Segundo Pedro Demo (1990), a realidade histórico-social e, por assim observar, os Discursos que seus personagens produzem a partir dela constituem-se de condições Objetivas e Subjetivas. Ou melhor, há um palco estruturado com o qual os sujeitos sociais se deparam e que existe independentemente deles; porém, na mesma medida, há inúmeras possibilidades de intervenção desses sujeitos nessa estrutura – intervenção entendida não apenas como ação concreta, mas como interpretação e formulação discursiva.
Por isso, mais do que apenas as informações sobre o lugar onde se ouvem essas falas, importa saber quem são os personagens dessa história. É o que procuramos fazer sucintamente a seguir, sem tentar dar conta, evidentemente, de toda a complexidade presente na caminhada particular de cada um, mas buscando materializar aspectos fundadores da sua condição histórica no presente.
1.2.1.1 Tarso de Castro e o caso Clodoaldo Teixeira
O jornalista em questão também é uma personagem importante no desenvolvimento de O Nacional e do Jornalismo, de modo geral, nesta região do estado. Isso porque, apesar de ser reconhecido nacionalmente por ter participado de um dos episódios mais significativos do Jornalismo brasileiro, em O Pasquim, como mencionamos anteriormente, foi no ON que começou sua carreira. Era o início da década de 1950 e Tarso tinha apenas 12 anos de idade. Bertol (2001, p.47) relata que, tão logo ele começou a trabalhar, já revelou a sua “vocação de cronista, de jornalista crítico e polêmico, perceptivo e atento ao que se passava ao redor”.
A autora lembra que, em 28 de dezembro de 1959, por exemplo, a coluna assinada por Tarso, com o pseudônimo TeDêCe, chamou atenção. Em algumas linhas, o recém-jornalista faz uma crítica ao bispo dom Cláudio Colling, considerado pela comunidade o “dono” da cidade. “O estilo compassivo e, ao mesmo tempo, polêmico do texto era exatamente o mesmo, talvez um pouco mais contido, do que aquele que se passaria a encontrar no final da década de 1960, início da de 1970, no semanário o Pasquim” (BERTOL, 2001, p.48).
Nos anos que se seguiram, mesmo depois de ter saído de Passo Fundo para morar na capital, Tarso continuaria abastecendo e colaborando, editorialmente, com O Nacional. Fazia contatos, entrevistas com políticos e intelectuais e, quando algo grave acontecia na cidade (tragédias ou disputas políticas), retornava para fazer a cobertura; era um dos responsáveis pelo elo entre o jornal de Passo Fundo e o Jornalismo feito nas capitais, atualizando e reciclando a sua produção.
Nessas idas e vindas, além da faceta de editor, já nacionalmente conhecida, no ON Tarso também fazia as vezes de repórter. Numa dessas ocasiões realizou a cobertura completa de um dos episódios policiais mais polêmicos ocorridos na cidade nos últimos anos: o caso Clodoaldo Teixeira.
A história se referia a um motociclista de 17 anos que foi morto com tiros nas costas, em 5 de fevereiro de 1979, pelo cabo da Brigada Militar José Valmor da Silva. O motivo que levou ao incidente tem três versões, apresentadas pelos jornais locais (ON, DM) e publicações subsequentes sobre o episódio, como o livro Revolta dos motoqueiros, de Leandro Dóro (2007). Uma delas seria a de que Clodoaldo e um
amigo estariam dirigindo suas motocicletas em alta velocidade ao redor de uma praça, no centro da cidade de Passo Fundo, quando quase atropelaram uma mulher e uma criança. A outra versão seria que, dirigindo sua moto, o rapaz teria passado, acidentalmente, sobre o pé do brigadiano e, com receio de ser abordado, teria investido contra a patrulha e fugido. A terceira e última versão, divulgada pelo próprio ON, é que Clodoaldo dirigia sua moto sem carteira de motorista, pois era menor de idade, e assustara-se ao se deparar com uma blitz da Brigada Militar, fugindo e provocando sua perseguição. Além disso, nos meses que se seguiram, mais dois motociclistas foram mortos quando protestavam pela perda do companheiro.
1.2.1.2 Jacques Gosch e o caso Adriano da Silva
Jacques10 fez vestibular em 1996 e ingressou na primeira turma do curso de Jornalismo da Faculdade de Artes e Comunicação da Universidade de Passo Fundo. Antes disso, era conhecido na cidade pela presença constante nas atividades promovidas pelo movimento estudantil e, principalmente, pela militância declarada nos partidos de esquerda que mantinham diretório na região.
Começou a atuar na Imprensa passo-fundense em 1999, ao ser contratado pela Rádio Uirapuru AM, onde trabalhou como repórter da editoria de “geral” durante alguns poucos meses. Nessa ocasião pôde acompanhar o trabalho de Acássio Silva, renomado repórter policial da cidade, que trabalha na emissora desde a década de 1970. Deixou a rádio no mesmo ano e ficou afastado dos veículos de comunicação locais.
Em 2003 foi convidado a integrar a equipe de redação de O Nacional e, no ano seguinte (2004), iniciou-se na editoria de polícia do jornal, sendo reconhecido pela comunidade passo-fundense pelo trabalho realizado (segundo ata da Câmara de Vereadores de 19 de janeiro de 2006). Desde aquela época, Jacques tem atuado na mesma área, hoje trabalhando junto à equipe da Rádio Planalto AM11,com
10 As informações aqui registradas foram obtidas por informação direta, uma vez que o pesquisador
envolvido no presente estudo foi colega de faculdade do jornalista em questão, depois professor e, quase dez anos mais tarde, banca de avaliação do seu trabalho de conclusão, em 2007.
algumas participações na editoria de esportes, principalmente por ocasião dos jogos pelo campeonato estadual (2ª divisão) realizados na cidade.
Entre 2004 e 2006, como repórter, Gosch presenciou e protagonizou, junto com seus colegas de redação, duas transformações significativas no Jornalismo passo-fundense: a mudança editorial e gráfica do jornal O Nacional, comandada por Fernando de Castro, sobrinho de Tarso de Castro, e a cobertura do caso Adriano da Silva, que, segundo Gosh (2007), resgatou a prática do Jornalismo investigativo no cenário do Jornalismo local. Este último aspecto, aliás, foi responsável por projetar Jacques como jornalista policial, sendo comparado ao próprio Acássio Silva, pioneiro nesta editoria em Passo Fundo.
Adriano da Silva, de 25 anos, confessou, ao ser preso, ter violentado e matado 12 meninos na região Norte do Rio Grande do Sul, principalmente nas cidades de Sananduva, Soledade e Passo Fundo. Entre as vítimas estão: Alessandro Silveira (13 anos), Volnei Siqueira dos Santos (12 anos), Jeferson Borges da Silveira (11 anos), Júnior Reis Loureiro (10 anos), Luciano Rodrigues (09 anos), Leonardo Dorneles dos Santos (08 anos), Cassiano Rosa (09 anos), Jeferson Cristiano Garcia (12 anos), Douglas de Oliveira Hass (10 anos), João Marcos Godois (12 anos), Éderson Leite (12 anos) e Daniel Bernardi Lourenço (13 anos).
Segundo os registros policiais, publicamente divulgados ao longo das reportagens realizadas pelo jornal O Nacional e demais veículos da Imprensa local, as vítimas de Adriano tinham idades entre oito a treze anos e foram espancadas, violentadas, mortas por asfixia e seus cadáveres abusados sexualmente. Entretanto, apenas oito desses doze crimes foram comprovados pela Justiça.
Os assassinatos aconteceram entre agosto de 2002 e dezembro de 2003. Nesse sentido, em matéria publicada no dia 26 de janeiro de 2004, o periódico em questão revela que a última vítima de Adriano da Silva foi o vendedor de picolés Daniel Bernardi Lourenço, de 13 anos, morto ao ser estrangulado com um fio de náilon, crime que desencadeou a perseguição ao acusado.
O assassino, que já era foragido da Justiça do Paraná, onde estava condenado a 27 anos de prisão por ter matado, roubado e escondido o corpo de um taxista, foi capturado em cinco de janeiro de 2004 no município de Maximiliano de Almeida, na
divisa do estado do Rio Grande do Sul com o estado de Santa Catarina. O réu confesso foi a julgamento pela primeira vez no dia 15 de agosto de 2006 pelo assassinato de Alessandro Silveira, de 13 anos. Nesse júri, o acusado foi condenado a 19 anos e seis meses por homicídio duplamente qualificado e um ano e 11 meses por ocultar o cadáver do engraxate, encontrado seis meses depois do crime.
O julgamento foi aberto ao público, mas, em razão das manifestações da população passo-fundense, a polícia decidiu não deixá-lo detido no presídio do município, localizado no bairro São Luiz Gonzaga, transferindo-o para a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas, onde o réu já estava detido até o primeiro julgamento.
O caso resultou numa extensa cobertura jornalística da Imprensa local que envolveu a revelação dos assassinatos, a elucidação da autoria, a captura de Adriano da Silva e, por fim, o seu julgamento. As últimas partes dessas reportagens, aquelas ligadas ao relato do julgamento, viraram capa dos jornais da cidade, com destaque para a cobertura de O Nacional feita por Jacques Gosch, que acompanhou todo o processo e conversou com Adriano durante uma entrevista exclusiva.