Chapter 1: Introduction
1.5. Methods
A Capela de Nossa Senhora do Vencimento (Figura 68), fazia parte do Engenho Paramirim e foi construída no século XVIII. Em testamento encontrado no Arquivo da Santa Casa de Misericórdia10, o dono do engenho Paramirim, o capitão
Christovão da Cunha de Sá Souto Maior, em 22 de julho de 1676, fez um testamento, no qual sua mulher, D. Cezília de Souza, seria sua herdeira e administradora de seus bens.
Figura 68 - Capela de Nossa Senhora do Vencimento Fonte: Acervo da autora, 2012
Neste testamento consta que o engenho possuía “duas léguas em quadrado de terras”, uma das grandes propriedades da região. Ainda no testamento, Souto Maior pede para sua esposa, concluir as obras da Igreja, com os rendimentos das muitas fazendas que possuía; empregando a verba na conclusão da obra e nos ornatos da Capela, para que, segundo ele: “[...] esteja provida de todo o necessário, pois assim é a minha última vontade”, determinando também, como capelão perpétuo da capela, o padre Antônio Álvaro Coimbra. D. Cezília, por conseguinte, concluiu as obras da capela e, como não tiveram filhos, após a sua morte essas terras foram doadas à Santa Casa de Misericórdia de Salvador.
A partir daí, o engenho passa por muitos proprietários, de acordo com o que está relatado no IPAC/SIC (1978); em meados do século XVIII, o engenho Paramirim é comprado por Frutuoso Vicente Viana. Já em 1757, o vigário Miguel Teixeira Pinto, em sua notícia sobre a freguesia de Nossa Senhora do Monte, faz referência à capela de Nossa Senhora do Vencimento. Atualmente, toda a área do povoado do Vencimento, estendendo-se até o município vizinho, compreendendo 81,2526 ha, pertence à Industria Penha Papéis e Embalagens LTDA.
Da maioria dos engenhos do século XVII e XVIII, do Recôncavo da Bahia só restaram as capelas. Segundo Esterzilda Azevedo (2009), a sua longevidade é
justificada pelo fato de serem construídas com paredes autoportantes de alvenaria mista. As que foram construídas de taipa ou adobe não deixaram vestígios. Da casa-grande do engenho Paramirim, só restaram ruínas, que se encontram ao lado da capela (Figura 69 e 70).
Figura 69 – Ruínas da Casa Grande do Engenho Paramirim
Fonte: Acervo da autora, 2012
Figura 70 – Ruínas da Casa Grande
Fonte: Acervo da autora, 2012
A capela possui uma área construída de 379 m2, apresenta uma planta constituída
de nave única e capela-mor, ambas com a mesma largura, separadas por arco cruzeiro; sua planta representa uma versão simplificada das matrizes interioranas do final do século XVII, do Recôncavo da Bahia, a exemplo da Igreja de Nossa Senhora de Monte Recôncavo, possuindo vãos abertos para o exterior (IPAC/SIC, 1978), (Figuras 71 e 72).
1º PAVIMENTO– Esc. 1:300
Figuras 71 e 72: Plantas Baixas – Pav. Térreo e 1º Pavimento
A cobertura da capela é composta por telha cerâmica do tipo canal apresentando uma volumetria escalonada em oito níveis diferentes, os quais correspondem aos espaços internos da igreja: o maior e mais extenso volume, coberto com telhado em duas águas, corresponde à nave. Segue-se um segundo volume, menor, que corresponde ao presbitério e à capela-mor, também com cobertura em duas águas. O terceiro e quarto estão dispostos nas laterais, em meia água, abrigando os corredores laterais, as sacristias e o ossuário. Os telhados terminam sobre cimalha, com exceção dos corredores laterais que apresentam platibandas ornamentadas (Figura 73). A iluminação natural é obtida por óculos de grandes dimensões, dispostos nas laterais do altar mor e pelos vãos abertos nos corredores laterais. Os pisos da capela-mor e da nave são em mármore, os demais cômodos em ladrilho hidráulico.
Figura 73 – Fachada Lateral (disposição dos telhados)
Fonte: acervo da autora, 2012
A capela-mor é ladeada por sacristias, interligada por portas, à direita, possui uma janela com gelosia11, geralmente utilizada por mulheres, para assistirem às missas
sem manter contato com outros fiéis. Ao fundo da sacristia esquerda encontra-se um ossuário, onde eram guardados os restos mortais dos familiares do proprietário do engenho. O altar-mor é neoclássico em alvenaria e estuque. Contornava toda a área inferior da capela-mor, uma faixa de azulejos semi-industriais, com 1 m de
altura, decorada em motivos fitomorfos, atualmente só encontram-se resquícios. O forro da capela-mor é em abóbada abatida (Figura 74).
Figura 74 – Altar-mor
Fonte: Acervo da autora, 2013
A nave é ladeada por corredores, com aberturas em arcos, para o exterior. Barras de azulejos semi-industriais revestem o terço inferior das paredes, com decorações em motivos fitomorfos similares ao da capela-mor, também só há resquícios. Na parede lateral encontra-se um púlpito em alvenaria, com decorações em estuque (Figura 75).
Figura 75 – Interior da Capela de N. S, do Vencimento
No levantamento efetuado pelo IPAC/SIC em 1978, foi mencionada a existência de vários bens integrados a este monumento como: lavabo de lioz do século XVIII, pia batismal em mármore carrara e forro plano na nave (AZEVEDO, 2009). Atualmente, não há mais vestígios da existência desses elementos na Capela; durante muitos anos, segundo os moradores, apareceram muitos vândalos, que saquearam e retiraram alguns bens integrados, inclusive grande parte dos azulejos.
Sobre o hall de entrada encontra-se o coro, construído em madeira, cujo acesso é feito por escada, localizada no vão situado sob a torre direita. A fachada principal, pelas suas características, provavelmente, foi refeita, no final do século XIX (IPAC/SIC, 1978). Possui uma portada suntuosa, em estuque, que ultrapassa a cornija e termina no frontão (Figuras 76 à 80).
Ao nível do coro existem janelas, assim como nas torres sineiras, com vergas em arco pleno e cercaduras em cantaria; nas sacristias encontram-se janelas com verga em arco abatido. As torres são encimadas por bulbos do tipo bizantino, revestidos com azulejos industriais.
Figura 76 – Fachada Principal Figura 77 -Detalhe da portada
Fonte: Acervo da autora, 2010 Fonte: Acervo da autora, 2012
FACHADA PRINCIPAL– Esc. 1:300
FACHADA LATERAL – Esc. 1:300
Figuras 78 e 80 – Fachada Principal, Corte AA’ e Fachada Lateral
Desenho: Graça Dias, 2013. Escala: 1/300
Sua origem setecentista é comprovada pela disposição de sua planta, na presença de janelas com arco abatido nas sacristias e no lavabo de lioz do século XVIII. Outro elemento primitivo é a janela com gelosia, que liga a capela-mor à sacristia direita. Os azulejos são do último quartel deste século, com características neoclássicas, apresenta também, elementos ecléticos, como os bulbos em estilo bizantino. Em 1974 a capela passou por reparos gerais e recuperação da cobertura. Como os proprietários das Usinas adquiriam grandes glebas de terras, correspondentes às áreas de vários engenhos, as construções que existiam nesses espaços, não foram preservadas. A capela não está protegida por tombamento e encontra-se em avançado estado de degradação.
2.4 MONUMENTOS RELIGIOSOS: HERANÇA CULTURAL DA SOCIEDADE