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essa é brava!”

Na Região estudada – Noroeste de Minas Gerais - o cultivo de feijão se divide em duas safras: a safra de inverno e a de verão. A safra de verão ocorre no período de outubro a abril e depende da distribuição das chuvas, comuns nesta época do ano. Já a safra de inverno ocorre no período de maio a setembro, quando as chuvas são escassas. Nesta última, portanto, o feijão é cultivado em áreas irrigadas e denomina- se comumente como safrinha ou pós-safra.

A irrigação, no Noroeste de Minas, para este tipo de lavoura, é comumente feita por meio de ‘pivô central’. Trata-se de um sistema de irrigação composto de uma tubulação metálica onde são instalados aspersores, em torres móveis e eqüidistantes, que recebem a água de um ponto central e se movimentam em torno deste eixo, com velocidade e volume de água controlados, de acordo com a necessidade da cultura (PIVÔ, 2005).

O processo inicia-se com o preparo adequado do solo, depois é feito o plantio, onde são realizados a semeadura e o tratamento das sementes com substância química ou biológica. Desta forma, faz-se o manejo a fim de destruir ou controlar o crescimento de plantas indesejáveis (plantas daninhas ou infestantes). A colheita ocorre normalmente após 100/110 dias do plantio. A outra etapa é denominada pós- colheita e envolve a secagem, o expurgo45 e o armazenamento dos grãos (WANDER;

RAMALHO; ANDRADE, 2005).

No Município de Unaí e no Noroeste Mineiro como um todo prevalecem as colheitas do tipo semi-mecanizada e mecanizada. No sistema de colheita semi-

mecanizado – objeto de investigação nesta pesquisa – o arranquio e o ajuntamento do

feijão são feitos manualmente, e a trilha, mecanicamente (SILVA; FONSECA; COBUCCI, 2005). O ajuntamento consiste, como o próprio termo supõe, no agrupamento do feijão arrancado. Este ajuntamento é feito em leiras ou pavios, conforme retratado na Figura 746, abaixo. É feito desta forma – em leiras – quando se

utiliza uma recolhedora-trilhadora, que é uma máquina tracionada por trator que passa sobre as leiras, recolhendo e trilhando as plantas já arrancadas pelos trabalhadores (WANDER; RAMALHO; ANDRADE., 2005).

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Operação que visa a eliminação de insetos (carunchos, por exemplo) que se encontram nos produtos armazenados. No expurgo são utilizados defensivos como os fumigantes, sendo a fosfina (fosfato de alumínio) o mais utilizado atualmente (WANDER; RAMALHO; ANDRADE., 2005).

46 Todas fotografias, utilizadas nesta tese, foram retiradas com permissão da Organização e dos

Figura 7 – Colheita de feijão: ajuntamento em leira ou pavio

Para a realização da colheita, são distribuídas as turmas de trabalho na área plantada. O número de turmas a serem enviadas para o local de colheita dependerá, obviamente, do tamanho desta área. Estas, por sua vez, são coordenadas e controladas por um líder e dois fiscais que têm como atribuições verificar/anotar: a presença de cada trabalhador, a quantidade de tarefas cumpridas (para isso o líder recebe uma planilha que é preenchida no campo e devolvida logo no retorno do grupo à cidade) e a qualidade do arranquio realizado por cada trabalhador.

Para verificar a qualidade do arranquio, o fiscal (Cf. Figura 8) caminha por entre os pavios ou leiras, já terminadas, e levanta o feijão com um cabo de vassoura, pois é necessário que o feijão esteja literalmente arrancado, solto do solo. Caso isto não ocorra, a recolhedora- trilhadora não conseguirá recolher Figura 8 – Ajuntamentos em pavio ou leira

e averiguação da qualidade do arranquio pelo fiscal

todo o feijão. Por isso, ele verifica e, se necessário, chama o trabalhador para refazer o trabalho. Este refazer nem sempre é aceito de bom grado, e como ressaltou um fiscal no campo: “[...] tem dia que dá até discussão, porque tem que fazer direito.”

Cada trabalhador ‘deve cumprir’ pelo menos uma tarefa, sendo que esta equivale a nove pavios completos. A tarefa é demarcada pelo líder colocando-se uma baliza47. Demarca-se o início e o final da tarefa.

Cada pavio é formado por seis linhas (de feijão) de cinqüenta e cinco metros de comprimento. Para fazer o ajuntamento, as duas linhas do meio são ‘fofadas’, conforme expressão utilizada pelos trabalhadores, sem serem retiradas/deslocadas do lugar. Em seguida, as duas linhas laterais à esquerda são literalmente arrancadas e deslocadas, jogadas em cima das que foram ‘fofadas’. Procede-se o mesmo com as linhas da direita, formando-se assim, um pavio (Cf. Figura 9).

47 Baliza refere-se a um ramo ou galho que demarca os limites da área que representam o início e o final

1º. P asso :

“F ofam ento” das duas linhas internas

P ro d ução de feijão “em lin h as”

2º. P asso :

A juntam ento das duas linhas laterais à esquerda com as linhas anteriorm ente ”fofadas”

3º. P asso :

A juntam ento das duas linhas laterais à direita com as linhas

anteriorm ente ”fofadas”, form ando o p avio 55 m etros

Figura 9 – Representação esquemática da formação de um pavio ou leira feita por arranquio e ajuntamento do feijão

Para a realização dessa atividade – arranquio e ajuntamento – os trabalhadores adotam uma postura com o dorso totalmente inclinado para baixo, para ter acesso à planta. Ao mesmo tempo, caminham sobre as linhas de feijão,

movimentando rapidamente mãos e braços para processar o arranquio. Permanecem nesta posição entre, aproximadamente, quatro e seis horas de trabalho.

Os aspectos mais específicos sobre a postura e sobre a jornada de trabalho serão detalhados posteriormente. De qualquer forma, já fica clara a exigência física elevada desta atividade, o que leva alguns trabalhadores a caracterizá-la como ‘cansativa, difícil, ruim, dura, inapropriada para o ser humano’ ou, como mencionada por um trabalhador e colocada como subtítulo desta Seção ‘essa é brava’.

Existem ainda alguns fatores que afetam o arranquio, podendo torná-lo mais difícil, pesado ou ‘mais bravo’, diria o trabalhador: o tipo de solo, a umidade do solo, a intensidade de ervas daninhas ou infestantes (o picão48, por exemplo) por entre o

feijão, assim como, o fato da planta estar mais verde (antes do ponto adequado para a colheita). Aspectos climáticos também contribuem para ampliar a exigência da tarefa, como a temperatura elevada. Estes fatores serão abordados, mais detalhadamente, nos próximos tópicos desta tese.

Nas seções seguintes buscou-se delinear mais especificamente as características do contexto produtivo investigado, por meio da descrição das três dimensões – condições de trabalho, organização do trabalho e relações socioprofissionais – que auxiliam na compreensão da relação existente entre trabalhador-atividade e, num sentido mais amplo, caracterizam acerca do objeto deste estudo.

48 Mais conhecido em outras regiões como carrapicho: espécie de subarbustos da família das

leguminosas, compostas de gramíneas, malváceas e tiliáceas, cujos pequenos frutos, que são vagens, se dividem em articulações, com pequenos espinhos ou pêlos, os quais aderem facilmente à roupa do homem e ao pêlo dos animais (NOVO Dicionário Aurélio, versão 5.0.4.0. [S.l.]: Positivo Informática, 200-).