A terceira tipologia que é usada nos estudos medievos acerca dos universais é o conceptualismo. Diferentemente das duas tipologias anteriores, o conceptualismo não apresenta matizações e refere-se a um único ponto de vista teórico acerca da ‘querela dos universais’, a concepção desenvolvida por Pedro Abelardo.
Um primeiro aspecto que nos chama a atenção nessa tipologia é que ela se apresenta como uma corrente alternativa, mais moderada, frente às tipologias anteriores acerca das soluções da ‘querela dos universais’. Portanto, esta corrente seria uma mescla de aspectos encontrados em cada uma das tipologias acima citadas.
O conceptualismo apresenta-se como uma posição que defende os universais como sendo existentes apenas como conceitos universais em nossa mente, ou seja, eles existem somente enquanto ideias abstratas. Ele, o conceptualismo, ou conceitualismo, não coloca os universais como algo existente na realidade (in re) ou como simples nomes (flactus vocis) para designar entidades concretas. Aqui, os universais seriam conceitos gerais presentes na mente humana usados para designar algo na natureza.
Na visão conceptualista de Abelardo, na medida que ele considera o universal como algo presente nos termos, ou nas palavras, esse elemento que as constitui necessitaria de uma abstração. Essa teoria defende que o intelecto seria algo que desenvolve um conceito particular, mas que necessita da natureza compartilhada dos “singulares” para que esta ideia seja concatenada pelo juízo. A esse respeito assevera Saranyana:
[Abelardo] Via que os universais, como a palavra “homem”, não constituem um conceito universal por serem predicados de muitos, mas por serem validamente predicados de muitas coisas, porque existe algo de comum entre elas: uma conveniência comum, “uma causa comum”, que Abelardo denominou “estado”. “Chamo de
estado de homem – escreveu – o próprio ser de homem, que não é uma coisa u realidade, e do qual dissemos também ser a causa comum da imposição do nome a cada um, por convirem entre si”. Abelardo compreendeu que ra preciso inverter o problema e formulá- lo em primeiro lugar a partir de uma perspectiva lógica: é universal algo que se diz de muitos (neste ponto Roscelin tinha razão), mas, de modo que tal predicação não seja totalmente arbitrária, pois o universal há de ter algum fundamento na própria realidade das coisas: certas coisas são chamadas ou denominadas do mesmo modo por terem um “estado” comum. Abelardo parece ter chegado muito perto da definição de “universal” que se tornaria clássica na manualística posterior: “unum in multis et de multis”. Viu com clareza o de multis; mas não encontrou um fundamento metafísico sério para o in multis. (SARANYANA, 2006, p. 187)
Efetivamente Saranyana nos alerta para o fato de que Abelardo usufruiu de aspectos relacionados tanto ao realismo quanto ao nominalismo. Entretanto, a maneira com a qual ele coaduna suas estruturas não permite um alinhamento nem com o nominalismo, nem com o realismo. É nesse sentido que sua postura se torna idiossincrática. Para o comentador, por exemplo, na visão abelardiana:
Com efeito, a predicação lógica válida é possível, porque certas coisas se constituem ou se encontram num estado determinado, que permite que se diga delas uma mesma palavra. O fundamento da
universalidade dos nomes é o status ou condição das coisas. Assim, por exemplo, “homem” não é nada; “ser um homem” é algo concreto, uma realidade, um estado, é ter uma determinada condição. Dois ou mais homens convêm em que são homens, porque todos eles têm a condição de homens. Que conteúdo têm esses universais no pensamento? Não será, por acaso, que um universal não passa de uma imagem cofusa que o pensamento extraiu de uma pluralidade de indivíduos semelhantes, e que, portanto, estão no mesmo estado? Abelardo parece aderir a esta forma de encarar o universal. (SARANYANA, 2006, p. 187)
O sistema abelardiano, portanto, diante do que foi exposto acima, postula que os únicos conhecimentos precisos que se tem são os que versam acerca dos objetos reais, ou seja, eles são conhecimentos de seres particulares. São esses conhecimentos os que fazem parte da inteligência, pois quando pensamos em geral, mediante o uso de conceitos universais, nos movemos de forma incerta, portanto, somente podemos produzir opiniões. É nesse sentido que Abelardo extrai a máxima de que do universal somente existe opinião, enquanto dos particulares, ou singulares, existe ciência.
De acordo com Saranyana:
A solução de Abelardo era lógica: não encarava ainda, apesar de seu esforço, porquê de uma natureza poder ser predicada de muitas coisas. Não determinava qual o fundamento que a predicação universal tem nas coisas. Limitou-se a constatar que o conceito objetivo universal se encontrava realizado numa pluralidade de coisas, às quais é comum; e considerou que tal universal entitativo é somente uma criação da mente, como um artifício ou obra da pura razão. (SARANYANA, 2006, p. 188)
O sistema abelardiano, portanto, responde da seguinte maneira às três perguntas de Porfírio em seu comentário a Aristóteles: os universais só existem no entendimento, por si só, mas significam coisas reais; enquanto nomes os universais são corpóreos, mas a sua aptidão para significar a pluralidade de seres semelhantes é algo incorpóreo, uma vez que se os considerem do ponto de vista do seu modo de significar; os universais existem nas coisas sensíveis, nos indivíduos, como formas dos corpos, mas enquanto designam algo pela abstração, eles estão para além do sensível. A isso Abelardo ainda acrescenta: os universais, enquanto nomes, deixam de existir se não existirem os indivíduos concretos que são seus correspondentes, haja vista o fato de que não mais existiriam os indivíduos a designar, mas, enquanto
significados, os universais continuariam a existir pois sempre poderíamos afirmar ‘x não existe’ (SARANYANA, 2006, p. 189).
Apesar de sua originalidade, o posicionamento de Abelardo ainda não dá conta de estabelecer o vínculo entre a realidade e o pensamento. Aqui os universais ainda se prendem ao âmbito do pensamento.
Uma vez entendidas as tipologias relativas à ‘querela dos universais’, e tendo em vista que nosso escopo é compreender o teor da crítica nominalista ockhamiana ao realismo, o próximo passo a ser dado em nossa empresa é a contextualização e o entendimento do sistema lógico ockhamiano. Tal tarefa será desenvolvida em nosso próximo capítulo dessa dissertação.