras do autor: “a apócope do e apresenta numerosos exemplos impossíveis de enfeixar numa fórmula comum pela variedade
que apresenta” (FARIA, 1955, p. 170).
No que diz respeito ao latim vulgar, segundo assevera Coutinho (1970), a apócope mais recorrente foi representada pelo apagamento da vogal e antecedida por r, l, s, z ou n. A queda do e pós-tônico final ocorria somente quando “o fonema, que com ele formava a sílaba,
pôde formar igualmente sílaba com os fonemas anteriores” (COUTINHO, 1970, p. 106). Os
a) amar(e) > amar b) fidel(e) > fiel c) mens(e) > mês d) cruc(e) > cruz e) sin(e) > sem
Em relação ao português moderno, observam-se diferentes manifestações de apócope. A supressão do – r final dos verbos no infinitivo (fala(r) – falá; dize(r) – dizê) expressa a ativa manifestação do processo de apagamento no português moderno. Bagno (2007) afirma que:
O apagamento de /r/ nos infinitivos caracteriza o vernáculo de todos os brasileiros. Nas demais palavras é freqüente em determinadas variedades regionais (como as nordestinas). Daí a impropriedade de usar grafias como CANTÁ, VENDÊ, SAÍ, como representativas da fala popular, já que elas também caracterizam os falantes urbanos escolarizados (BAGNO, 2007, p.148).
O apagamento do – r, em posição silábica terminal, não é um processo recente no português brasileiro. Oliveira (2001), ao fazer uma revisão cronológica da supressão do segmento, encontrou indícios de que o fenômeno ocorre desde o latim e foi se “expandindo para diferentes classes de palavras e estratos sociais, visto que era inicialmente comum principalmente nos infinitivos” (OLIVEIRA, 2001, p. 05).
Embora o processo de apócope não tenha se manifestado diacronicamente na redução de vocábulos esdrúxulos em paroxítonos, visto que não há registros da atuação do fenômeno de supressão sobre proparoxítonos latinos, alguns trabalhos centrados no comportamento dos esdrúxulos no português moderno fazem menção à apócope, apontando o processo como possível redutor de proparoxítonos. Dentre os trabalhos que se referem à incidência de apócope em proparoxítonos alude-se: Descrição e análise da redução das palavras proparoxítonas (CAIXETA, 1989), Apagamento de vogais átonas em trissílabos proparoxítonos: um contributo para a compreensão da supressão vocálica em português europeu (FERNANDES, 2007), Algumas observações sobre as proparoxítonas e o sistema acentual do português (ARAÚJO et al., 2008) e Descrição das vogais postônicas na variedade do noroeste paulista (RAMOS, 2009) 10.
Caixeta (1989, p. 81), apesar de não ter se detido a um estudo detalhado da incidência do fenômeno de apócope, mencionou ter encontrado, nos dados submetidos à análise, a queda de segmentos finais na palavra matemáti[ca] – matemáti e a queda de
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elementos terminais resultantes de um processo de haplologia11 (sábado domingo – saba[do]mingo).
Ramos (2009), da mesma forma, identificou em sua pesquisa uma série de processos diferentes da síncope, que, segundo a autora, também atuavam na redução de vocábulos proparoxítonos. Dentre esses, destacou a queda da sílaba final em palavras como árvore – [, cômoda – õ, médico – [e matemática – [, assim como o apagamento da rima da sílaba final da palavra parênteses – [
Araújo et al. (2008, p. 14) também denunciaram a possibilidade da incidência de apócope como redutora de proparoxítonos. Nas palavras dos pesquisadores:
Outro caso a ser considerado ocorre em palavras que possuem [s] ou [z] no onset da sílaba final seguidos de [i]. Nesse caso, a vogal final é apagada e a consoante [s] é ressilabificada para a coda da sílaba postônica, gerando uma paroxítona. Portanto, temos aqui um caso distinto dos apresentados [...] a redução em (apólice – apólis, elefantíase – elefantiaz), ocorre devido ao apagamento da vogal da sílaba átona final (apócope). É o que ocorre com 611 palavras do corpus (ARAÚJO et al., 2008, p.14).
Com relação ao português europeu, a manifestação da apócope em esdrúxulos foi descrita no estudo desenvolvido por Fernandes (2007) intitulado Apagamento das vogais átonas em trissílabos proparoxítonos: um contributo para a compreensão silábica do português europeu. A autora, ao investigar a produção de trissílabos esdrúxulos na fala de três informantes lusitanos, observou a incidência tanto do fenômeno de síncope (op[e]ra – ópra), como do processo de apócope (cômod[o] – cômod) e, muitas vezes, a manifestação simultânea de ambos (ímp[e]t[o] – ímpt).
Os dados nos quais a autora observou a queda do segmento vocálico terminal fornecem indícios de que a atuação da apócope em proparoxítonos, no português europeu, viola os princípios e condições reguladores da boa-formação silábica na língua12. Fernandes (2007) registrou, por exemplo, casos de apagamento da vogal final em palavras como súbito [e música As ilustrações de aplicação do processo de apócope, fornecidas pela autora, não apresentam semelhanças com os exemplos citados pelos trabalhos relativos ao português brasileiro de Caixeta (1989) e Ramos (2009), nos quais somente a queda da sílaba final é observada.
11 Considerando o nível da frase fonológica, a haplologia é interpretada como um processo no qual há queda total
de um segmento silábico no encontro de suas sílabas semelhantes átonas situadas na fronteira de palavras. Ex: faculda(de) de letras (TENANI, 2002, p. 131).
12 Os princípios universais e condições particulares da língua portuguesa que garantem a boa-formação da sílaba
Dessa forma, é possível verificar que, apesar de alguns estudos alusivos ao comportamento dos proparoxítonos no português brasileiro referirem o processo de apócope como um dos que podem operar na redução de esdrúxulos, há uma carência de trabalhos destinados a sistematizar o processo.