• No results found

CHAPTER 4: DISCUSSION

4.6 Strength and weaknesses of the review process

Depois dos estudos folclóricos, foi a vez dos estudos literários se interessarem pela literatura de cordel. Se o método de trabalho dos folcloristas incluía a transcrição, catalogação e classificação de textos anônimos, o método literário, ao contrário, procurava criar uma historiografia literária que delimitava os textos clássicos que pudessem representar um cânone, a partir de uma autoria conhecida, ligada aos escritores geniais e às suas obras únicas e individuais, tendo como texto fundador a literatura supostamente escrita por Homero.

Ao considerar o folheto de cordel como texto literário, além de um “fato folclórico”,

como bem nos revela a designação “literatura de cordel”, instituída e difundida desde a

década de 70, os pesquisadores trouxeram outros problemas do ponto de vista teórico e metodológico. O ato de designar, segundo a Teoria Semiolinguística103, muitas vezes é utilizado com fins argumentativos e, arriscaríamos dizer, também ideológicos104, sobretudo pelo fato de o termo ter se popularizado entre leitores-ouvintes e poetas de maneira tão abrangente e substitutiva.

Do ponto de vista dos estudos literários, era preciso iniciar sistematicamente a classificação da poesia e criar um subdomínio para o cordel dentro do domínio literário. O problema maior é que tal designação desconsiderou todas as outras que eram

103 Charaudeau (1992), em sua Grammaire du sens et de l‟expression, desenvolve essa asserção no

capítulo sobre o Modo de Organização Argumentativo.

104

Utilizamos o termo ideologia nos termos que nos apresenta Fiorin (2003, p. 26-27), segundo o qual ideologia seria um conjunto de ideias e de representações “(...) que servem para justificar e explicar a

ordem social, as condições de vida do homem e as relações que ele mantém com os outros homens (...)”. A ideologia, assim, “(...) é uma „visão de mundo‟, ou seja, o ponto de vista de uma classe social a respeito

atribuídas pelos poetas e seus ouvintes, instituindo, assim, uma designação “importada”

da Europa e fundamentada a partir de um olhar escriptocêntrico, que associou a origem do folheto brasileiro ao folheto português, não levando em conta o fato de que o cordel

possui uma “arte poética que não é a da poesia moderna, mas a do canto e da declamação nas civilizações da oralidade”105

.

Além disso, ao incluir essa poesia no domínio literário, mais especificamente em uma literatura marginal, menor, pseudo, infra ou sub, os teóricos basearam-se em dois pressupostos escriptocêntricos:

o de que é possível interpretar e classificar qualquer texto, de qualquer época, de qualquer país [...] como se fossem textos

“escritos” no sentido atual da palavra, e, o segundo, o de que é

legítimo e científico avaliar esses textos com os critérios do discurso literário oficial, apresentados como universais106.

Os critérios que levaram os teóricos a inserirem essa poética no domínio literário são questionáveis, de acordo com Lemaire, pois transformaram os recursos próprios da cantoria, tais como, ritmos, repetições, paralelismos e tantas outras estratégias

mnemotécnicas e de improvisação, em simples “recursos estilísticos” e/ou em “figuras de estilo”. Segundo a autora, esses parâmetros contribuíram para gerar uma imagem

negativa em torno do cordel, uma vez que:

Avaliados segundo os critérios e as normas do cânone da literatura escrita da época, - já com critérios estéticos bem diferentes-, o juízo de valor só podia ser negativo, situando-se entre o desprezo mais radical e aquela atitude de condescendência indulgente que os jovens pesquisadores aprendem com os seus mestres ao fazer os seus

primeiros passos no campo das pesquisas de „campo‟107

.

Diante desse cenário, o mundo da oralidade passou a figurar em um lugar à parte, distante da literatura oficial, o que gerou problemas de toda ordem, uma vez que a poesia passou a ser analisada e teorizada do ponto de vista unicamente da escrita e dos modelos aplicados à literatura canônica. As perdas decorrentes dessa postura podem ser

105 LEMAIRE, [s.d], p. 14. 106 Id, Ibid, p. 14

107

associadas ao reconhecimento apenas da parte linguística em detrimento de um universo performático, o qual Zumthor108 chama de “obra”, ou seja, o que é poeticamente comunicado através de gestos, ritmos e tudo mais que pode se encontrar no contexto de interação efetiva entre poeta e seu público. Seria como considerar apenas o enunciado, sem levar em conta os elementos da enunciação, se pensarmos em termos dos estudos linguísticos.

Os principais responsáveis por essas reflexões que consolidaram um campo de estudos sobre o cordel, a partir da década de 60, foram os pesquisadores da Fundação Casa de Rui Barbosa, uma instituição de caráter estatal ligada ao Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro, que dá início a um projeto editorial109 voltado para a publicação de estudos críticos sobre o folheto de cordel brasileiro.

Francisca dos Santos110 nos revela em sua tese de doutorado, com o objetivo de desconstruir o território exclusivamente masculino da literatura de cordel, que tais estudos traziam os pressupostos teóricos e ideológicos dessa Fundação, os quais se embasavam nas seguintes perspectivas:

em práticas e métodos do pensamento tradicional brasileiro, cujos conteúdos estão relacionados, por um lado, às ideias de Sílvio Romero e Câmara Cascudo (Comissão Nacional do Folclore - CNF) e, por outro lado, aos Institutos de História e Geografia Brasileiro

(IHGB); b) aos quadros existentes da “coleção de textos da língua portuguesa moderna” da FCRB – de referências provenientes da

filologia e categoria da cultura canônica – ; e, finalmente, c) das mesmas teses ideológicas do plano global da política de integração nacional promovidas pelos militares, que visavam, entre outros, construir no país um projeto cultural com a intenção de atender aos

chamados “Objetivos Nacionais”.111

Ressaltamos, porém, que não faremos um comentário sobre o período político que influenciou a criação da FCRB, seus ideais e suas ações, pois já o esboçamos

108ZUMTHOR, Paul. Escritura e Nomadismo. São Paulo: Brasiliense, 2005, p. 142.

109 Tal projeto editorial começou com a publicação de um Catálogo (1961), seguido de uma Antologia

(1964) e, posteriormente, de vários artigos em forma de Estudos (1973), que passaram, a partir desse

contexto, a designar o folheto de feira como uma “literatura popular em verso” ou como uma “literatura

de cordel”.

110 SANTOS, Francisca Pereira. Novas cartografias no cordel e na cantoria: desrritorialização de gênero nas poéticas das vozes. Tese. Paraíba: Universidade da Paraíba, 2009.

111

anteriormente. Nosso objetivo agora é trazer apenas alguns elementos ligados à teorização elaborada por essa equipe de pesquisadores sobre o folheto de cordel, a fim de tentarmos perceber como o cordel e o poeta eram vistos por esses pesquisadores. Dentre várias questões teóricas importantes, tais como, a origem, a autoria, o sistema editorial, a linguagem e as temáticas abordadas, destacaremos a questão da caracterização do poeta e dos critérios utilizados para classificar os folhetos, nesse contexto.

Quanto à caracterização do poeta, o critério utilizado foi o da autenticidade e o seu

contrário, distinguindo o “verdadeiro” poeta “popular” - que deveria ser “analfabeto” ou “semianalfabeto” – do “falso” poeta, ou seja, aquele que “imita o popular”, através de

um modelo de poema. Manuel Diégues Júnior nos mostra esta distinção, segundo seu ponto de vista:

A meu ver, se o autor não é popular, mas imita o popular (a espontaneidade, a naturalidade, a ideia, o estilo do autor de cordel analfabeto ou semialfabetizado) não é folclórico, mas, no caso, para- folclórico ou talvez, até mesmo, nem isso.112

Outras publicações paralelas às da Casa de Rui Barbosa também confirmam esse critério de caracterização do poeta de cordel como, por exemplo, o Dicionário Biobibliográfico de repentistas e poetas de bancada113 (1981), escrito pelo poeta, repentista e pesquisador paraibano José Alves Sobrinho, sob a coordenação do professor Átila Almeida, da Universidade Federal da Paraíba. Trata-se de uma obra de reconhecido valor, pois elenca poetas e repentistas, dando visibilidade a muitos que até então não eram notados pelos pesquisadores. Apesar disso, no prefácio elaborado pelos autores, é possível perceber clara distinção entre poetas de bancada e os “cegos” e

“matutos”, considerados artistas de pouca expressão, pelo fato de não dominarem a

modalidade padrão da língua portuguesa. Os autores criaram uma classificação para os

112 DIEGUES Jr., Manuel. Carta de 21 de junho de 1977 apud SANTOS, 2009, p. 68.

113 ALMEIDA, Átila Augusto F. de; SOBRINHO, José Alves. Romanceiro popular nordestino: marcos e vantagens, 1.Campina Grande, Universidade Federal da Paraiba – UFPB, 1981.

verdadeiros poetas, excluindo a “[...] classe espúria dos poetas matutos com os quais

nem os repentistas nem os versistas ou poetas de bancadas têm afinidade”114.

Discutindo o prefácio dos autores, Santos115 diz que essa discriminação estaria ligada ao fato de que “[...] o poeta matuto erra de propósito, falsifica a linguagem”. E continua

dizendo que Sobrinho e Almeida “se referem aos poetas ágrafos, que por dizerem seus

versos dissonantes da fala oficial, mas dentro de seus diversos falares, ou seja, dentro de

uma construção linguística que eles chamam de “homem ignorante do campo”, estariam

entre os poetas menores e, por isso, discriminados116.

Embora sejam textos contemporâneos, a caracterização do poeta de cordel presente na carta de Diegues Jr., representante do grupo de pesquisadores da FCRB, e a presente no dicionário nos revelam, no mínimo, uma contradição, uma vez que a carta relaciona a legitimidade do poeta ao fato de ele ser analfabeto ou semianalfabeto, e o dicionário, ao

contrário, discrimina os iletrados, valorizando o “verdadeiro” poeta popular, ou seja,

aquele que tem “sede de aprender”117.

A partir deste breve histórico, pudemos perceber por onde passaram/am os processos de estereotipagem do ethos do poeta de cordel, os quais podem ser associados a uma

imagem cristalizada na memória coletiva, por meio de um “movimento de resgate” da

literatura de cordel, fomentado, sobretudo, nas décadas de 70 e 80, pautado em um projeto de nação, que precisava veicular uma imagem idealizada de representantes da cultura popular.

Este capítulo contribuiu para que se perceba o que Amossy chama de ethos prévio do poeta, ou seja, de uma construção coletiva da imagem do poeta, destacando a dimensão social dessa construção etótica, associada aos discursos institucionais que, associando imaginário social e autoridade institucional, numa perspectiva argumentativa que visa a gerar adesão das pessoas ao projeto de nação que então vigorava no país, foram responsáveis por estabelecerem uma identidade social para o poeta.

114

ALMEIDA, Átila Augusto F. de; SOBRINHO, José Alves. Dicionário biobibliográfico de repentistas

e poetas de bancada. Tomo I e II. João Pessoa: Editora Universitária - UFPB, 1978, p. 11. 115 ALMEIDA; SOBRINHO, 1978, p. 11 apud SANTOS, 2009, p. 47.

116 SANTOS, 2009, p. 47. 117

Segundo Amossy, “na perspectiva argumentativa, o estereótipo permite designar os

modos de raciocínio próprios a um grupo e os conteúdos globais do setor da doxa na

qual ele se situa” 118

, o que corrobora a nossa hipótese de que não foi gratuito associar a imagem do poeta a do homem ingênuo do campo, trabalhador rude e analfabeto e tornar essa associação um modelo do que seria o povo genuinamente brasileiro.

Não conformados com esta imposição/construção prévia da imagem do poeta, buscaremos, no capítulo seguinte, refletir sobre as trajetórias enunciativas da literatura de cordel, do ponto de vista teórico, a partir das pesquisas mais recentes: a) no campo dos estudos orais, com base nos pressupostos elencados por Milman Parry, Lord, Paul Zumthor, dentre outros; b) no campo dos estudos sobre o cordel, representados por uma nova geração de pesquisadores, dentre os quais citamos Rosilene Melo, Ana Galvão, Claudia Grangeiro, Francisca Santos, Maurílio Dias, Ria Lemaire, Gilmar de Carvalho, dentre outros; c) no campo dos estudos linguísticos, mais precisamente, os estudos em Análise do Discurso, representados por Patrick Charaudeau e Dominique Maingueneau.

Entendemos como trajetória enunciativa o percurso que a poesia de cordel vem fazendo desde a sua manifestação completamente oral, através do repente e da cantoria, passando pela escrita e impressão em gráficas no formato de folheto e chegando ao meio digital, figurando em sites especializados e blogs. Em tal trajetória, buscaremos perceber também a relação dessa evolução tecnológica pela qual passa o cordel e a sua estreita ligação com uma enunciação performática, sempre no intuito, dentre outras coisas, de ressignificar a poesia e o ethos do poeta.

118