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115 O exercício com a língua menor permite que os agentes desvendem uma coletividade desterritorializada, o marginal. Para isso, o relevante é encontrar uma expressão, que necessariamente aborde tal condição, mas sem a necessidade de tipologias estanques ou conceitos demasiadamente generealizadores. Autores deste período encontraram a sua terceira margem, a sua língua menor e a respectiva linguagem cabível no momento da passagem de um Brasil aberto para o mercado e fechado para expressar-se. Confuso identitariamente (entre nacionalismos e internacionalismos) e erotizado pelas novidades comportamentais e semióticas (a televisão em cores, as guitarras elétricas, os deuses do rock). Asimilando as consequências das conquistas tropicalistas, efusivo pelas novas possibilidades de emprego e em crescente processo de empobrecimento de sua população. Falar disso foi tratar de temas, referências e modos de expressão marginais, trabalhados por agentes desenraizados no campo, consequência das transformações enumeradas e da incompatibilidade destas com os antigos capitais econômicos e culturais.

Quanto à subsistência, isso fez com que boa parte dos agentes trabalhasse em empregos ligados à publicidade e ao jornalismo – casos de Leminski e Caio, respectivamente.. As máquinas de escritura dos agentes, por sua vez, forjaram-se no empenho para produzir como literatura essa situação de marginalidade, provocando um entrelaçamento desinredável entre escritura, habitus e capital simbólico. Suas linguagens trazem as marcas de desterritorialização e suas consequências imediatas – ou seja, os meios de subsistência e as inovações tecnológicas a eles ligadas –, sendo o cunho político a própria costura do movimento no campo e a utilização de diversos elementos pertinentes à constituição do habitus do agente. Podemos apontar o individualismo, tão caro a Caio e visível no isolamento do nome de Leminski no campo, como um dos traços principais da coletividade da literatura menor. Se Caio mostrava esse individualismo mais explicitamente marcado quando da querela com o grupo de autores presentes no livro

Histórias de um novo tempo, Leminski evidencia-o quando parte das publicações em

revista, produções coletivas, que tinham por base o ideal mallarmeano de ―desaparição elocutória do eu‖67 (MALLARME apud CAMPOS, 1977, p. 52), para publicações sistemáticas e exclusivas a partir de 1980 (por uma grande editora, a Brasiliense, a partir de 1983).

67 Haroldo de Campos cita Mallarmé para falar o que significavam publicações coletivas como a revista

116 O exercício menor dessa literatura é um caminho para a margem, para a marginalidade, um caminho de produções no campo que problematizam o status da grande língua, que a modifica, que a leva até o território da nova língua, a língua menor, de uma geração depreendida do direito de ser grande. Uma literatura que, ao produzir-se, remodela formas de viver e pensar o mundo entre as forças do jogo no campo, constituindo um bloco que constroi o seu próprio rumo. A resistência das publicações desses autores na imprensa nanica, por exemplo, dá-se em outro nível que não o embate direto contra os postulados do regime militar. É fazer falar sem ordenar, sem querer mesmo representar algo ou alguém, e assim fazer ―falar aqueles que não têm o direito, e devolver a eles seu valor de luta contra o poder‖ (DELEUZE, 1992, p. 56).

Os dois autores selecionados criaram uma linguagem adequada à situação da qual faziam parte e eram advindos. Os diversos capitais culturais são vislumbrados nas referências (epígrafes, astros de cinema, música popular), na temática (gêneros, marginalizados socialmente – drogados, alcoólatras e viajantes –, zen-budismo, astrologia, deuses pagãos de cultos afro-brasileiros) e no código linguístico de restrições de ordem vocabular, sintática e semântica (uma vez que buscavam, sobretudo, a acessibilidade e incorporaram formatos do jornal e da publicidade). Neste último caso, as construções do português urbano e a manipulação dos significados teriam que estar presentes devido à força do objeto. O slogan mistura-se ao poema, as celebridades dos tabloides pinicam a prosa. Era preciso encontrar uma forma para expressar uma produção voltada para a individualidade do discurso ficcional e poético e que, por esta característica, apontava para o social. O acento coloquial e cosmopolita das cartas, com diversas citações em inglês e francês, com um discurso rápido e rasteiro – no caso de Leminski, em versos68; no caso de Caio, em dramas complexos apresentados em parágrafos concisos, por exemplo – permite entrever, pelos sistemas de enunciados do arquivo, o agente enunciador e toda uma geração de escritores e contingências históricas. Permite tatear um discurso que, de tão personalizado e performativo, especifica-se na voz do enunciador e do respectivo destinatário, incorporando-se ao ambiente de transição política, de ampliação de possibilidades profissionais e poéticas, de ambições literárias e de sedimentação de um

habitus, comum a muitos agentes.

68 O assunto foi tratado – de modo superficial – em As cartas-poemas de Paulo Leminski: um poeta e seu

117 O arquivo é, ao mesmo tempo, o sistema que possibilita o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares, e o que faz com que as coisas ditas não se ―acumulem em uma massa amorfa ou em uma linearidade sem ruptura e desapareçam ao acaso de acidentes externos‖, mas que se agrupem em relações múltiplas, permanecendo ou não conforme regularidades específicas (FOUCAULT, 2005, p. 149). O arquivo é o que, a partir do enunciado-acontecimento, determina o sistema de sua enunciabilidade. É o que determina o modo de atualidade do enunciado-coisa. É o sistema de seu funcionamento. Arquivo distingue os discursos na multiplicidade e os especifica na sua própria duração. Entre o que fica e o que se esquece, existem somente ―multiplicidades raras, com pontos singulares, lugares vagos para aqueles que vêm, por um instante, ocupar a função de sujeitos, regularidades acumuláveis, repetíveis e que se conservam em si‖ (DELEUZE, 1988, p. 25). A partir deste ponto de vista, agentes como Leminski e Caio não se perdem no prazer da palavra, mesmo que vivam por ela. A palavra, por sinal, confunde- se com as coisas, cola-se ao agente e problematiza a sociedade que vivia aquelas mudanças e a consolidação das mesmas. Mas como as pessoas e as circunstâncias, a linguagem vive simultaneamente um contexto de fronteira real e imaginária, um equilíbrio precário, onde as referências passadas e o passo adiante estão em constate deslocamento. A passagem sempre esta próxima, para o outro lado ou para o desespero, em um mundo acuado e desbravador, aventureiro e oprimido.