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Existe certo consenso de que o desmatamento das zonas ripárias é uma das principais ameaças à conservação da ictiofauna (NAIMAN; DÉCAMPS, 1997; BARLETTA et al., 2010). Isso foi reforçado nos estudos apresentados aqui, onde foi possível constatar que esse tipo de alteração afeta, além da diversidade taxonômica (Capítulo II), outros componentes da biodiversidade, como a composição e diversidade funcional (Capítulos II e III). As modificações que o desmatamento da zona ripária provoca nos riachos representam filtros ambientais que limitam a ocorrência de grupos de espécies especializadas, em especial as reofílicas (Capítulo III), enquanto favorece outras espécies que são capazes de explorar as novas oportunidades que se tornam disponíveis (Capítulo II e III).

As métricas utilizadas nos capítulos II e III capturam aspectos diferentes da diversidade funcional. A dispersão funcional (FDis) é uma medida de diversidade funcional que é ponderada pela abundância das espécies, sendo portanto, menos sensível a presença ou ausência de características diferenciadas exibidas por espécies raras do que outros índices, como por exemplo a riqueza funcional (FRic). FDis é um índice que apresenta alta correlação com o índice de entropia quadrática de Rao (LALIBERTÉ; LEGENDRE, 2010), o qual foi utilizado no capítulo III e, embora seja calculado de forma distinta, também considera a abundância das espécies. Quando os riachos florestados e desmatados foram comparados na escala de meso-hábitats constatou-se que, apesar dos corredores e poços desmatados abrigarem maior número de espécies funcionalmente distintas (maior FRic), a estrutura quantitativa (medida pelo FDis) das suas comunidades foi similar à dos florestados. Isso, provavelmente, deve-se a dominância de espécies nectônicas, limnofílicas e de dieta insetívora/generalista (grupo 6 do capítulo III) nesses meso-hábitats, cuja ocorrência é pouco influenciada pela cobertura florestal (Capítulo III).

Somente as corredeiras florestadas apresentaram estrutura quantitativa diferenciada, com menores valores de FDis, indicando maior redundância funcional, o que foi atribuído a maior restrição ambiental presente nesse meso-hábitat (Capítulo II), representada pelo alto fluxo de água e a baixa variabilidade na disponibilidade de alimento (ANGERMEIER; KARR, 1983). As espécies que ocupam as corredeiras (grupo 3 da partição #30 do Capítulo III) apresentam especializações para lidar com essas restrições (CASATTI; CASTRO, 1998), sendo altamente sensíveis à

descaracterização desses meso-hábitats. Embora as corredeiras estejam presentes nos riachos desmatados (Capítulo II) sua distribuição é limitada, além de apresentarem estrutura física com maior grau de alteração (e.g., sedimentação, atenuação do fluxo pelas macrófitas marginais). Isso provavelmente explica o declínio desse grupo de espécies quando os riachos desmatados foram considerados como um todo (Capítulo III). Esses resultados sugerem que o comprometimento da estrutura física do hábitat causado pelo desmatamento é uma importante fonte de alteração da estrutura funcional das comunidades de riachos.

Os resultados obtidos no capítulo II, em especial o aumento da riqueza de espécies e de FRic nos riachos desmatados reforçam outros estudos com um enfoque taxonômico (LORION; KENNEDY, 2009; TERESA; CASATTI, 2010) e proporcionam suporte à idéia de que maiores valores de diversidade não são necessariamente um indicativo de integridade biológica. Uma explicação que é usualmente evocada quando maiores valores de diversidade são encontrados em ambientes submetidos às interferências antrópicas é a Hipótese do Distúrbio Intermediário (HDI) (CONNELL, 1978). Essa hipótese baseia-se na idéia de que comunidades submetidas a distúrbios muito freqüentes são representadas por espécies tolerantes e oportunistas, enquanto que em níveis baixos de distúrbio as espécies mais especializadas, com maior habilidade competitiva prosperam sobre as primeiras. Em níveis intermediários de distúrbios as comunidades são compostas por uma combinação de espécies de ambos os extremos e, consequentemente, são mais diversas (CONNELL, 1978). Portanto, para a HDI ser uma explicação para o padrão observado no capítulo II seria necessário assumir que os riachos desmatados estudados representam um estágio intermediário de degradação e que os maiores valores de diversidade devem-se à co-ocorrência de espécies de ambos os extremos de degradação. De fato, apesar dos riachos desmatados apresentarem elementos indicadores de degradação como menor proporção de substrato estável e dominância de macrófitas no hábitat interno (CASATTI et al., 2009b), eles ainda possuem variabilidade de meso-hábitats (poços, corredores e corredeiras) e substrato estável em proporção significativa, que são elementos associados a ambientes em melhor estado de conservação (CASATTI, 2010). Entretanto, para avaliar se a HDI pode explicar os padrões observados seria necessário contemplar um espectro maior de condições de desmatamento, incluindo também riachos em estado de degradação extrema (sensu CASATTI, 2010). Dessa forma, seria possível avaliar se o padrão de diversidade obtido no capítulo II representa um pico seguido por um declínio em

riachos mais degradados (compatível com a HDI), ou se representa uma tendência linear de aumento da diversidade.

Os padrões de diversidade observados também podem ser interpretados dentro de uma perspectiva de funcionamento dos ecossistemas. A retirada da vegetação ripária e aumento da radiação solar, combinado à menor retenção de nutrientes provenientes do ambiente terrestre (Brodie & Mitchell, 2005) podem criar condições propícias para o aumento da produtividade (Bunn et al., 1999). Considerando que a diversidade funcional correlaciona-se bem com o funcionamento dos ecossistemas (Tilman et al., 1997), esse aumento no metabolismo geral dos riachos desmatados pode estar associado ao aumento da diversidade observado nestes ambientes (e.g., FRic). Além da produtividade, outros processos ecossistêmicos podem estar associados com as mudanças na composição funcional provocadas pelo desmatamento. Por exemplo, a retirada da vegetação ripária aumenta a sedimentação, modificando a composição do substrato e reduzindo o fluxo (Rabeni & Smale, 1995; Casatti et al., 2006), o que por sua vez pode resultar no favorecimento das espécies bentônicas menos especializadas em detrimento de espécies reofílicas de hábitos mais especializados (Capítulo III).

A problemática envolvendo o desmatamento é de extrema relevância, principalmente ao considerar que as eminentes mudanças na legislação ambiental brasileira (revisão do Código Florestal: Projeto de Lei nº 1.876/1999) prevêem redução da área florestada ao redor dos rios e riachos. Diversos estudos têm alertado para os impactos desse tipo de alteração sobre diversos aspectos (Toledo et al., 2010; Tundisi & Matsumura-Tundisi, 2010), inclusive sobre a conservação da ictiofauna (Casatti, 2010; Magalhães et al., 2011). Os resultados obtidos nos estudos apresentados aqui permitem antecipar que a intensificação do desmatamento, que em algumas regiões já atinge a maioria dos cursos d’água (Casatti et al., 2006; Silva et al., 2007), pode resultar em mudanças no pool funcional dentro de um contexto regional. Isso porque o desmatamento provoca homogeneização funcional da ictiofauna dentro dos riachos (Capítulo II) e supostamente entre riachos (Casatti et al., 2009b), por meio da limitação da ocorrência de espécies funcionalmente distintas daquelas que são favorecidos neste contexto de degradação (Capítulo III).

CONCLUSÕES .

Os resultados obtidos nos capítulos I, II e III complementam o conhecimento acumulado a partir da utilização da abordagem taxonômica sobre os impactos do desmatamento em comunidades de peixes tropicais e fornecem subsídios para uma avaliação mais completa dos efeitos desse tipo de alteração sobre a biota aquática. Os padrões de diversidade e composição funcional diferiram em função das alterações provocadas nos riachos pelo desmatamento, corroborando a hipótese geral. As características funcionais associadas com o uso de hábitat, ecologia trófica, tolerância à hipóxia e tamanho influenciaram a distribuição das espécies dentro (entre meso- hábitats) e entre riachos em contextos de degradação contrastantes. Nesse sentido, as modificações na estrutura funcional das comunidades causadas pelo desmatamento parecem ser mediadas pelos efeitos desse tipo de alteração sobre a disponibilidade de hábitat e recursos alimentares, assim como nas condições físico-químicas (e.g., hipóxia), que por sua vez representam filtros ambientais importantes na organização das comunidades.