O anúncio da vitória de Américo Tomás deveria ser mais do que esperado, tendo em conta a enorme fraude que ia desde o recenseamento ao acto eleitoral, num regime de ditadura. No entanto, havia uma réstia de esperança naqueles que, no dia 8 de Junho, se dispuseram a votar, julgando que assim podiam modificar a situação política do país. Esta esperança era, provavelmente, alimentada pela mobilização e agitação popular que sacudiu a campanha de Delgado, com impressionantes manifestações de apoio e de resistência à repressão por parte dos populares que, por todo o país, acudiam às sessões de propaganda da candidatura. Mas, na realidade, admitir a possibilidade de vitória nas urnas era subestimar todos os aparelhos repressivos de que o Estado dispunha para condicionar e subverter todo o processo eleitoral.
No dia 9 de Junho, dia seguinte às eleições, o Secretariado do Comité Central do PCP realizou a sua primeira reunião pós-eleições e tomou a decisão de apelar a “uma grande jornada nacional contra o terrorismo fascista, pela libertação de todos os presos políticos e pelas liberdades democráticas”, recorrendo para tal “aos protestos mais variados – abaixo-assinados, concentrações, e manifestações pequenas e grandes, paralisações e à GREVE”145. Desta forma, o PCP pretendia incentivar e liderar as manifestações de protesto à fraude eleitoral, no quadro de uma proposta mais ampla de luta contra o fascismo, pela libertação dos presos políticos e pelas liberdades democráticas. O recurso à greve era apontado como uma das múltiplas formas de luta que se poderiam realizar, embora, sem dúvida, fosse a mais importante e a que teria mais repercussões. Contudo, o PCP não faz, naquele momento, um apelo directo à realização de uma greve geral como forma de protesto contra a fraude eleitoral.
As primeiras greves pós-eleições tiveram um carácter marcadamente popular e espontâneo, embora em alguns locais tivessem o apoio dos “sectores mais radicalizados do proletariado” e dos “sectores partidários mais combativos”146, que, ultrapassando as orientações do Comité Central do PCP, se juntaram aos populares e organizaram estas paralisações. O ponto alto desta primeira vaga de greves ocorreu no dia 12 de Junho, quando mais de 1200 trabalhadores da zona de Almada suspenderam o trabalho. No dia 14, ocorrem as primeiras greves no Barreiro, com paralisações na
Corticeira Industrial, que se prolongam até ao dia 16. Neste dia, o movimento grevista começou a
expandir-se para outras regiões do país, nomeadamente para o Porto, Ribatejo e Alentejo, onde,
145Secretariado do Comité Central do Partido Comunista Português, À classe operária! Ao povo de Portugal, 9 de Junho de 1958;
maiúsculas no original.
146DELGADO, Iva, PACHECO, Carlos e FARIA, Telmo (coords.), 1998b, Humberto Delgado, as eleições de 58, Lisboa, Editor
segundo o Avante!, se envolveram cerca de 10 mil trabalhadores147.
No Grande Porto, a greve dos pescadores de Matosinhos148 surpreendeu pela sua dimensão e duração, pois apenas terminou em finais de Junho, tendo envolvido os 5.000 pescadores inscritos na Capitania de Matosinhos, aos quais se associaram os da Afurada e de Vila do Conde, num total de cerca de 6.000 pescadores em greve. Inicialmente, a greve não teve uma motivação directamente política, mas sim económica. Os pescadores reivindicavam o preço idêntico do gasóleo para os arrastões e as traineiras e o aumento do preço do cabaz do peixe, mas rapidamente a greve se politizou.
O PCP tinha tradicionais dificuldades em entrar no meio piscatório, feito de comunidades coesas e fechadas, muito diferentes dos sectores operários e dos assalariados rurais que constituíam a base de apoio do partido. No entanto, os contactos dispersos do Comité Local do Porto permitiram aos funcionários clandestinos João Honrado, António Pinto Ferreira e Augusto Lindolfo entrar em contacto com alguns pescadores e, até mesmo, participarem numa reunião, realizada a 15 de Junho, junto do Castelo do Queijo, em que teriam estado mais de 300 pescadores e onde foi decidido avançar para a greve, que arrancou no dia seguinte149.
Os pescadores, organizados em piquetes de greve, deslocaram-se para junto do cais de embarque e impediram o acesso aos barcos, para que estes não pudessem sair para o mar. As famílias juntam-se aos grevistas e as mulheres e os filhos lançam-se para as estradas e para as linhas férreas que serviam o porto de Leixões, impedindo os camiões e os comboios de passar. Nesse mesmo dia, a Direcção da Organização Regional do Norte do PCP emitiu um manifesto com orientações para a organização e desenvolvimento de greves no Norte do país, apelando à constituição de Comités de Greve, à paralisação do trabalho em todas as empresas, à realização de manifestações e de desfiles de rua150
A greve dos pescadores provocou em consequência a paralisação da indústria conserveira de Matosinhos, pois as fábricas de conserva não receberam o peixe necessário à normal laboração. Desde o dia 17 que as fábricas conserveiras de Matosinhos, como a Unitas, Gargalo, a Bordalo e a
Garantia, se encontravam em greve, tendo os trabalhadores promovido uma manifestação
reclamando aumento dos salários e em protesto contra a burla eleitoral. Por conseguinte, também aqui o trabalho parou e os operários decidiram juntar-se à greve dos pescadores, organizando uma marcha sobre a cidade. Nesta marcha participaram sobretudo as operárias conserveiras, grande parte
147”Greves de demonstrações políticas”, Avante! VI Série, nº 257, 2ª quinzena de Junho de 1958, p. 1
148Cf: FERREIRA, Ana Sofia, 2011, <<As greves no Litoral Norte português no agitado verão de 1958>>, in VARELA, Raquel,
NORONHA, Ricardo e PEREIRA, Joana Dias (coord.), Greves e Conflitos Sociais em Portugal no Século XX, 1ª edição, Lisboa, Edições Colibri, p. 121 a 128
149Entrevista a João Honrado, Beja, 8 de Maio de 2011
150IAN/TT. PIDE/DGS, Procº. 1546/57 SR, Boletim Informativo das Actividades Comunistas, «O Último Movimento
delas mulheres, filhas ou familiares dos pescadores que tinham iniciado a greve no dia anterior. A GNR e a PIDE tentaram impedir a realização desta manifestação e prenderam algumas mulheres que participavam na marcha.
No dia 17, a PIDE tentou concentrar os pescadores numa praia da Afurada para os obrigar a embarcar, mas tal estratégia não resultou, porque o piquete de greve dirigiu-se para o local e impediu a concentração. A PIDE começou, então, a procurar os pescadores nas localidades piscatórias e prendeu todos aqueles que conseguiu encontrar. Entre a meia-noite e a meia-noite e meia passaram pela Avenida da Boavista 3 camionetas da G.N.R cheias de pescadores presos151. Esta acção policial alargou a indignação a outras comunidades piscatórias do distrito do Porto e muitos pescadores concentraram-se junto da Capitania da cidade para obrigarem a PIDE a libertar os presos. Perante a recusa da polícia decidiram continuar com a greve até que fossem libertados os companheiros.
Com o arrastamento da greve, a PIDE lançou todos os meios para a travar, pois sem peixe a indústria conserveira continuaria parada e era perigoso manter uma manifestação grevista nos arredores da cidade do Porto, onde os ânimos continuavam exaltados e a população inconformada com a fraude eleitoral. Assim, a 19 de Junho, a PIDE tenta forçar a saída das traineiras a partir da Póvoa de Varzim e procura resolver o abastecimento de peixe à indústria conserveira através da Afurada. Contudo, o estratagema deu, de novo, mau resultado, pois, quando a PIDE chegou a esta localidade piscatória, foi recebida à pedrada, o que deu origem a cenas de violência entre a polícia e os pescadores.
Todavia, partir do dia 20 de Junho, a greve começou a perder fulgor. A fome começava a rondar as casas dos pescadores que havia vários dias não iam ao mar. A PIDE, apercebendo-se disso, advertiu os comerciantes para não venderem fiado, proibiu os pescadores de sair para pescar nos seus pequenos barcos individuais e ameaçou-os com a perda das suas cédulas. Todas estas ameaças acabaram por surtir efeito e no dia 23 de Junho fizeram-se ao mar 16 traineiras. No dia seguinte, todos os pescadores voltavam ao serviço152.
Porém, o movimento grevista do Porto não se cingiu somente às greves dos pescadores de Matosinhos e da Afurada. Alguns dias depois, a 23 de Junho, isto é, quando a greve dos pescadores terminava, o movimento alastrou-se ao sector têxtil entrando em greve a Empresa Fabril do Norte, mais conhecida por Fábrica dos Carrinhos, na Senhora da Hora. Quando a notícia chegou à
EFACEC, uma grande empresa de material mecânico, das mais importantes da cintura industrial do
Porto, onde o PCP tinha influência considerável, começaram as movimentações para também
151IAN/TT. AOS/CO/PC – 51, pasta 5, “Actividades oposicionistas pré e pós eleitorais”, fl. 90
152PEREIRA, Pacheco, 2005, Álvaro Cunhal. Uma biografia política: o prisioneiro (1940-1960), Lisboa, Temas e
aderirem à greve. Pacheco Pereira refere que “são os patrões que convidam os operários para se reunirem na cantina e, ao toque da sirene, um grupo de operários percorreu a fábrica apelando à greve”153. Na realidade, o apoio de patrões à greve dos operários não aconteceu apenas na EFACEC, mas, também, em outras empresas do país, como é referido num manifesto da Comissão Política do Comité Central do PCP: “Estas acções da classe operária estão a ser acolhidas com simpatia pelos patrões e têm o apoio de toda a população, incluindo os comerciantes, havendo alguns que se solidarizaram com os grevistas e se mostraram dispostos a prestar-lhes ajuda”154. No dia 23 de Junho, eram cerca de 1.000 operários em greve – da Empresa Fabril do Norte, EFACEC e da
Marinhos. Os grevistas dirigem-se ainda à fábrica Leonesa para apelar à greve, mas quando lá
chegaram, esta encontrava-se cercada pelas forças da PSP e da GNR
No dia seguinte, a cidade festejava o S. João. Os trabalhadores da EFACEC pensavam voltar ao trabalho a 25. Contudo, o Governo mandou encerrar a fábrica para apurar responsabilidades sobre a paralisação, situação que se manteve durante um mês. José Teixeira Bonifácio, trabalhador na EFACEC na época refere: “A greve foi no dia 23 de Junho, com intenção de irmos para o S. João e no dia seguinte virmos trabalhar, mas a fábrica esteve encerrada até ao dia 22 de Julho (…). Durante esse mês alguns engenheiros da direcção organizaram-se e distribuíam algum dinheiro a alguns trabalhadores”. A PIDE trataria entretanto de iniciar a vaga repressiva e “começou a fazer prisões (…) e apareceu com a viuvinha numa tasca, no Monte da Mina, onde nos encontrávamos todos. [...] Durante o encerramento foram presos 13 colegas”155.
Estas greves nas principais fábricas da cintura industrial do Porto já não tinham motivos económicos mas eram uma forma de protesto contra a fraude eleitoral. O Partido Comunista, que tinha contactos e organização em várias destas fábricas, tentou enquadrar e organizar este movimento grevista orientando-o para uma forma de contestação ao regime.
O Governo procurou reprimir as greves que eclodiam por todo o país, utilizando a força e as prisões para tentar demover os grevistas e incitar os trabalhadores de empresas que ainda não tinham paralisado a continuar a trabalhar. O PCP afirmava que o número de presos tinha chegado aos milhares: “São já milhares os cidadãos portugueses presos pela PIDE [...]. As prisões abarrotam e não chegam pelo que a PIDE já recorreu à Penitenciária, à Câmara Municipal do Porto, etc. [...] As forças repressivas ocupam em força várias terras, provocam a população e cometem violências de toda a ordem, fazendo mesmo uso das armas de fogo por qualquer protesto e mesmo sem
153PEREIRA, Pacheco, 2005, Álvaro Cunhal. Uma biografia política: o prisioneiro (1940-1960), Lisboa, Temas e
Debates, vol. III, p. 659
154IAN/TT. PIDE/DGS - «As eleições foram falseadas!», A Comissão Política do CC do PCP, 18 de Junho de 1958,
procº. 1546/57 SR, 4º volume, fl. 238.
155UPP – Entrevista a José Teixeira Bonifácio, 21 de Abril de 2001 (E5). Ao referir-se à viuvinha, o entrevistado poderá
nenhum”156. Apesar do uso da força, o Governo tinha dificuldades em vencer o movimento e, no 22 de Junho, o Ministério do Interior foi obrigado a admitir, num comunicado publicado nos jornais, a existência de greves no Porto, Almada e Vila Franca de Xira:
“Assim, na sequência da agitação provocada a pretexto do acto eleitoral e sem que se formulassem reivindicações concretas de salários ou outras, verificaram-se recentemente nos concelhos de Almada e Vila Franca de Xira algumas tentativas de paralisação do trabalho em pequenas unidades industriais. O trabalho encontra-se apenas suspenso em algumas empresas que foram encerradas por ordem do Governo até ao apuramento das responsabilidades correspondentes aquelas tentativas. Também em Matosinhos um núcleo de pescadores interrompeu a sua actividade profissional, não a tendo ainda retomado”157.
Só a partir de 25 de Junho é que a repressão do movimento grevista surtiu algum efeito no Porto. Depois de várias prisões verificou-se uma diminuição do número de trabalhadores em greve, apesar de se verificarem ainda algumas greves de carácter esporádico.
A oposição portuense começava então a procurar novas formas de luta, ao mesmo tempo que prepara um movimento de solidariedade com todos os presos, no sentido de obter a sua libertação.
No PCP prevalecia a linha da solução pacífica, o que fez com que o partido só tardiamente decidisse realizar uma jornada de dimensão nacional, empurrado, sobretudo, pelo ímpeto popular. É o apelo a uma jornada nacional, pacífica, de luta e de protesto a realizar nos dias 1, 2 e 3 de Julho, em todo o país, que incluiria diversas formas de luta: manifestações, abaixo-assinados, concentrações, greves, uso de gravata preta boicote à compra da lotaria nacional e dos jornais, não utilização dos transportes públicos, não frequentar espectáculos e cinema, não anunciar na rádio.
A adesão a estas formas pacíficas de luta foi bastante significativa nas cidades do Porto e de Lisboa. No Sul, ocorreram, ainda, algumas greves importantes durante estes três dias de jornada pacífica, mas à medida que avançamos ao longo do mês de Julho, constatamos que as greves se vão tornando mais esporádicas. O esgotamento do movimento grevista tornava-se evidente, pois não fora possível, numa situação de grande revolta popular, unir os portugueses na luta pelo derrube do regime. O PCP era a única organização política capaz de liderar o movimento grevista. Porém, ao não querer desviar-se da linha da solução pacífica acabou por não ser capaz de conduzir o movimento e de apelar a uma greve nacional que paralisasse o país158. Não obstante, cerca de 60.000 trabalhadores terem estado em greve por motivos políticos, num acto de denúncia do autoritarismo do regime.
Estas incapacidades e constrangimentos aprofundavam nos sectores mais radicalizados das
156“Centenas de milhares de portugueses contra a burla eleitoral”, Avante!, VI Série, nº 260, número especial de Julho
de 1958, pág. 2
157“Comunicado do Ministério do Interior”, O Comércio do Porto, 22 de Junho de 1958, p. 1 e 8
158PEREIRA, Pacheco, 2005, Álvaro Cunhal. Uma biografia política: o prisioneiro (1940-1960), Lisboa, Temas e
massas a convicção de que se tornava indispensável recorrer a formas superiores de luta, designadamente, a acções violentas, manifestando uma certa desilusão por aquela que achavam ser a moderação do Partido Comunista159.