François Jost, no artigo “La tradition du Bildungsroman”, faz uma abordagem sobre tal temática nos estudos literários. Inicialmente, ele sinaliza o romance como uma tradição recente, esclarecendo que não há uma rejeição à noção de gênero por parte da crítica contemporânea. Contudo, os críticos afastam-se de rotulações, matizando algumas fórmulas. Conforme Jost (1969), em vez de se aterem aos gêneros tradicionalmente aceitos, eles acabam estabelecendo diversas subdivisões, subgêneros e subespécies, em princípio necessárias, tendo em vista que contribuem para prover a teoria e a história literárias.
Apesar do caráter útil dessas ramificações, Jost (1969) salienta que elas podem ser enganosas. Um determinado gênero não se enquadra numa categoria, especialmente quando enfocamos o romance moderno, que pode ser classificado em mais de uma das várias categorias existentes (de tese, social, regional, histórico, dentre outros), como também pode ser identificado concomitantemente como um Bildungsroman.
Seguindo essa linha, Jost aponta o romance contemporâneo como “a arte das hibridizações infinitas; praticada sem circunspecção” e alega que “o gênero tende a destruir-se por si próprio” 39 (JOST, 1969, p.98). Sendo assim, o Bildungsroman não se configura como
uma categoria isolada. Logo, mesmo os protótipos dessa categoria participam em diferentes graus de outros grupos que, por sua vez, compõem outros gêneros, conforme o autor explica.
O autor atrela o surgimento do Bildungsroman a preocupações pedagógicas que, por sua vez, associavam-se intimamente às demandas educacionais daquele período. Baseado nessa premissa, Jost enfatiza: “O Bildungsroman pode então, ser definido como a expressão literária de um novo ideal da educação” 40 (JOST, 1969, p. 113).
39 No original: “L’art du roman contemporain est l’art des hybridations infinies; pratiqué sans circonspection, le genre tend à se detruire lui-même” (JOST, 1969, p. 98).
40 No original: “Le Bildungsroman peut donc étre défini comme l’expression littéraire d’um nouvel idéal d’éducation” (JOST, 1969, p. 113).
Em O cânone mínimo: O Bildungsroman na história da literatura (2000), Wilma Patrícia Maas associa a origem desta forma literária à tentativa de se atribuir um caráter nacional à literatura alemã, vinculando-se às circunstâncias histórico-culturais e literárias do final do século XVIII europeu. Ela ressalta que o Bildungsroman se refletiu em muitas literaturas europeias, bem como na americana, sendo percebido, pela crítica, como um elemento fortemente tradutor do “espírito alemão” (MAAS, 2000, p. 13).
Massaud Moisés, no Dicionário de termos literários (1978), aponta as seguintes traduções para Bildungsroman: em inglês, educational novel, novel of education, appenticeship novel; em francês, roman de formation; em português, romance de formação, romance de aprendizagem. Outro sinônimo citado por Moisés (2004) é a expressão alemã Erziehungsroman, termo formado por Erziehung (educação) e Roman (MOISÉS, 2004, p. 56). Apesar dessas várias denominações, inclusive em português, Wilma Maas (2000) ressalta a opção dos estudos críticos brasileiros pelo emprego do termo original.
Quanto a esse tipo de associação sinonímica, feita pelos compêndios e dicionários literários, entre Bildungsroman e os termos Entwiklungsroman (romance de desenvolvimento) e Erziehungsroman (romance de educação), Jost (1969) critica tais opções, por entender que “[…] a primeira diz mais que Bildungsroman, a segunda diz menos” 41 (JOST, 1969, p. 100-
101). Em nota de rodapé, ele explicita que Selbsterziehngsroman se aproxima muito mais do significado de Bildungsroman42 (JOST, 1969, p. 100-101).
Em relação ao sentido do termo Bildungsroman, François Jost (1969) esclarece que não há registros dele na obra de Goethe. Todavia, este escritor faz referências a Bildung (educação) e seus correlatos, sempre que discorre sobre sua obra. Sinônimo de Bild, de imagem, pelo menos até o século XVIII, Bildung caracteriza-se, num viés pedagógico, como o processo mediante o qual o indivíduo acaba espelhando a imagem daquele que se identifica com o seu modelo. Questionando-se sobre quem seria este agente, Jost explica que este princípio formador não se encontra numa doutrina, escola ou livro. Conforme o Wilhelm Meisters Lehrjahe (1795-1796), citado por Jost (1969), o molde do Bildungsroman encontra-se na própria experiência de mundo.
Na sua constituição morfológica, Bildungsroman compõe-se de dois radicais justapostos (Bildung e Roman), correspondentes a formação e romance, respectivamente. Wilma Patrícia
41 No original: “De ces deux expressions, la première dit plus que Bildungsroman, la second dit moins” (JOST, 1969, p. 101).
42 No original: “Selbsterziehngsroman serait bien près d’étre synonyme de Bildungsroman” (JOST, 1969, p. 101).
Maas explica que a inclusão desses vocábulos no dicionário acadêmico ocorre em meados do século XVIII, correspondendo a “conceitos fundadores do patrimônio das instituições burguesas” (MAAS, 2000, p. 13).
Maas (2000) cita a definição de Karl Von Morgenstern para o termo Bildungsroman, que o relaciona ao tipo de romance delineador da formação inicial, até o momento em que há o alcance de um grau mais elevado de amadurecimento do protagonista. Tal representação também poderá contribuir para a formação do leitor, de modo mais abrangente que as outras formas de romance.
É válido ressaltar que formação e educação, enquanto frutos do Iluminismo, são conceitos que, no último quartel do século XVIII, atrelavam-se intimamente a uma forma de se pensar o bem-estar social como decorrente da formação e da educação dos indivíduos. Por este motivo, caberia à Nação assumi-las, de modo a preparar as futuras gerações. Nessa linha, abre-se campo para a concepção de um projeto de educação nacional, destinado a fortalecer a consciência da nacionalidade e a preparar cidadãos para o serviço da Nação (MAAS, 2000).
Diferente dos romances de aventura, em que os eventos passam a considerar e envelhecer a figura do herói, o romance de aprendizagem coopera para cristalizar o seu caráter. Esta concepção revela um herói que não se submete ao seu destino; antes, busca enfrentá-lo, preparando-se para dar conta de tal intento, conforme esclarece François Jost (1969). Sendo assim, o foco recai, necessariamente, sobre o desenvolvimento interior do protagonista, decorrente da sua reação ante os episódios em sua volta. O Bildungsroman evidencia justamente as consequências que esses fatos promovem no protagonista, tanto de ordem emocional, psicológica, quanto de caráter. Sendo assim, ele passa a gerenciar seu destino, conforme Jost (1969) explana:
Assim, o protótipo da espécie, a Escolaridade de Wilhelm Meister, apresenta ao leitor um personagem que, pela sua própria escolha e pelo seu próprio esforço (aqui, ele denuncia os princípios do romance) geriu uma felicidade “que não poderia trocar por nada no mundo”, nas próprias palavras de Wilhelm pronunciadas ao final da obra. A noção de escolha, embora à sombra forte segundo o caso [...], é um conceito chave não somente da parte de Goethe, mas encontra-se em um grau diverso em todo romance de aprendizagem43 (JOST, 1969, p.114 ).
43 No original: “[...] Ainsi le prototype de l’espèce, Wilhelm Meisters Lehrjahre, présente au lecteur un personnage qui, par son propre choix et par son propre effort (ici, il dénonce les principes de la romance) parvient à un bonheur “qu’il ne voudrait troquer contre rien au monde”, selon les propres mots que Wilhelm prononce à la fin de l’oeuvre [...] est une notion-clef non seulement chez Goethe, mais ele se retrouve à des degrés divers dans tout roman d’apprendissage” (JOST, 1969, p. 114).
Concernente ao vocábulo, em si, François Jost (1969) faz uma ligação bastante enfática com Goethe, que empregava Bildung (formação), sempre quando fazia abordagens relacionadas ao seu romance. Contudo, Jost vincula o emprego inicial deste termo a Karl Von Morgenstern, professor da Universidade de Dorpat.
Em 1803, Morgenstern elaborou um plano de estudo com enfoque no Bildungsroman, neologismo que ele retoma em 1810, durante a ministração de um curso intitulado “Sobre o espírito e o contexto de uma série de romances filosóficos”. Mais tarde, em 1819 e 1820, ele se voltou para o mesmo tema, contudo, priorizou a natureza e a história do Bildungsroman durante a apresentação de duas conferências. Apesar de Morgenstern ter sido o primeiro a se dedicar ao assunto, Jost (1969) chama a atenção para a pouca influência de seus estudos.
Com relação à difusão do Bildungsroman, François Jost (1969) atribui a Wilhelm Dilthey, filósofo e historiador que, durante algum tempo, pensou-se ter sido o criador do termo. Conforme Jost (1969), seu mérito é ter ampliado a divulgação do Bildungsroman, a partir da obra Vida de fabricante de véu (1870), inserindo-o na terminologia da esfera literária.
Os alemães detiveram o monopólio do Bildungsroman, sendo tal conceito cristalizado, principalmente a partir do Wilhelm Meisters Lehrjahre, de Goethe. Dilthey faz essa relação entre o Bildungsroman e este romance, algo crucial, tanto para o estabelecimento da crítica relativa ao Bildungsroman, quanto à influência que o mesmo exerce nas abordagens posteriores, como expõe Wilma Maas (2000).
Obra fundante do Bildungsroman, Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (2006), de Goethe, é publicado originalmente em duas partes, uma em 1795, e outra em 1796, conforme relata Marcus Vinícius Mazzari, na apresentação que faz a uma das 1ª edições desta obra (2006). No romance, Goethe habilmente expõe a trajetória de vida do jovem Wilhelm Meister, membro de uma família burguesa alemã. Numa fuga ao modelo de vida traçado por seus pais, o jovem opta por forjar seu caminhar e a sua formação, enquanto indivíduo. Sua aprendizagem vai sendo consolidada à medida que ele interage com atores, aventureiros, participantes de uma sociedade secreta, dentre outros, num período correspondente a dez anos (1770 a 1780). Meister contracena com diferentes pessoas e grupos sociais, o que coopera para ampliar suas experiências e formação.
Nessa trajetória, Meister passa por caminhos e descaminhos amorosos, que vão do seu envolvimento infeliz e catártico, com a atriz Mariane, até a sua união com Natália, com quem se casa. No percurso em busca de si, ele forja seu fluxo de vida a partir das experiências vivenciadas, quer sejam positivas, quer negativas, a partir de aventuras ou desventuras
modeladoras e formadoras do seu caráter. Nesse sentido, a obra goethiana exibe, paulatinamente, os diferentes graus de aperfeiçoamento transpostos pelo protagonista, nas várias etapas da sua vida.
Conforme Jost (1969) realça, é justamente do Bildungsroman, de Wilhelm Meister, que a produção narrativa oriunda da Alemanha evolui e apresenta uma nova vertente de romance que exibe facetas da vida do indivíduo suscetíveis à incidência da ação formadora que alguns eventos têm sobre seu caráter, principalmente durante a adolescência e o início da sua juventude, quando, de modo mais intenso, ocorre sua formação, a partir de escolhas e esforço próprios.
No período da formação do indivíduo, os fatos seguem sem que haja uma sequência lógica ou um elo estruturador firme. Como explica Jost (1969), quem vai conferir unicidade à narrativa é justamente o herói, a partir do modo como reage aos episódios por que passa, a tudo que o cerca e o impele a agir e a sofrer modificações de nível emocional, psicológico ou de caráter. Nesse processo de formação, podemos considerar que o desenvolvimento interior do herói é resultante de seu intercâmbio com o mundo em sua volta, a forma como assimila tudo isso e seus processos de escolhas. Por conseguinte,
[...] este princípio de unidade é mais do que tudo encontrado nos próprios heróis, suas atitudes diante da vida, suas vitórias e suas derrotas. Assim o Bildungsroman permanece uma espécie de narrativa de uma viagem espiritual: a distância interior percorrida dando a medida de progresso cumprido (JOST, 1969, p. 104)44.
Para Jost (1969), são justamente os elementos temáticos que irão cooperar para a caracterização do Bildungsroman. Além disso, ele atrela o Bildungsroman à figura masculina, quando profere: “Ser homem, isto se aprende. E a felicidade terrestre não improvisa nada: ela marca o termo de uma evolução.
”
45 Ou seja, o Bildungsroman retrata esse processo de formação de uma personagem masculina que vai amadurecendo, forjando-se homem durante seu percurso interior e também quando intercambia experiências com/no mundo (JOST, 1969, p. 114).Por conseguinte, quais seriam os traços particularizadores do Bildungsroman, diferençando-o das outras formas de romance? Wilma Maas (2000) elenca alguns desses elementos, baseando-se nos estudos de Jürgen Jacobs (1989), para quem é primordial que a
44 No original: “[...] Ce principe d’unité est bien plutôt à chercer dans le héros lui-même, ses attitudes devant la vie, ses victoires et ses défaites. Ainsi le Bildungsroman demeure une sorte de récit d’un voyage spirituel: la distance intérieure parcourue donne la mésure du progrés accompli” (JOST, 1969, p. 104).
45 No original: Être homme, celà s’apprend. Et la félicité terrestre ne s’improvise point: le marque le terme d’une évolution”.
narrativa gravite em torno de um jovem protagonista que, em meio a enganos e desenganos, consegue alcançar um equilíbrio pessoal durante o percurso empreendido na sua formação.
Mikhail Bakhtin, na Estética da criação verbal (2010), no capítulo intitulado “O problema do romance de educação”, também se dedica a fazer uma abordagem sobre o tema. Para ele, Bildungsroman diz respeito a “uma modalidade específica de gênero romanesco, chamada de romance de educação (Erziehungsroman ou Bildungsroman)” (BAKHTIN, 2010, p. 217).
Bakthin (2010) esclarece que uma parte considerável do gênero romanesco apresenta uma imagem pronta da personagem. Logo, o enredo e a estrutura internas do romance demandam o que ele denomina de imutabilidade, aspecto estático. Consequentemente, não há, nem movimento, nem formação, nessa imagem da personagem. Nesse entendimento, a personagem é definida por ele como “aquele ponto imóvel e fixo em torno do qual se realiza qualquer movimento no romance. A permanência e a imobilidade são a premissa do movimento do romance” (BAKTHIN, 2010, p. 219).
Em contraposição a essa espécie de gênero romanesco aludido, Bakthin (2010) aponta outro tipo caracterizado justamente por produzir a imagem do homem em sua formação, tornando-se a personagem em uma grandeza variável, atuante na composição romanesca. Nessa perspectiva, ele afirma: “o tempo se interioriza no homem, passa a integrar a sua própria imagem, modificando substancialmente o significado de todos os momentos do seu destino e da sua vida”. Isso implica em compreender que essa espécie de romance, num sentido lato, pode ser designada de “romance de formação do homem” (BAKTHIN, 2010, p. 219-220).
Esses estudos apontam o aperfeiçoamento do indivíduo como o ponto nevrálgico, quando pretendemos entender um texto na perspectiva do Bildungsroman. É possível, também, ampliar o escopo da discussão, numa apropriação desse conceito, redefinindo-o a partir de outras realidades e demandas literárias. Um exemplo dessa deglutição, como Maas (2000, p. 25) denomina, é a obra O Bildungsroman feminino: Quatro exemplos brasileiros, de Cristina Ferreira Pinto (1990), considerada como um dos estudos pioneiros da crítica brasileira, em se tratando de Bildungsroman feminino.