A implementação do Registro de Saúde Eletrônico (RSE) na prestação de cuidados de saúde é uma das principais tentativas de modernização da Administração Pública e tem sido bem-sucedida, especificamente no contexto dos cuidados de saúde primários. Um grande número unidades de cuidados primários já inclui essa ferramenta, com recurso à aplicação aprimorada e unificada do sistema clínico, e o presente estudo mostra que a funcionalidade mais utilizada é o registro de sintomas, terapêuticas e/ou outros procedimentos clínicos. No entanto, 8,6% das unidades de saúde familiares (USF) incluídas nesta pesquisa ainda dispõem de aplicações tecnológicas e funcionalmente menos desenvolvidas como o Sistema de Apoio ao Médico (SAM) e o Sistema de Apoio à Prática de Enfermagem (SAPE). A desmaterialização dos processos, apesar de ser um objetivo da estratégia do Ministério da Saúde, não é total uma vez que o suporte papel ainda continua a ser usado, preferencialmente, para o acesso à informação partilhada por outros utilizadores (ex: relatórios e/ou exames, etc.). De entre os profissionais de saúde incluídos, 17,1% ainda utilizam ambos o suporte digital papel como ferramentas para a gestão e prestações dos cuidados de saúde.
No que concerne à operacionalidade do RSE, especificamente a aplicação Sistema clínico, a maioria dos participantes caracteriza-o como uma ferramenta com linguagem simples (91,4%), organizada (68,6%) e com funcionalidades facilmente acessíveis (65,7%), facto que pode ser o reflexo da inclusão de agentes relevantes na prestação de cuidados de saúde em todo o processo de construção do RSE. Contudo, quer a nível quantitativo, quer a nível das observações qualitativas da amostra, verifica-se que a ocorrência de falhas e erros ainda afetam a prestação de serviços e que a procura de soluções a esse nível poderá melhorar a sua funcionalidade e o sucesso de implementação. No sentido de compreender o impacto do RSE na qualidade assistencial nos cuidados primários foi analisada a perceção dos profissionais que lidam diariamente com o utente e com as funcionalidades do sistema. Os resultados mostram que os prestadores globalmente não conseguiram posicionar-se relativamente ao impacto do RSE na qualidade assistencial. As respostas foram muito divergentes e não foi obtido consenso global moderado entre os profissionais nem para as contribuições (W=0,132), nem para as limitações (W=0,444) inerentes ao registro. Do ponto de vista quantitativo, foi visível apenas o reconhecimento pela maioria dos profissionais inquiridos da importância do sistema enquanto fator que “reforça a proteção/segurança da informação clínica” (62,9%), que “promove a normalização das nomenclaturas” (57,1%) e não aumenta os custos financeiros (65,7%). Isto vai de encontro às expectativas e previsões da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS 2009). No entanto, contrariamente aos resultados obtidos nos estudos de
39 Wang, Yu e Hailey (2013), nos cuidados primários, a melhoria da qualidade e rigor dos registros parece não ser considerada como uma clara contribuição do RSE. Quer ao nível dessa variável (54,3%), quer ao nível da facilitação do acesso e gestão de processos clínicos (60,0%), da promoção do controlo organizacional (57,1%), da interoperabilidade dos dados (62,9%) e da melhoria da gestão da prescrição médica (51,4%), a principal classificação atribuída foi “não concordo, nem discordo”. Isto denota uma indecisão a esse nível. Na base destes resultados menos expressivos pode estar, sobretudo, a dificuldade dos profissionais de saúde associarem estes aspetos específicos com uma consequência direta na qualidade da assistência.
Pelas observações qualitativas, verificou-se que no entendimento de alguns profissionais o RSE é visto como uma mera ferramenta de trabalho, numa perspetiva de utilizador, ou apenas relevante para a qualidade do serviço prestado ao utente na fase de implementação do sistema e consequente transição do papel para o formato digital. Esta questão vai de encontro ao que defendem Barbosa e Forster (2010) que reforçam a importância da perceção do utilizador nas avaliações da utilidade de sistema e apontam a falta de instrução e treino com um fator que implica um desconhecimento das funcionalidades e consequente utilidade de um sistema de informação. Sendo o sistema clínico uma aplicação relativamente recente, esses fatores também podem estar na base destes resultados inconclusivos. Apenas alguns prestadores, reconhecendo o seu impacto contínuo no melhor atendimento ao utente, tendem a avaliações mais positivas das contribuições do registro e reforçam a importância do RSE sobretudo na “celeridade do atendimento” e na “facilitação da comunicação entre profissionais”.
Ao nível das diferenças de perceção entre grupos profissionais, nomeadamente médicos e enfermeiros, os resultados não assumem relevância estatística para a maioria das variáveis. Apenas uma diferença é encontrada na avaliação do RSE como um fator que “aumenta os custos financeiros”. No entanto, ambos os profissionais discordam dessa sobrecarga, associada aos eventuais custos adicionais desse tipo de registo. Assim, de acordo com os resultados obtidos e com as orientações de Fernandes (2003) a curto e, sobretudo a longo prazo, a desmaterialização da informação clínica e todos os procedimentos inerentes, com recurso às TIC, trazem vantagens económicas e melhores indicadores de gestão. Olhando para medidas de tendência central, a avaliação dos médicos é mais positiva comparativamente à dos enfermeiros, verificando-se uma maior concordância com impacto do sistema sobre aspetos da qualidade assistencial, tomando como exemplo o rigor dos registos clínicos, o apoio à tomada de decisão, a celeridade, a facilitação da comunicação e a gestão na prestação médica.
40 A frequência de utilização do sistema parece não ser um fator determinante na avaliação do impacto do RSE, 88,6% utilizam-no sempre na sua atividade clínica. No entanto, uma maior frequência de uso na prática clínica apenas se associa a uma maior conscientização da facilitação da mobilidade internacional dos doentes por meio do registro e dos custos financeiros associados à implementação e manutenção, aparentemente não superiores comparativamente ao suporte papel.
Os resultados desta pesquisa tornam ainda mais clara a noção das barreiras à implementação eficiente de um RSE, na perspetiva de quem trabalha todos os dias na sua atividade profissional com o sistema. A resistência dos profissionais é o fator mais referido entre esta população e baseia-se na necessidade de “mudança” que imprime a implementação de RSE ou a sua atualização. O seu sucesso está também dependente, de acordo com Ribeiro (2009), do compromisso, empenho e interesse dos utilizadores e/ou profissionais de saúde e a própria qualidade assistencial depende desse fator. Aliada a essa questão foram apontados pelos profissionais outros fatores como a inexperiência, reduzidos conhecimentos tecnológicos e falta de instruções para a utilização, barreiras também reconhecidas na literatura (Marin et al. 2003). Estas barreiras, em particular, podem ser facilmente colmatadas no sentido de promover o melhoramento da informatização em saúde no contexto dos serviços de saúde primários, mas também como uma oportunidade de melhoria global.
Em última análise, na perspetiva dos prestadores, um RSE que unifica a rede pública e privada de uso internacional é uma necessidade vigente para um serviço de saúde de maior qualidade. A criação da Plataforma de Dados de Saúde (PDS) pode não estar a satisfazer por completo essas necessidades para a transmissão de informação. O recurso ao papel continua a ser o principal meio alternativo. Assim, este facto apesar de não constituir uma barreira direta à implementação, impede que seja atingido integralmente o objetivo de desmaterialização do material clínico que o Plano para a Transformação dos Sistemas de Informação Integrados da Saúde (PTSIIS) procura atingir.
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