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A imagem como representação do corpo torna-se explorada e comercializada nos ambientes midiáticos, gerando uma busca por um corpo saudável e perfeito, que represente um corpo jovem.

102Como a proposta desta pesquisa se delimita à mídia específica dos CDs, DVDs e respectivamente de suas

capas e não dos conteúdos de vídeo produzidos por este grupo, cabe destacar que nas gravações dos DVDs torna-se mais perceptível, um deslocamento da posição da líder do DT, Ana Paula Valadão, do meio dos músicos, de onde cantava paralelamente aos demais cantores, para ser recolocada no palco num espaço mais a frente de todos; Representando assim , uma intenção de destacar sua imagem em relação ao resto da banda. Como referência é interessante a observação dos DVDs: Diante do Trono, Exaltado, Por Amor de Ti. Disponível em: http://www.diantedotrono.com.br/PRINCIPAL/default.asp.

As técnicas de rejuvenescimento por parte dos produtores de imagens do campo religioso, encontram como aliados, os avanços tecnológicos no campo da edição de imagens. A partir desse momento, um novo recurso adentra o meio gospel e passa a fazer parte da criação de simulacros. Segundo Baudrillard: “Simular é fingir ter o que não se tem”104, ou seja, os corpos transformados e adaptados, gerando uma influência na maioria dos produtos evangélicos que vão surgir posteriormente neste segmento.

Fig. 45 - CD Ludmila Ferber – Deus é Bom Demais Fig. 46 - CD Cantarei para Sempre105

Isto somente reforça a transfiguração do corpo e a sua ressignificação deixando de ser algo em si para ser algo simulado, alterado, desconstruído do seu sentido relacional concebendo-se uma nova realidade no meio gospel: a inserção da construção virtual. Para Norval Jr., estas novas opções somente agravam uma crise que é devido à força que as imagens estão obtendo nestas últimas décadas:

A coerção para transformar pessoas complexas, corpos vivos em imagens torna-se cada dia mais forte, irresistível mesmo, como uma forma estratégica de conquista. Transformando em imagens, os corpos devem integrar uma nova lógica de produção, passam a participar sem resistência desta nova ordem social.106

Por consequencia desta era voltada à imagem, que o corpo na concepção de produção no gospel ganha uma representatividade de produto, e como produto, deve estar adequado aos

104 BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa, Relógio D´água, 1991.p. 9. 105 Figura 45 e 46. Fonte: http://adoracaoprofetica.com.br/?cat=10. Acesso em 12/10/2009.

106 BAITELLO JUNIOR, Norval. A Era da Iconofagia. Ensaios de comunicação e cultura. São Paulo, Hacker

padrões estéticos instituídos pelo mercado secular, que consome esses produtos, porquanto a sociedade, conforme Kênia Kemp, reduz o valor das mercadorias ao valor de sua imagem. Esta reação em cadeia procura elucidar a revalorização que as imagens alcançaram na contemporaneidade em comparação aos períodos passados da história e até mesmo os iconográficos, pois assim, como o sistema autônomo do capitalismo regula o mercado, os corpos são transformados em mercadoria. “O investimento simbólico e as representações de corpo em nossa sociedade reforçam e ao mesmo tempo são reforçados pelo consumo.”107.

Com o avanço tecnológico e com o advento da internet, os dispositivos digitais de edição de imagens ampliaram sua gama de atuações. No caso da produção dos CDs, um dos recursos mais utilizados são os softwares de edição de imagens. Estes softwares digitais têm a possibilidade de editar, corrigir erros e imperfeições estéticas em qualquer grau ou nível. E na era digital, estes recursos e processos que anteriormente despendiam muita técnica, tempo, recursos financeiros e conhecimentos profundos de fotografia, tornaram-se acessíveis e altamente utilizados pelo mercado secular.

Semelhantemente, a música gospel passou a utilizar estes recursos de edição de imagens, construindo simulacros. Esta preocupação com o corpo denota uma valorização dele, que por décadas encontrou-se reprimido e esvaziado nos ambientes eclesiásticos e que agora pelo viés mercadológico inicia seu processo de ressurreição. O corpo que era objeto carnal, que induz ao pecado e à degeneração do homem e da mulher, retoma sua posição como um corpo repleto de carnalidade, ou seja, de importância, de significância e de representações.

Porém, nessa tendência do mercado que valoriza o corpo, não por ele mesmo, mas como um objeto de consumo que Baudrillard critica esta apropriação afirmando que “este corpo é o mais belo dos objetos de consumo”, capaz de construir uma visão instrumental e mágica como forma de investimento108. A proposta do capitalismo para um corpo-produto é a dominação.

Com o corpo sob o controle do mercado, o campo religioso passa a seguir a mesma cooperação – a de transformar o corpo em instrumento da espetacularização. A implementação do ter em contraposição do ser como declara Debord:

107 KEMP, Kênia. Corpo modificado: corpo livre?. São Paulo: Paulus, 2005. p. 83.

Quando o mundo real se transforma em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico. O espetáculo, como tendência a fazer ver (por diferentes mediações especializadas) o mundo que já não se pode tocar diretamente, serve-se da visão como o sentido privilegiado da pessoa humana (...) Sempre que haja representação independente, o espetáculo se reconstitui109.

Nisto a utilização e transformação deste corpo simulado digitalmente, dissocia-se através da tecnologia, amplificando as possibilidades de plastificação do corpo e de suas representações simbólicas. Pois cada nova imagem que é produzida no gospel, carrega em si todo um vasto campo de representações que formam o imaginário evangélico, construindo novas possibilidades e funcionalidades para este corpo.

Para isto a viabilização das imagens tecnologicamente falando e sua constituição tornou-se elemento constitutivo na concepção das capas de CD. Os recursos de edição conquistaram espaço e hoje já fazem parte da maioria das produções do mercado gospel. Alguns exemplos abaixo, apresentam algumas possibilidades de edição que essas ferramentas modernas proporcionam:

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Fig. 47 - Alterações criadas com o Software Photoshop

Um exemplo que reflete estes conceitos na música gospel surge na capa do CD do Renascer Praise 7. O processo de retoque de imagens é aplicado na imagem de Sônia Hernandes que tem seu rosto, olhos e boca alterados digitalmente, reproduzindo um simulacro de sua aparência real.

109 DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro, Contraponto, 1997. p. 18. 110 Fonte: http://photoshopdisasters.blogspot.com/. Acesso em 28/11/2009.

Nas produções posteriores, os recursos continuam a ser explorados, no intuito de rejuvenescer o corpo, contudo com uma preocupação maior no intento de conter exageros e distorções, quanto à virtualidade da imagem e a sua real aparência, conforme observar-se-á em seguida:

Fig. 48- CD Renascer Praise 7111 Fig. 49 – CD Renascer Praise 9 – Promessa

A partir desta ótica, a imagem de Sônia Hernandes também passou por alterações que lhe transformaram num simulacro de sua corporeidade em função do mercado. Uma imagem esteticamente bela corresponde a uma incorporação no sistema mercadológico dominante, possibilitando acesso e legitimação do seu produto.