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A construção teórica dentro da esfera construtivista implica a procura de entendimento da “realidade”, enquanto construção social e histórica (Creswell 2009, 6). A presente tese constitui uma edificação sobre perspetivas filosóficas de cariz implícita ou explicitamente construtivista (Charmaz 2006, Morton 1989), sofrendo influências desta corrente a dois níveis distintos. Ao nível do objeto, o enfoque na ideografia da comunidade sublinha a noção de construção do real. Ao nível da metodologia, a posição do investigador é definida, também ela, como a posição de alguém que lê, interpreta, enfim, constrói.

A aceitação de uma posição interpretativa por parte do investigador não significa a procura da relativização, no sentido de aceitação de qualquer perspetiva como válida, mas sim a possibilidade de uma multiplicidade de enfoques sobre a realidade. Ao assumir-se a realidade como uma construção múltipla, é partilhada com Creswell a atenção aos perigos do enviesamento que o investigador qualitativo pode importar para a sua investigação, pela influência de paradigmas, posições filosóficas ou perspetivas pessoais que podem condicionar o desenho de pesquisa em si mesmo (Creswell 2007, 15).

Entende-se, ao longo da presente tese, que parte da solução para os perigos do enviesamento reside no conhecimento, pelo próprio investigador, dos enviesamentos existentes. Em linha com Stake, aceita-se que o reconhecimento da influência de obras e autores no pensamento do investigador é uma forma de reconhecimento para com os autores, mas é também, e sobretudo, a demonstração do “mundo” do investigador (Stake 2010, 104-114). Assim, a atenção para com a relevância da opção teórica do investigador, que é acautelada e profusamente apresentada nos capítulos II, III e IV, tenta expressamente demonstrar as balizas teóricas que norteiam o trabalho de investigação no âmbito de um dado paradigma.

O cuidado com a clarificação da posição e influência sofrida pelo investigador segue a proposta de Cooper e White, que defendem que a elaboração do mundo sob uma estrutura relacional que é auto ou hétero definida existe em concordância com “pressuposições, conceitos ou princípios” (Cooper e White 2011, 15). Se uma das formas de evitar os enviesamentos decorrentes do enquadramento em princípios e pré-conceitos é conhecer esses mesmos enviesamentos, uma outra forma, aparentemente oposta, consiste em recusar e eliminar esses princípios e pré-conceitos.

Dey advoga a eliminação de princípios e pré-conceitos. O autor sugere que a análise do mundo dentro de paradigmas pode limitar e condicionar o reconhecimento de dados, ou até mesmo deturpá-los (Dey 2005, 65). Para Dey, a solução para o real conhecimento, exige a abstenção de pré-conceitos, sendo esta a única forma capaz de ultrapassar a limitação do conhecimento (Dey 2005). O afastamento dos paradigmas, que Dey defende como caminho para o verdadeiro conhecimento, indica a possibilidade de desconforto e instabilidade para o investigador. A perspetiva do desconforto implica, no entanto, que a realidade seja um lugar conhecido e reconhecido em que o investigador se “sinta confortável”. A capacidade de aceitar que “reality (and the truth) is not tidy” (Gillham 2000, 10) potencia a possibilidade de conhecimento.

A via média, isto é, a defesa do equilíbrio entre a tabula rasa de Dey e o enquadramento de Cooper e White, prefigura uma aproximação “informada” da realidade mais eficaz. O presente trabalho aceita, ao mesmo tempo, a posse de um enviesamento consciente, e um processo de recusa de pré-conceitos. O viés consciente é notório quando se assume, por

exemplo, uma visão construtivista do objeto. A recusa de pré-conceitos surge ao nível da análise de dados que, como será explicitado (ver capítulo IV), privilegia uma lógica indutiva. Numa análise indutiva, o privilégio é entregue aos dados tal como eles surgem. Uma das vantagens desta postura é a possibilidade de generalização posterior, que, não sendo o principal foco, permite estabelecer teorias ou paradigmas em temas/campos/áreas de estudo similares (Cooper e White 2011, 7).

A investigação desenvolvida nesta tese é operacionalizada através de uma análise qualitativa de dados (Ryan 2010). Dada a natureza da documentação compulsada, a opção pela análise qualitativa representa a opção por uma metodologia com uma capacidade de refinamento superior à análise quantitativa, ultrapassando a mera contabilização ou enumeração. A defesa desta opção aceita a necessidade de um processo capaz de identificar claramente componentes no espaço heterogéneo dos dados (Dey 2005, 31) e garante a defesa de uma ciência social que procura a realidade através de inferências descritivas (King, Keohane, e Verba 1994). A opção pelo trabalho qualitativo partilha também com Cooper e White a perspetiva de que a pesquisa qualitativa “(…) considers reality not as a fixed, objective, and constant construct but as a more fluid, ephemeral, and ever-changing thing” (2011, 6).

Na investigação qualitativa, o papel ativo e determinante do investigador na recolha e análise de dados implica mais um cuidado com a condução da investigação e a integridade da mesma, que um cuidado com a produção de “verdade segura” (Cooper e White 2011, 6). A demonstração dos passos realizados, desde a formulação da questão de investigação até à seleção, recolha e tratamento das fontes e dados, procura assegurar a limitação do enviesamento do investigador, assim como garantir a qualidade da investigação desenvolvida (Chenail 1995). Na presente tese, o desenvolvimento concetual do investigador é devedor da opção epistemológica referenciada ao longo dos capítulos II, III e IV desta tese.

Quanto ao enquadramento da investigação no período temporal 1945-1960, é aceite, neste trabalho, que tal janela temporal constitui uma barreira mental que pode implicar condicionalismo na pesquisa. Simultaneamente, a proximidade desse mesmo período temporal dificulta ao investigador uma visão “pura”. Esta proximidade é a realidade d o

caso em estudo, dada a ainda tão presente repercussão do regime do Estado Novo na sociedade portuguesa.

O desenho de pesquisa da presente tese sustenta-se numa pesquisa dupla. É desenvolvida uma pesquisa de dados, sobre documentos escritos com origem na obra “Discursos” de Salazar, onde se aplica o método “grounded theory” (ver capítulo IV), e é desenvolvido um estudo histórico de cariz demonstrativo e narrativo, baseado em documentos institucionais e relativo à questão dos cidadãos alemães em Portugal, no pós II Guerra Mundial. Este segundo estudo representa em si mesmo um “caso” de dimensão “única” (ver capítulo IV). A análise qualitativa implementada é assim pensada de forma a possibilitar um estudo profundo da “realidade” da construção ideográfica e o subsequente confronto desta com um elemento funcional do Estado português, implementado na prática.

O estudo central desta tese incide, como foi dito, na análise dos documentos coletados na obra “Discursos” de António Oliveira Salazar no período 1945-1960, e o estudo secundário recorre a documentos públicos de acesso condicionado, oriundos de variadas organizações estatais e concentrados principalmente no arquivo histórico-diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. As fontes primárias aí incluídas são produzidas no âmbito de funções formais e estatais, o que coloca as fontes no mesmo nível de produção, no que diz respeito à sua origem. Ou seja, foi procurada a utilização de fontes com o mesmo peso e representatividade, de forma a não limitar ou enviesar a análise realizada.

A utilização dos documentos contidos na obra “Discursos” de António Oliveira Salazar repousa na ideia de que a incorporação do “zeitgeist” de Portugal em cada português cria um elemento comum e transversal na comunidade que constitui Portugal. Os “Discursos” de Salazar são assumidos aqui como representação da “voz” oficial do pensamento oficial do regime português. O autor dos documentos contidos na obra “Discursos” é o mentor do regime, o que potencia a possibilidade de investigação relevante. Conforme se esclarecerá no capítulo IV, o recurso ao método “grounded theory”, enquanto método distanciado de um positivismo clássico, é capaz de potenciar a investigação que procura reconhecer a construção do tecido da realidade. A obra “Discursos” representa um agrupamento de conceitos que, de forma propositada e situada, de forma implícita,

explícita ou ausente, revela a representatividade das opções e decisões que marcam as relações internacionais portuguesas para o período. A defesa desta posição parece ir ao encontro do pensamento de Foucault, quando afirma que “(…) o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar” (Foucault 1999, 10). A análise ideográfica baseada na construção manifestada em documentos oficiais realizados pelo líder de um regime significa a verdade? Uma verdade? Uma mentira? Se a construção e a existência de tais documentos representam uma seleção desejada que responde a questões temporalmente situadas, a inexistência de dados acontecimentos representa em si mesma uma inação. Porém, tal análise não comporta validade científica, já que a interpretação pelo investigador de tais elementos poderia desvirtuar e mesmo contrariar a realidade. A análise é estabelecida sobre os elementos existentes, sobre os indicadores indiretos, mas não sobre os elementos não declarados. Esta posição tem uma ligação à argumentação de Waever quanto à inseparabilidade da relação entre o ator e a mensagem (Waever 2009, 165), que é estabelecida dentro de uma “realidade” partilhada.

A seleção do corpo documental não representa a ambição de analisar uma construção de poder dividida entre os que dominam e detêm esse mesmo poder, e os que, não detendo capacidade de luta pelo poder, apenas podem resistir-lhe (Chilton e Schäffner 2002, 5). O corpo documental não deixa, no entanto, de representar a ligação a uma realidade cultural temporalmente específica. A especificidade cultural e temporal é acautelada pelo investigador, que segue neste ponto o pensamento de Boas. O autor apelava à necessidade de perceber a escala normativa que está necessariamente relacionada com o enquadramento específico que uma “civilização” estabelece num dado momento e espaço. Para o autor, a especificidade de uma “civilização” obriga a reconhecer o risco de que a aplicação de uma análise, sem ajuste das lentes entre o sujeito e objeto, retorne uma realidade alterada e manipulada (Dall e Boas 1887, 589).

Uma das fórmulas usadas nesta tese para minimizar o enviesamento do investigador é estabelecida pela triangulação e validação da análise realizada aos “Discursos” com a implementação de um estudo histórico de caso extremo. Esse estudo tem por foco a resposta institucional à existência de refugiados alemães, logo no final da II Guerra

Mundial em Portugal. O caso alemão foi investigado com recurso à produção de informação que a atividade burocrática das variadas organizações do Estado português desenvolveu nesse período. Tais fontes estão sob acesso restrito e arquivístico. Mas como pode tal estudo histórico e institucional representar um vetor de triangulação e validação para a análise ideográfica realizada?

É assumido que as instituições, sendo compostas por pessoas, podem executar, e executam, interpretações das diretrizes emanadas politicamente pelo governo. A análise do processo alemão, no contexto da relação do Estado português com os demais Estados, centrada na resposta interna a esse tema, representa um elemento de despistagem entre uma existência desejada e a realizada. O estudo desse caso específico pretende, assim, fazer confrontar a prática e a teoria, ou seja, a execução no terreno de opções que podem confirmar, ou não, a leitura ideográfica que a investigação do estudo principal propõe.

O espaço e importância dados à metodologia na presente investigação são encarados como “a priori” da qualidade do modelo de pesquisa. Porém, a atenção para com a metodologia não é encarado como um “valor em si mesmo”. Em linha com Krippendorff, defende-se apenas ser necessario que o investigador detenha a possibilidade de “(…) plan and examine critically the logic, composition, and protocols of research methods”

(Krippendorff 2004, XXI), viabilizando a demonstração da sua capacidade técnica e a

defesa do desenho de pesquisa, e representando um controlo da qualidade necessaria e desejada no estabelecimento do “contributo para o conhecimento” (Krippendorff 2004, XXI).