Novos estudos têm descrito os territórios do desejo e sua importância para a epidemia da aids (BELL & VALENTINE, 1995), afirmando que diferentes estilos de vida homoeróticos criam territórios culturais, políticos e sociais. Pensar em papéis sexuais nos remete então às diversas identidades, diferentes redes
relacionais, cenários culturais e na delimitação de territórios. “Um conjunto de trabalhos está emergindo na geografia que explora a performance das identidades sexuais e o modo como elas se inscrevem no corpo e no território.”(BELL & VALENTINE, 1995, p.8) Os autores citaram o estudo de Levine (1979a) que mapeou os guetos gays, os estudos de migração de gays de Lyod e Rowntree (1978), o estudo de Weightman (1980:9) sobre bares gays que assumiam características dos grupos gays, ou ainda o estudo de Gagnon e Simon (1967) sobre a práticas sexuais em bares gays, o estudo de Lynch (1987) sobre a dificuldade de gays do subúrbio em terem acesso à informações e serviços voltados para homossexuais.
Discutir os territórios de vulnerabilidade nos remete à noção de papéis sexuais, cenários e identidades. Os espaços sociais são ocupados por grupos de indivíduos que se relacionam, que compartilham características em comum ou não, em interações subjetivas especiais de cada cena sexual (PAIVA, 1996, 1998, 2000). Os territórios e cenários sexuais aos quais as cenas sexuais estão referidas vão produzindo comportamentos e atitudes, numa relação dialética entre cenário, identidades e seus atores. Como diriam Bell & Valentine “existem muitos outros territórios do desejo reais, imaginários e fictícios que têm um papel importante em modelar as identidades sexuais (...) qualquer identidade sexual pode assumir um espaço, e um espaço pode assumir qualquer identidade sexual.” (1995, p.18). Observamos a diversidade de atores que se misturam nos locais de sociabilidade, pois o intercâmbio é uma característica importante no gueto gay. As subculturas sexuais ocupam esses espaços, que se tornam locais de interações entre pessoas do mesmo sexo (PARKER, 2002).
Perlongher (1987) definiu os territórios como pólos relacionais.
“Os diversos pólos e categorias funcionariam como pontos de ‘reterritorialização’ na fixação a um gênero ou a uma postura determinada; fixação que manifestar-se-á na adscrição categorial e, correlativamente, na aparência gestual e discursiva, indícios de um desempenho sexual esperado ou proclamado.” (PERLONGHER, 1987, p.151).
Segundo Perlongher (1987), a circulação homossexual ocupou determinados espaços dentro da cidade, delimitando territórios. Esses espaços foram ocupados de acordo com uma identificação com as normas vigentes dos grupos que freqüentavam tais locais. Por exemplo, em São Paulo até os anos 70 o gueto se limitava à região central da cidade. Nessa mesma região diferentes
territórios foram identificados pelo autor: a área Ipiranga que era composta pelas Av.Ipiranga, São João, Largo do Paissandú, Av. Rio branco e os banheiros da praça da Sé, que eram freqüentados principalmente por homossexuais de baixa renda; a área da São João com a Ipiranga, com a circulação dos michês (garotos de programa) e entendidos e bichas-baby; a área da praça da República, onde se observavam diferenças sócio-econômicas pois a praça era um reduto para homossexuais pobres, mas com a instalação do Metrô foi criada uma nova área ocupada por homossexuais oriundos da “elite gay”, freqüentadores em geral da região da São Luis e Marquês de Itu; a área da Av. São Luís englobava a Pç. D.José Gaspar e R. Sete de abril, onde havia um bar “modernoso”. Essa área era freqüentada por homens com maior poder aquisitivo, identificados com outros padrões culturais e de gênero. “Esta ‘vontade de distinção’ a respeito de seus parentes pobres da Ipiranga expressa-se também na distribuição espacial dos diferentes gêneros homossexuais...” (PERLONGHER, 1987, p.117). A área da Marquês de Itú, junto com a Amaral Gurgel, foi ocupada pelos gays após as batidas policiais, mas depois migraram para a Rui Barbosa pois os michês e os travestis começaram ocupar esse espaço. Após algum tempo a Vieira de Carvalho foi ocupada pelos gays de classe média e com a expansão dos estabelecimentos comerciais para outras regiões da cidade, o Jardins se estabeleceu como um novo território dos gays.
Perlongher (1987) descreveu uma diferenciação de tipos de michês, mas em seu estudo também definiu os diferentes tipos de homossexuais, que assumiam diferentes papéis de gênero e classe, que ocupavam territórios dentro da cidade. “...as diferenças de classe originárias se reinterpretam e subsumem em diferenças de pontos, que são também diferenças quanto ao estilo, ao gênero, ao tipo de clientela, ao preço, etc.”(PERLONGHER, 1987, p.122).
Esse contraste social ficou mais delimitado após a abertura de bares e boates no Jardins, a boca do luxo, sendo o Centro definido como a boca do lixo. Novas perspectivas surgiram, com a proliferação de códigos e significados dentro desses territórios. Não necessariamente freqüentar a boca do luxo significava ser de classe social mais elevada, mas sim ter uma identificação com a subcultura vigente nesse grupo, ou até uma falsa sensação de ascensão social fugindo de “...um aparelho de captura mais ‘tradicional’ para outro mais moderno...”
(PERLONGHER, 1987, p.127). pois os critérios de classificação seriam outros. No novo modelo de identificação gay, alguns fatores eram valorizados, tais como a masculinidade, a juventude (que expressaria o valor erótico do corpo e da masculinidade) e o papel de gênero (assumindo papéis masculinos ou femininos). Freqüentar diferentes locais poderia então ser um fator fundamental nos papéis socialmente assumidos, segundo Perlongher (1987), gerando novos códigos de conduta, regras sociais e identidades. Os papéis assumidos nessa rede relacional estariam de acordo com a sua ocupação territorial. Nessa perspectiva a identidade não teria tanta importância e sim os códigos relacionais ou papéis assumidos nesses territórios.
“Essa nomenclatura classificatória – que tem alguma coisa de provisória, de mutável – alude a certa freqüência de circulação: o grau de fixação dos agentes a um ‘ponto’ (um gênero, uma postura, uma representação, mas também uma adscrição territorial) será determinante para estabelecer seus lugares no sistema de trocas.” (PERLONGHER, 1987, p.153).
Segundo Perlongher (1987), durante a paquera o olhar é um sinal importante de comunicação e estabelecimento de contato, para o reconhecimento do outro, em seu contra-papel. “A rua, ‘o microcosmo da modernidade’ (Lefebvre, 1978) torna-se algo mais do que mero lugar de trânsito direcionado ou de fascinação espetacular perante a proliferação consumista: é, também, um espaço de circulação desejante.” (PERLONGHER, 1987, p.156).
Segundo Bell e Valentine (1995), as áreas urbanas privilegiaram esse tipo de agrupamento por terem uma população maior e garantirem o anonimato e a heterogeneidade. A diversidade de subculturas sexuais e de papéis desempenhados é observada claramente, e os autores citam estudos que descrevem a corporeificação dessas subculturas. “Geógrafos sociais e culturais reconheceram agora que o corpo é politizado (P.Jackson 1993; Pile 1993) e encaram isso como um lugar de resistência e contestação (Dorn and Laws 1994).” (BELL & VALENTINE, 1995, p.9).
A estrutura espacial das grandes cidades proporcionou a ocupação desses territórios. Segundo Knopp (1995, p.149) “Cidades e sexualidades, ambas modelam e são modeladas pelas dinâmicas da vida social humana. Elas refletem os modos pelos quais a vida social é organizada, os modos pelos quais é representada, percebida, entendida, e os modos pelos quais vários grupos lidam e
reagem à essas condições.” Os movimentos sociais e as comunidade são influenciados pela dinâmica das grandes cidades e acabam se tornando mais institucionalizados, de forma a criar códigos sexuais e a realidade é experienciada de acordo com esse cenário cultural. Observa-se uma maior abertura dos espaços urbanos para diferentes expressões da sexualidade, em função das influências culturais e econômicas do mundo ocidental industrializado e globalizado, tais como bares, boates, salas de cinema pornô, saunas, e mais tarde, os quartos escuros nas boates. (PARKER, 2002).