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5 EMPIRICAL RESULTS

5.1 Adjusted Market Inefficiency Series

classificação... operação de repartir um conjunto de objetos em classes subordinadas, utilizando critérios oportunamente escolhidos

(Abbagnano, 2000:147)

A lógica organizacional contemporânea ao transferir o controle do gestor para R LQGLYtGXR H[LJLX D LQVWLWXLomR GR ³GLVSRVLWLYR GH MXVWLoD´ GHQRPLQDGR DYDOLDomR GH desempenho, objetivando a comprovação do direito de o trabalhador permanecer ou não no mundo do trabalho (BOURGUIGNON e CHIAPELLO, 2004). Esta prova de mérito, também denominada prova pessoal de performance, modelada para ³PHQVXUDU´DVFRQWULEXLo}HVGDV pessoas, com base em ³FULWpULRV´OHJLWLPDGRVSHORPHUFDGRFODVVLILFDRWUDEDOKDGRU4XDOD razão dessa classificação?

A busca dessa resposta, propósito desta seção, exigiu o desvelamento dos fundamentos filosóficos do conceito classificação, contra os quais o conceito assédio moral vem se defrontando no decorrer do seu processo de robustecimento no Brasil.

Antes de tudo convém destacar que o conceito classificação é um legado platônico que reforça a idéia da existência de categorias naturais que originam as demais. Dito de outro modo, o pensamento platônico advoga que a verdade é a essência das coisas manifestada por meio da aparência de modos distintos.

Entretanto, Ian Hacking (2001) denuncia que essa lógica traz à tona que, originalmente, o campo de batalha da luta das classificações é a história natural. Dito de outra forma, a transferência do raciocínio utilizado na história natural para classificar plantas se expandiu e se infiltrou na classificação de categorias em qualquer campo do conhecimento.

A história do ciclo das idéias atesta que a crença na superioridade dos critérios biológicos e matemáticos fundamentou a idéia da superioridade da categoria natural em relação às demais e, portanto, da relação de subordinação entre os campos do conhecimento. As raízes do conceito classificação foram adubadas por essa visão filosófica dualista que, ao advogar a separação da relação sujeito-objeto, o fertilizou com valores vinculados aos modos de raciocínio nascidos das idéias aristotélicas (SCHIFRES, 1980: 27-89).

Sob a influência de Platão (422 a.C.-347a.C.), Aristóteles, foi o primeiro pensador que classificou os modos de raciocínio, reduzindo-os à forma de silogismo:

Todos os homens são mortais, ora Sócrates é um homem, portanto Sócrates é mortal

O pensamento platônico advoga que a verdade é a essência das coisas manifestada por meio da aparência de modos distintos e, conseqüentemente, apenas é possível o conhecimento do mundo por meio da separação entre gêneros e espécies. Nesse contexto, espécie é a especificação do gênero, hierarquia que influenciou outros tipos de classificação. Logo, esta visão de mundo ao defender que o acesso à verdade apenas ocorre por meio da classificação inaugura a postura dicotômica, advogando a divisão progressiva de uma idéia HP RXWUDV LPHGLDWDPHQWH ³LQIHULRUHV´ LQVWLWXLQGR D KLHUDUTXLD >@ JrQHUR e espécie são inseparáveis [...] (WIENER, 1973:4-463).

$VVLP QDVFHX D ³QDWXUDOL]DomR´ GD VXSHULRULGDGH GH FRQFHLWRV YLQFXODGRV DR modo de pensar da história natural: árvores declinadas em classes, em ordens familiares, em gêneros e em espécies. Este modo de pensar se expandiu, abrangendo outras áreas do conhecimento científico. Mas, qual a finalidade da classificação?

Maurice Halbwachs (1877±1945) acentuou que a classificação é uma noção social intencionalmente útil:

As formas de classificações deixam de ser formas universais WUDQVFHQGHQWDLV SDUDVHWRUQDUHP³VRFLDLV´DUELWUiULDVGHWHUPLQDGDV

Pierre Bourdieu (2001:14), por sua vez, complementou acentuando que a finalidade da classificação é a divisão do mundo em classes, cujo intuito é a produção intencional de categorias, visando impor a definição do mundo social em atendimento a interesses específicos, o que provoca uma luta simbólica permanente. O autor chamou a atenção que a lógica da classificação remete à idéia das formas universais (BOURDIEU,   j FUHQoD HP FDWHJRULDV ³QDWXUDLV´ j VLQDOL]DomR GR GHVORFDPHQWR GD PLJUDomR GH raciocínio. Trata-VHSRUWDQWRGHXPD³YLROrQFLDGDLQYDVmRGHFDPSRV´

impor a apreensão da ordem estabelecida como natural (ortodoxia), onde doxa quer dizer o indiscutido.

(Bourdieu, 2001:14

,QVLVWLQGR HP DSRQWDU D SUHVHQoD GH ³YHOKDV LGpLDV HP YLV}HV GH PXQGR FRQWHPSRUkQHDV´ Ian Hacking sinaliza que a atualidade convive com crenças opostas. A crença em categorias a priori (naturais), fundamentadas na necessidade da verdade, que sustenta a visão filosófica dualista marcada pela separação sujeito-objeto. A crença em categorias nascidas da intenção humana de atender necessidades específicas (construções sociais) apóia a visão filosófica não dualista que defende não haver significado intrínseco, para a qual o significado é contextual, os fenômenos em si nada significam e o homem é um representador: Homo Depictor. A fonte da criação de representações em face da impossibilidade da reprodução do real.

'LDQWH GR GLVSRVWR p SRVVtYHO VXSRU TXH D LGpLD GD ³QDWXUDOL]DomR´ GD necessidade do domínio fertilizou o conceito classificação, contra o qual o conceito moral se defronta constantemente na busca de avanços em sua robustez.

Em conseqüência, é possível pensar que os avanços que favoreceram a TXDOLILFDomR GHVVH FRQFHLWR HQIUDTXHFHUDP D LGpLD GD VXERUGLQDomR GH ³LQIHULRUHV´ D ³VXSHULRUHV´ &DGD avanço no processo de robustecimento desse conceito exigiu a desconstrução de crenças que valorizam relações de subordinação legitimadas pela FODVVLILFDomR&DGDSDVVRDGLDQWHQHJRXDH[LVWrQFLDGHFDWHJRULDV³QDWXUDLV´

Apesar de o direito da subordinação das categorias inferiores às superiores ter se enfraquecido no decorrer do tempo, o pensamento dicotômico, ainda, se mantém vivo no pensamento científico atual. Há séculos a visão dualista influencia o pensamento humano a despeito da contraposição de formas de pensar que buscam desestabilizar esta hegemonia. Contudo, a dificuldade do abandono dessa visão filosófica deve-se à robustez das contribuições que a sustentam historicamente.

Embora predominante, o dualismo não se tornou um pensamento hegemônico no século XIX. Ilustrando, Nietzsche (1844-1900), um representante legítimo da visão de mundo não dualista, entre outros pensadores, ousou enfrentar o olhar dicotômico, insistindo na busca da finalidade das invenções dos conceitos. O seu propósito era a denúncia quanto à ausência de fatos verdadeiros. Para ele, havia apenas interpretações construídas pelo homem.

Também é possível identificar idéias no século XX que insistiram em trafegar com base nessa forma de raciocínio. Hacking afirma que YiULDV WHRULDV ³LQRYDGRUDV´ TXH vigoraram nesse século foram ³QRYRV LQYyOXFURV´ GH XPD YHOKD YLVmR GH PXQGR que resgataram metáforas (HOUAISS, 2001:457) da tradição filosófica dualista.

É oportuno salientar que metaphorá é uma palavra grega, traduzida como metáfora para significar semelhança ou analogia com outra coisa. Na língua portuguesa, segundo Houaiss, o sentido do termo metáfora é descrito conforme se segue:

designação de um objeto ou qualidade mediante uma palavra que designa outro objeto ou qualidade que tem com o primeiro uma relação de semelhança.

Portanto, pode-se supor que metáforas de idéias nascidas no século XIX alicerçaram as formas de classificações por semelhança, a idéia da subordinação de conceitos, a crença na superioridade de uns conceitos em relação a outros em face da existência de categorias concebidas a priori superiores às demais.

É notório que a substituição dos modos de pensar é lenta e gradativa. Apesar disso, desde o final do século XIX se testemunha a busca da superação do legado platônico de modo mais sistemático, quer dizer, a defesa da interação entre o sujeito e o objeto. Eleanor Rosch (1938-), autora contemporânea, demonstra esta postura filosófica ao defender a intencionalidade na invenção de categorias com base em dois argumentos. A subjetividade é um filtro perceptual que afeta a interpretação dos fatos, tornando real apenas o que faz sentido para um determinado indivíduo. As pressões das megamudanças, viabilizadas pela aliança entre o fenômeno da globalização e os avanços tecnológicos, acentua a autora, influenciam os critérios de classificação. Estas ³TXHEUDP´ IURQWHLUDV JHRJUiILFDV, impõem a formação de agrupamentos humanos baseados em critérios de semelhança intencionais, como a geração de vocabulários específicos.

Ainda, sob esta perspectiva, Champagne, Lenoir, Merllié e Pinto salientaram que categorias, tais como sexo, raça e idade cronológica, são construções sociais. No entanto, a intensidade da freqüência do seu uso na classificação dos indivíduos na sociedade favoreceu a percepção de que taiVFDWHJRULDVVmR³QDWXUDLV´Por exemplo, a reportagem que publicou a ação judicial dos empregados do Banco Central (anexo1), denunciando as conseqüências da divisão do corpo funcional em duas categorias, ilustra uma forma dualista contemporânea de pensar no campo das organizações brasileiras. Na visão teórica desses autores, pode-se afirmar que as demandas do contexto organizacional determinaram as categorias de trabalhadores que devem ter acesso, de forma legítima, aos bens e posições sociais específicos. Trata-se de uma forma de manipulação que evidencia a definição de poderes vinculados às lutas simbólicas em torno da classificação.

Além disso, é possível supor que o ajuizamento de ações em busca da reparação do dano decorrente da discriminação intencional é uma conquista que evidencia avanços no nível de robustez do conceito assédio moral.

Em especial, este estudo sistemático revelou que desde os anos 1990 se testemunha a perda do vigor da lógica dualista e a ascendência simultânea de visões filosóficas que pressupõem ser o homem fruto das construções históricas e dos contextos nos quais vive. Esse convívio de visões filosóficas contrastantes reflete que as questões centrais da filosofia, que há séculos instigam reflexões, permanecem vivas influenciando modos de agir e pensar: as cDWHJRULDVVmR³REUDGDQDWXUH]D´RXVmR³REUDGRKRPHP´"

Ainda, hoje, ora, a verdade, inspirada na visão dualista, advoga a dicotomia sujeito-objeto, se identifica com essência, se apresenta como verdade absoluta e, portanto, GHIHQGHDH[LVWrQFLDGHFDWHJRULDV³QDWXUDLV´FRP³JHUDomRHVSRQWkQHD´³REUDVGDQDWXUH]D´ cuja natureza a priori lhes dá direito de se imporem às demais. Esta lógica TXH³naturaliza´ a VXERUGLQDomRGHFDWHJRULDV³LQIHULRUHV´jV³VXSHULRUHV´GHIHQGHTXHDGLYLVmRGRPXQGRFRP EDVH QHVWHV FULWpULRV p PDLV ³YHUGDGHLUD´. Ora, a verdade ousa ir além dessa lógica binária negando DH[LVWrQFLDGHFULWpULRV³YHUGDGHLURV´HPVLPHVPRV, buscando a superação dessa dicotomia, afirmando que a verdade não se encontra no sujeito, nem sequer no objeto. O seu lugar reside na relação entre ambos. Essa visão de mundo afirma que o homem é um ³FRQVWUXWRU GH YHUGDGHV´ FXMRV FULWpULRV DGRWDGRV SDUD GLYLGLU R PXQGR HP FDWHJRULDV VmR LQYHQo}HV RX ³REUDV KXPDQDV´ Fuja valorização depende da época em que estes critérios nasceram e se fortaleceram (WIENER, 1973:74-463). Em outras palavras, as construções sociais dependem do contexto histórico em que estas se inserem.

Em suma, a história dos conceitos científicos (HACKING, M., 2001b) aponta que na visão filosófica não-dualista verdades são conceitos construídos com finalidades específicas e que a idéia de classificação é fruto da imposição da lógica platônica aos demais modos de olhar a relação sujeito-objeto.

Em decorrência, esta tese defende que o processo de robustecimento do conceito assédio moral trava uma luta constante com o desejo secular do domínio da razão, que naturaliza a classificação, os rótulos, as construções sociais. A análise da amostra revelou que o contexto atual de negócio ao ³QDWXUDOL]DU´ práticas tipificadas como assédio moral, visando a sustentação de níveis de excelência diferenciados, demandou a classificação do trabalhador em categorias ³VXSHULRUHV´H³LQIHULRUHV´

Mas, o que sentem os ³LQIHULRUHV´as vítimas do assédio moral a respeito desse modo de relacionamento interpessoal no ambiente de trabalho? Quais as conseqüências individuais da inclusão do trabalhador nessa categoria no mundo do trabalho?

4.2.2. 'DQRVGDGRU³LQYLVtYHO´

2GHVHMRGHFKHJDUPDLVSHUWRGDGRU³LQYLVtYHO´GDVYtWLPDVGRDVVpGLRPRUDO estimulou o desenvolvimento deste item. Antes de tudo, por que se trata de uma dor ³LQYLVtYHO´"3RUTXHDIUDJLOLGDGHGDUREXVWH]GRFRQFHLWRDVVpGLRPRUDOQR%UDVLODLQGDH[LJH provas concretas do dano que este fenômeno acarreta. Para muitos esta é uma dor fingida.

No entanto, a crença que ao trabalhador assediado sobra a depressão, a angústia e outros males físicos e psíquicos que acarretam sérios danos a sua qualidade de vida, o propósito deste item é a investigação das percepções das vítimas do assédio moral e o desvelamento das suas principais conseqüências no mundo do trabalho.

A vítima é uma caixa de ressonância das piores agressões. Por não acreditar que tudo aquilo é contra ela, por não saber como reagir, por não encontrar apoio nos colegas nem na direção da empresa, frente ao medo do desemprego, se sente culpada. A ausência do equilíbrio emocional e psíquico para enfrentar a situação a mantém atada às garras do agressor.

Os estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 1996 e 2000, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o da Agência Européia para a Segurança e a Saúde no Trabalho, entre outras, trouxeram à tona os estragos físicos e psíquicos que o assédio moral provoca no trabalhador assediado. A maioria das pesquisas convergiu afirmando que este é um risco à saúde que provoca várias doenças relacionadas ao estresse.

Tanto sofreu pressões no serviço que acabou adoecendo. Após uma série de exames, o médico constatou que a doença devia-se à quebra da integridade psíquica pelo rebaixamento da auto-estima.

Processo nº 00021-2004-097-3-00-0

Os resultados da pesquisa mais abrangente no Brasil, até então, realizada em 2001, sob a responsabilidade da médica do trabalho Margarida Barreto, caminharam em direção similar apontando inúmeras conseqüências à saúde do indivíduo decorrentes dessa relação social no trabalho nomeada assédio moral (figura 57).

0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Mulheres Homens

Fig 57