Caraterização sociodemográfica
Nesta parte do estudo, começamos por fazer uma caraterização sociodemográfica de cada um dos indivíduos entrevistados, de modo a facilitar a compreensão das histórias de vida e trajetórias familiares ao longo do ciclo de vida.
O Sr. Américo tem atualmente 77 anos, reside em meio urbano, embora tenha nascido numa freguesia rural do concelho de Ansião. Os seus pais eram comerciantes e, desde cedo, começou a ganhar o gosto pelo mundo dos negócios, tendo sido grande parte da sua vida um empresário de sucesso. Agora, já reformado, é viúvo, tem dois filhos e cinco netos. Ele apresenta uma boa relação com a família e nos tempos livres gosta de viajar e cuidar do corpo.
A Sra. Alice tem atualmente 70 anos, reside em meio urbano, embora tenha nascido numa freguesia do concelho de Ansião. O seu pai era agricultor e a sua mãe era doméstica. Ela, desde cedo, começou a trabalhar e, logo após deixar a escola, foi servir para casa de uma família em Leiria. Atualmente está reformada, vive com o seu marido, tem um filho adotivo e dois netos. Refere ter uma ótima relação com os seus familiares e nos tempos livres gosta de cuidar da sua autoestima e das suas flores.
A Sra. Zilete tem atualmente 77 anos, nasceu e reside em meio rural, numa freguesia do concelho de Ansião, embora durante alguns anos tenha emigrado com a sua família para Moçambique, tendo regressado após a descolonização, com a nacionalização dos bens dos Portugueses. Os seus pais eram comerciantes, e ela desenvolveu o gosto pela pintura muito cedo, mas só depois de regressar a Portugal a usou enquanto profissão. Agora que se encontra reformada, ela vive com o seu marido, tem dois filhos e uma neta. Ela tem uma boa relação com a família e nos tempos livres cuida da sua estufa e pratica Yoga.
O Sr. António tem atualmente 77 anos, nasceu e reside em meio rural, numa freguesia do concelho de Ansião. O seu pai era chefe dos cantoneiros e a sua mãe doméstica. Na sua juventude, emigrou para Angola, regressou já casado movido pelo desejo de ser pai porque a sua esposa não conseguia engravidar devido ao clima. Já em Portugal, foi pai de uma menina. Agora, já reformado, vive com a esposa, e tem dois netos. Ele mantém uma boa
38 relação familiar e, nos seus tempos de lazer, cuida de uma pequena horta, apoia na educação dos netos e participa na organização das festas da comunidade local.
Trajetórias familiares na Infância
Na infância, as famílias dos sujeitos entrevistados eram do tipo nuclear, sendo que em três delas era composta por cinco elementos, nomeadamente pai, mãe e três irmãos. Uma outra era composta por sete elementos, pai, mãe e cinco filhos.
A infância destes sujeitos foi caraterizada pela dureza, fruto da conturbada época em que foram educados, mas onde parecem ter sido transmitidos valores essenciais para a vida. Como nos refere a Sra. Alice “Era uma vida muito difícil naquela altura, contava a minha mãe porque, como éramos pequeninos, nós não nos apercebíamos, mas mais tarde começámos a perceber que era uma vida difícil, que os meus pais faziam muito sacrifício para nos poder criar, mas graças a deus criaram-nos sem faltar nada consoante as possibilidades deles”. Contudo, num dos casos, o sujeito identifica a sua infância como uma época feliz. Verifica-se que este sujeito passou parte da sua infância em Moçambique, o que nos remete para uma realidade bem diferente da vivenciada pelos outros sujeitos que a passaram em Portugal. Tal como nos relata a Sra. Zilete “A minha infância foi muito feliz, foi muito rica… o meu pai é o meu símbolo, o meu ídolo… cresci a vê-lo construir, desde que me lembro de ser gente que o meu pai teve de ir para o interior de África onde não havia casas e ele construiu uma casa…”.
As realidades vivenciadas pelos emigrantes de Angola e Moçambique retratam um mundo fora do comum, um capital social e cultural diferente “Apesar de subsistir pontualmente alguma mágoa ou ressentimento, … o que os diferencia é uma identidade forjada numa “dupla diáspora”, primeiro para fora de Portugal, depois para fora de Angola ou Moçambique coloniais, e as suas vivências africanas... A maioria continua com saudades de África, sendo que o significante África pode revestir-se de variados (e por vezes contrastantes) significados – o espaço, o clima, a paisagem, o exótico, a abundância, o nível de vida, o prestígio social, o poder, a infância e a juventude, as sociabilidades, o convívio multirracial, etc. em função das experiências de vida individuais. Porém, no campo das memórias coletivas e das emoções partilhadas, África é, invariavelmente, o paraíso perdido.” (Castelo, 2007:382).
39 A infância surge como uma etapa fundamental para o desenvolvimento do Envelhecimento ativo. Sendo esta fase por excelência uma etapa de aprendizagem e adaptação à vida em sociedade é aqui que o indivíduo se relaciona com a família e com o mundo. De acordo com Ribeiro & Paúl (2011), para alcançar o envelhecimento ativo, o indivíduo deve, então, promover um estilo de vida saudável ao longo de todas as suas etapas de vida. Nesta perspetiva, as famílias desempenham assim um papel fundamental para o alcance de um Envelhecimento ativo.
No que diz respeito à profissão dos progenitores, dois dos sujeitos referem que os seus pais eram comerciantes. Noutro caso, o progenitor era cantoneiro e noutro agricultor. No que diz respeito às mulheres, vemos que duas delas eram domésticas e que asseguram as lides, tarefas e vestuário. Conforme nos refere o Sr. António “O meu pai era chefe dos cantoneiros e a minha mãe era aquilo que hoje dizemos doméstica. O meu pai assegurava o sustento da casa, a minha mãe tinha a tarefa de tratar da roupa, da comida, incentivava-nos a ir à escola e a praticar a religião.”.
Segundo os Censos de 1940, estas profissões surgem como típicas da época:
Além dos trabalhadores agrícolas não discriminados e dos agricultores, os criados, os comerciantes, os pescadores, os oficiais de sapataria, os pedreiros, os carpinteiros, os operários e trabalhadores não especializados, os serradores de madeira, os manipuladores de vidro e de vidraça, os caixeiros de balcão e as costureiras não discriminadas constituíam, por ordem decrescente, as profissões mais numerosas do distrito (Leiria) (Censos, 1940: 14).
Segundo Wall (1995), nas décadas de 40 e 50, na família, o pai assumia o papel de chefe de família e a esposa o membro subordinado. Por outro lado, a visão sobre o papel da mulher, muito diferente dos dias atuais, estava confinado às lides domésticas, e a toda a dinâmica que constitui o lar, com um papel educador, com o seu campo muito bem delimitado ao lar e à família.
Salazar referia que:
[…] o trabalho da mulher fora de casa desagrega este, separa os membros da família, torna-os um pouco estranhos uns aos outros. Desaparece a vida em comum, sofre a obra educativa das crianças, diminui o número destas; e com o mau ou impossível funcionamento da economia domestica, no arranque da casa, no preparo da alimentação, no vestuário, verifica-se uma perda
40 importante, raro materialmente recompensado pelo salário recebido….” (Neves & Calado, 2001 in Discursos, I, 1935: 308).
Existe uma diferença generalizada nos significados atribuídos aos progenitores: se aos homens se destaca a rigidez, as mulheres mais ligadas à bonança e à prática do culto da religião, o que julgamos serem motivados pelo contexto cultural da época fortemente marcada pela prática religiosa. Estes argumentos são notórios na entrevista do Sr. Américo (“…O meu pai era um pouco ríspido mas a minha mãe era muito serena, trabalhadora e de poucos assuntos”) e na Sra. Alice (“…A minha mãe era doméstica, era muito carinhosa, boa dona de casa, uma mãe muito dedicada.”).
Em 1932, no discurso de Oliveira Salazar “…a mulher casada, como o homem casado, é uma coluna da família, base indispensável de uma obra de reconstrução moral” com a ”…sua função de mãe, de educadora dos seus filhos, não era inferior à do homem”. Segundo ele, devia-se deixar “o homem a lutar com a vida no exterior, na rua… E a mulher a defendê-la, no interior da casa”. Verifica-se esta premissa no relato do Sr. António: “O meu pai assegurava o sustento da casa, a minha mãe tinha a tarefa de tratar da roupa, da comida, incentivava-nos a ir à escola e a praticar a religião.”.
O papel da família no contexto do Estado Novo é valorizado. Fernandes conclui que "claramente se assume o papel da instituição familiar como o da primeira instituição social que naturalmente é responsável pela segurança na sociedade" (Fernandes, 1997:122).
Três dos sujeitos eram oriundos de famílias tradicionalmente rurais, com a mulher vinculada às lides domésticas, também muito direcionadas para a prática da religião, criando e educando os seus filhos nesse sentido.
Um dos sujeitos refere que a profissão dos pais era de comerciantes, realidade fortemente influenciada por estarem também a viver em Moçambique (Sra. Zilete). Através da análise do estudo realizado por Cláudia Castelo (2010), verifica-se que era umas das profissões mais significativas em pessoas emigradas para as ex-colónias. Como a autora refere “… no destino, as pessoas iam sobretudo dedicar-se ao comércio, à administração pública, aos serviços.” (Cláudia Castelo, 2010:2).
Ao analisarmos a escolaridade, verificamos que existia uma grande preocupação dos progenitores em que os filhos aprendessem uma profissão. Todos os sujeitos foram à escola, realizando a escolaridade primária, vulgarmente dita 4.ª Classe, que, para a época, já era um grau académico considerável. Por outro lado, essa preocupação revela a mentalidade das famílias em assegurar uma educação e o contacto com o conhecimento para que os seus
41 filhos pudessem ter uma vida melhor. Esta realidade, ainda que em meio rural, demonstra uma clara evolução das famílias para que a realidade dos filhos fosse diferente das suas, ou seja, havia a consciência por parte dos progenitores de promover o desenvolvimento intelectual dos filhos. Como nos menciona a Sra. Alice, “Os meus pais, a respeito da escola, todos os filhos foram à escola e depois todos os filhos aprenderam uma profissão. Lá isso os meus pais preocuparam-se bastante em dar uma profissão aos filhos: aos rapazes, mecânicos; e às raparigas, eu, por exemplo, aprendi a costureira e a bordar, fiz um curso…”.
Contudo, verifica-se que um dos sujeitos se encontrava em idade escolar a habitar no interior de Moçambique e que, apesar de ter feita a escolaridade primária em Portugal, não lhe foi permitido prosseguir com os seus estudos, tal como foi permitido aos seus irmãos. Aqui destaca-se não o desenvolvimento que já existia à época nas colónias, mas também à diferença existente entre homens e mulheres, como se verifica na situação da Sra. Zilete “[…] fiz a 4.ª classe em Portugal, depois não segui por ser menina, manias da época, e como fomos viver para Moçambique. A única coisa que me faltou foi que eu estava no interior e não fui mandada estudar para a cidade como os meus irmãos, porque era menina”.
Ao consultarmos a reforma do código civil, aprovada pelo DL n.º 496/77, de 25.11, verificamos que foram abolidas as disposições discriminatórias do Direito da Família. Desta forma, a mulher deixa de ter estatuto de dependência para ter estatuto de igualdade no seio da família e desaparece a figura do “chefe de família, o governo doméstico deixa de pertencer, por direito próprio à mulher.”.
Os sujeitos destacam uma relação familiar saudável e agradável, com valores católicos, apesar da vida familiar simples. Este aspeto católico remete-nos para a ideia de que, apesar das dificuldades existentes, tudo ia passar, pois a união superava os aspetos menos positivos da época, encorajados pela fé. Como nos relata o Sr. António, “Houve sempre muita união e harmonia no lar. Havia muito diálogo e partilha. Éramos todos religiosos praticantes.”. A Sra. Zilete, por seu lado, refere que “Era uma relação muito boa, havia harmonia e cooperação.” No mesmo sentido, o Sr. Américo também refere uma boa relação, “A relação familiar foi sempre muito boa. Havia uma união e cooperação entre todos nós. Éramos católicos praticantes ao Domingo íamos na carroça à missa, todos felizes”.
Atendendo a Ribeiro & Paúl (2011), a família, o grupo de pares, o clima social em que as relações se desenvolvem, permitem que os indivíduos sejam mais saudáveis, com um ótimo funcionamento cognitivo, mais estáveis emocionalmente e mais motivados. Assim,
42 verifica-se a existência de participação social e a segurança, enquanto pilares fundamentais do Envelhecimento ativo.
Em análise geral, todos os sujeitos oriundos de famílias nucleares, as quais lhes proporcionaram o acesso à escolaridade, realizaram a 4.ª Classe.
Através de Irene Pimentel (2001) e do retrato que fez sobre a mulher no Estado Novo, podemos considerar que, apesar da Constituição de 1933 estabelecer o princípio da igualdade, na prática a lei não era a mesma para homens e mulheres. As escolas seguiam estes valores (a mulher perfeita ficava em casa a manter a ordem e o anseio do lar), as meninas eram educadas para as alegrias do casamento e desincentivadas de seguir o ensino secundário.
Ainda na fase da Infância, podemos destacar a boa relação familiar existente, ainda que com regras rígidas. Mais tarde, os entrevistados reconheceram-nas importantes para o seu desenvolvimento enquanto pessoas. A influência cultural da época mostra-nos famílias em que o patriarca assume um papel de excelente (sustento da casa, rigidez, imposição de regras). Por outro lado, a mulher, apesar de estar mais direcionada para as lides domésticas, tinha um papel preponderante no bem-estar e na educação dos seus descendentes.
Segundo Amaro (2006), é na infância que as crianças aprendem a comportar-se, o que lhes é permitido e proibido, reconhecem os papéis sociais que cada elemento da família tem. A família não é a única instituição na nossa sociedade, mas é a primeira e a que tem maior caráter de socialização, em que a aprendizagem se realiza através da experiência da vida familiar. Nesta ótica, arriscamos dizer que a família tem um especial papel na transmissão dos valores culturais e sociais do meio onde se encontra, não podendo ser vista como um conjunto de indivíduos isolados, mas como uma rede complexa.
O facto destes indivíduos todos terem frequentado a escola permitiu-lhes a alfabetização, entendida como sendo literária, “não é um simples domínio psicológico e mecânico de técnicas de ler e escrever, mas é entender conscientemente o que se lê e escrever o que se entende” (Poel, 1981:71).
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O papel da Família na Juventude
Três dos sujeitos referem ter tido uma infância feliz, mas logo associam esta etapa da vida à real entrada no mundo do trabalho, que foi iniciada quando ainda eram relativamente jovens, logo após a saída da escola. Este facto reflete aqui as reais condições e as dificuldade que alguns espelharam na infância. Como refere o Sr. Américo: “A juventude foi boa. Apesar de mal sair da escola e começar logo a trabalhar, cedo tive contacto com a realidade que mais tarde iria dar sentido à minha profissão.”.
Noutro caso, embora a juventude tenha sido feliz, destaca-se a diferença de género, a falta de liberdade e o controlo que os progenitores exerciam sobre as suas filhas, fortemente marcada pela cultura e pelas mentalidades. Como nos reporta a Sra. Alice, “A minha juventude foi muito feliz, contudo atribulada porque o meu pai era bastante controlador. Não queria que ninguém se aproxima-se das filhas….”.
Noutra situação, a sujeita refere uma juventude sem grandes divertimentos, mas ainda assim, nos raros momentos lúdicos da época era acompanhava pela sua progenitora. A mesma encontrava-se no interior de Moçambique e refere com tristeza que, pelo facto de ser menina, não continuou a estudar. Como nos menciona a Sra. Zilete, “…Só ia à matiné acompanhada da mãe. Isso foi terrível é como te digo podia ser limitadíssima. Os meus irmãos estudaram e eu não.”
No que diz respeito à entrada no mundo laboral, temos diferentes constatações, pois a realidade dos sujeitos que viviam em Portugal é claramente diferente da vivenciada por um dos sujeitos, a habitar em Moçambique. Enquanto os primeiros saíram da escola e cedo apreenderam uma profissão e nos momentos livres auxiliavam os seus progenitores nas lides do campo, a segunda refere que não teve muito contato com o mundo do trabalho nesta etapa da vida (ela refere inclusivamente que até foi bastante protegida nesse sentido). É notório que a aprendizagem da profissão foi um meio alternativo para alcançar uma vida melhor e, embora não tenha sido referenciado pelos sujeitos, sabemos que na época servia também para ajudar o próprio sustento da família. Como nos refere o Sr. Américo, “… normalmente ajudava o meu pai no quintal, mas, com os meus 13, 14 anos ia com a minha mãe para a praça vender sardinha.”. E o Sr. António afina pelo mesmo diapasão:
Comecei logo a trabalhar com 13 anos mais ou menos. Assim que saí da escola, fui logo aprender uma profissão. O meu pai tinha um amigo mecânico e, como para a época era uma profissão em que se recebia razoavelmente, fui aprender e por ali fiquei naquela oficina vários anos. Eu queria
44 muito aprender uma profissão e eles não quiseram cortar-me as pernas. Apesar dos recursos serem fracos naquela altura aprender uma profissão foi o que me podiam dar de melhor. Escolhi ir para mecânico porque para estudar não tinha dinheiro nem grande inclinação.
Por sua vez, a Sra. Zilete refere: “Para ser sincera, não trabalhei muito na juventude, a minha mãe poupou-me bastante. Fazia os meus bordados e dava uma ajuda aos meus pais no comércio mas coisa pouca.”.
Noutra situação ainda, um dos sujeitos refere que após a saída da escola foi para casa de alguém mais abastado na época, como moça de servir, ou seja, as crianças começavam desde muito cedo a assumir as tarefas domésticas, a gestão e organização de toda a dinâmica das casas para onde iam servir, indo à praça, fazendo as compras, confecionando as refeições, cuidando dos filhos, entre outras tarefas. Tal como nos revela a Sra. Alice: “Mal deixei a escola fui servir para uma casa de um engenheiro em Leiria. Tratava de tudo o que era necessário ao dia a dia da casa e da filha deles”.
Assim, tornaram-se indivíduos que podiam participar ativamente na vida cultural, social e política do seu país. Se tivermos em conta a definição da OMS (2002), verificamos que o Envelhecimento ativo é um processo de otimização de oportunidades para a saúde, participação e segurança para melhorar a qualidade de vida das pessoas que envelhecem. Na lógica de pensamento da OMS (2002), o Envelhecimento ativo não depende apenas dos indivíduos, mas também das famílias e das próprias nações.
Nas alterações familiares mais significativas vivenciadas na juventude, o traço comum é sem dúvida a emigração para as colónias. Em todos os sujeitos, esta foi uma realidade ou vivenciada pelos próprios ou sentida nas suas famílias. A procura de uma vida melhor sem dúvida que é um traço comum à grande maioria dos Portugueses da época, como podemos comprovar com a realidade dos nossos sujeitos. Como nos relata a Sra. Alice, “Os meus irmãos foram para África primeiro, e depois a minha irmã. Fiquei apenas eu e o meu irmão mais novo com os meus pais...”.
Segundo Cláudia Castelo (2010), após a sua investigação, foi possível traçar um perfil dos emigrantes portugueses para as colónias:
“…as pessoas que emigravam para Angola e Moçambique eram mais escolarizadas que a média dos portugueses […] pessoas muito diversificadas em termos escolares, pois estavam representados analfabetos, pessoas que só sabiam ler, pessoas que já tinham o ensino secundário ou liceal e também pessoas com o ensino superior.”
45 Também o Sr. Américo nos refere o marco da emigração na sua família, “…O meu irmão mais velho foi aprender a serralheiro e depois rumou à África do Sul…”.
Num dos sujeitos verifica-se também a diferença de género, no que diz respeito à igualdade de oportunidades, isto é, às raparigas não lhes era dado a possibilidade de prosseguirem os estudos, existindo alguma discriminação nesse sentido. Refere a Sra. Zilete que, mesmo vivendo no interior de Moçambique, aos irmãos foi-lhes dada essa possibilidade e a ela não: “… E nesta fase os meus irmãos estavam fora, tinham sido enviados para a cidade para estudar.”.