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Methodological considerations

2. BACKGROUND TO THE THESIS

2.1 Methodological considerations

Estás vendo esta alucinação? Feia ela se foi deitar, de manhã fez-se bela por si mesma e agora se dedica a extravagâncias. Fiques sabendo, então, que as mulheres assim que acordam vestem uma cara, um colo e duas mãos, e só depois as roupas. Tudo aquilo que vês é botica, não uma obra da natureza. Vês os cabelos? Pois bem, ela os comprou, não cresceram dela. (...) Que espetáculo uma feia ou uma velhusca pretendendo (...) ressuscitar com uma ampola! Tu as admiras? Pois bem, nada é delas; se lavassem o rosto não poderias reconhecê-las. Desconfiam do próprio corpo e quando querem excitar algum nariz, entregam-se de imediato às essências, às fumigações, aos perfumes e até dos pés dissimulam o suor dos sapatinhos de âmbar.

Esse trecho da obra do poeta barroco Francisco Gómez de Quevedo, de 1612, reproduzida por Eco (2007: 173) pode ser facilmente confundida com um trabalho contemporâneo. Assim como a personagem, que é bela à custa de botica, o indivíduo “normal” pode modificar sua aparência e tem à disposição produtos capazes de transformar seu corpo. Mas, diferentemente do século XVII, quando se passa história de Quevedo, pode-se atualmente fazer bem mais do que se embelezar, é possível recriar o próprio corpo. O mercado disponibiliza um arsenal de produtos e serviços que, a depender da submissão do indivíduo à força normatizadora, vai desde um novo corte de cabelo até uma metamorfose da silhueta e da face. Assim, mais do que “embalagem e propaganda dos nossos genes”, como definido por Miller (2012: 179), o corpo exibe o que indivíduo deseja e é capaz de fazer com sua aparência.

A partir da industrialização, “ganha forma uma religião estética segundo a qual a beleza é o único valor que deve ser realizado”, analisa Eco (2007: 350). Em meados do século XX, como resultado do avanço tecnológico que abastece com inovações a indústria dos cosméticos e a

65 medicina estética, a transformação do corpo se consolida como fenômeno social. E, chegando à atualidade, Goldenberg e Ramos (2007: 25) argumentam que vivemos uma época de “glorificação do corpo”, que é cada vez mais exposto publicamente e, portanto, exige maior controle da aparência física.

Neste debate sobre o culto ao corpo, Costa (2004: 19) argumenta que “a medida ética do interesse pelo corpo” está no significado que isto assume: “Se o interesse pelo corpo começa e termina nele, caímos na corpolatria, forma de ascese humanamente pobre e socialmente fútil. Se, ao contrário, o interesse toma a direção centrífuga, volta-se para a ação pessoal criativa e amplia os horizontes da interação com os outros”. Assim, se por um lado, o interesse pelo corpo pode gerar transtornos de imagem e estigmatização, por outro, nos levou a viver mais tempo, tendo a velhice deixado de significar mera sobrevivência.

Para Bordo (2003), a cultura de consumo transmite ao indivíduo uma mensagem dúbia sobre a gestão do corpo na medida em que incita a autoindulgência – dizendo, por exemplo, que é preciso se permitir saborear uma barra de chocolate – mas, ao mesmo tempo, enaltece a autodisciplina de quem tem uma alimentação saudável. Diante dessa instabilidade, encontramos em Machado e Pereira (2010) a ideia de que o cuidado do corpo é principalmente uma obrigação social, relacionado à recompensa e legitimação. Bourdieu (2007: 194) reforça essa premissa ao afirmar que a boa aparência tem um valor “mercantil”, sendo os esforços para obtê-la revertidos em benefícios:

...a atenção que lhe prestam e a consciência que têm dos ganhos que ela [a apresentação de si] traz, assim como os investimentos de tempo, esforços e privações, cuidados que a elas lhe dedicam, realmente, são proporcionais às oportunidades de lucros materiais e simbólicos que, de uma forma razoável, podem esperar como retorno.

Lançando mão das ideias de Foucault (1991) em Vigiar e Punir, podemos considerar que o poder é exercido pelo mercado e os corpos dóceis são aqueles construídos segundo os ideais de beleza. “As motivações, ou condicionantes sociais, levam os indivíduos contemporâneos a cultuarem os próprios corpos e perseguirem um ideal estético estabelecido socialmente”,

66 assegura Castro (2004: 107). Por mais belo que seja um corpo, há sempre espaço possível para transformação no sentido de atender a algum padrão estético. Cada vez mais jovens, os indivíduos enxergam marcas do tempo do rosto; os magros quem ficar ainda mais magros; seios pequenos estão deixando de existir; e até mesmo os dentes e as axilas se tornaram alvo de atenção. Os dentes devem ser rigorosamente alinhados e de um branco cristalino, enquanto a pele das axilas femininas precisa ser “lisinha” e ter a tonalidade homogênea. Os exemplos se multiplicam. Neste aspecto, conforme Bordo (2003), o conceito de “normalidade” vem sendo redefinido pelas imagens da comunicação de massa e pelos cirurgiões plásticos.

Mesmo as classes mais populares vêm sendo impactadas, com a oferta de produtos e serviços segmentados e facilidades de pagamento que levam a motes de comunicação semelhantes aos do varejo de bens de consumo, tais como “Cirurgia plástica parcelada. Da maneira que você pode pagar” (CENTRO NACIONAL, 2013), conforme Figura 1. E, em sites de compras coletivas, ofertas de procedimentos estéticos se misturam às de restaurantes, viagens e de ingressos para teatro, conforme Figura 2. Tais exemplos ilustram a colocação de Bordo (2003), de que os procedimentos estéticos estão cada vez mais baratos, e até mesmo mais seguros, tendo passado a ser usados não apenas para correções importantes, como também para reparar pequenos “defeitos”.

Figura 1 – Oferta de preços e condições de pagamento para cirurgia estética de mama Fonte: www.centronacional.com.br

67 Figura 2 – Oferta de procedimentos estéticos em site de compras coletivas

Fonte: www.peixeurbano.com.br

Mais ainda, comparando a transformação do corpo à compra de um carro ou de um imóvel, existem ofertas de financiamento de cirurgia plástica por meio de consórcio – ou seja, o cliente paga o plano todos os meses e faz a cirurgia quando é sorteado, dá um lance maior do que os demais participantes ou termina seu prazo de pagamento. Sim, esse é um produto financeiro disponível no mercado!

68 O mundo estético ganhou uma novidade, trata-se do Consórcio para Cirurgia Plástica. Muitas pessoas sonham em fazer algum tipo de Cirurgia Plástica no seu corpo, desde pequenas alterações até mudanças radicais. Normalmente esse tipo de cirurgia tem um valor muito elevado, foi pensando no preço alto que foi criada a modalidade do consórcio para Cirurgia Plástica feitos por muitas clinicas médicas atualmente. Geralmente os consórcios não cobram juros sobre o valor do bem que vai ser adquirido, o que é cobrado é uma taxa de administração, o que torna a modalidade mais atrativa do que um financiamento ou empréstimo. Mas tudo tem a sua desvantagem, no caso do consórcio o cliente só vai poder usar o beneficio quando der o melhor lance mensal ou for sorteado para ser contemplado. No Consórcio de Cirurgia Plástica funciona do mesmo jeito, o paciente só marca a cirurgia depois que é contemplado por meio de sorteio ou lance. (http://www.embracon.com.br/noticias/consorcio-para-cirurgia-plastica)

Uma comunicação no sítio do Conselho Federal de Medicina (CFM) informa que, no primeiro semestre de 2012, os consórcios de saúde e estética foram responsáveis por cerca de 16% das cartas de crédito concedidas. Este dado, bem como os descontos exagerados encontrados em grupos de compras coletivas, são considerados preocupantes pelo Conselho: “Via de regra, empresas/clínicas/financeiras objetivam lucros sobre o trabalho médico, e fazem do paciente um mero objeto” (CFM, 2012)

A julgar por números do mercado de moda e beleza no Brasil, são muitos os que aderem à ideia de que é preciso investir na aparência, como indicado no Quadro 1, a seguir:

69 Quadro 1 – Informações sobre o mercado de moda e beleza no Brasil

Fonte: A autora

A ABHIPEC (2012) atribui o crescimento do setor a fatores como (1) aumento da renda das classes C, e D; (2) crescente participação da mulher no mercado de trabalho; (3) utilização de tecnologia de ponta que permite o aumento da produtividade e favorece melhores preços; (4) novos produtos que atendem necessidades diversas e (5) aumento da expectativa de vida, em paralelo ao desejo de manter uma aparência jovem.

70 Acreditamos que os dados apresentados no Quadro 1 ratificam a proposição de Sant´Anna (2005: 31) de que “somos estimulados a cuidar do corpo com a mesma obsessão que um monge cuidaria de seu espírito”. E, sendo o culto ao corpo um fenômeno global, observa-se que as referências de beleza próprias de cada cultura são cada vez menos relevantes na construção do padrão ideal, que é decidido conforme as exigências do mercado (JONES, 2010). Podemos citar, por exemplo, o clareamento dos cabelos como fenômeno mundial, capaz de transformar mulatas e orientais em mulheres aloiradas. E, notadamente em relação aos efeitos do tempo sobre o corpo, sabemos que os sinais da velhice – como cabelos brancos e rugas – não são mais inevitáveis conforme se avança em idade.

A solução deste problema – assim como a recusa em ver nos cabelos brancos um problema – é uma escolha do indivíduo e, dessa forma, é fruto de sua capacidade de refletir e agir sobre si mesmo. Há, por exemplo, muitas pessoas que, para esculpir o corpo, desconsideram o risco de uma cirurgia; para alisar o cabelo, ignoram que o uso de formol não é autorizado pela Vigilância Sanitária, pelos danos que pode causar à saúde. Isso se coaduna à argumentação de Giddens (2002) de que, para ter certo estilo de vida, são aceitos alguns riscos – que, inclusive, podem gerar euforia. Podemos também estabelecer correlação entre estas ações sobre o próprio corpo e a teoria da sinalização (MILLER, 2011:127), já que a transformação da aparência indica uma tendência do consumidor à autoexibição, assim como os animais que “fazem muito barulho em torno de si, mas não comunicam muitas novidades sobre o mundo”. Inferimos que práticas como tatuagem e piercing, por exemplo, representam sinalizações custosas, pois envolvem tanto custos financeiros, gasto de energia e tempo, como também alguma dor e risco físico.

Vale observar que culto ao corpo não é restrito ao universo feminino. Campbell (2001: 236) nos fala sobre os dândis, homens que, no início do século XIX, “levavam a vida desocupada dos cavalheiros, frequentemente com dinheiro emprestado”, mas tinham “obsessiva preocupação” com suas roupas e aparência em geral. Os dândis emulavam esteticamente, de forma notável, os hábitos e formas de vida da nobreza que os sustentava. Eram capazes de fazer escolhas e tomar decisões sobre sua aparência como se nobres fossem. Hoje, as academias de ginástica estão tomadas por homens que desejam um corpo forte e importantes fabricantes de cosméticos desenvolvem linhas específicas para eles. Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia

71 Plástica indicam que, de 2008 a 2012, o número de homens que buscam cirurgia plástica estética no Brasil aumentou de 5% para 30% (CAMPANA, FERREIRA e TAVARES, 2012). “É comum ver um homem ensaiando em frente ao espelho sua melhor expressão, ajeitando um colarinho, uma gravata, olhando-se de frente e de perfil, para confirmar se está tudo em ordem”, descreve Gonçalves (2004), que aponta como principais preocupações estéticas masculinas o sobrepeso e a aparência da pele.

Bordo (2003) argumenta que, há alguns anos, os homens heterossexuais chegavam a se orgulhar de sua “barriga de cerveja”, mas agora, sem receio de serem vistos como gays, eles se preocupam com flacidez, com definição de músculos, com peso, com a roupa que vestem etc. Schroeder e Zwick (2004: 21) estendem essa argumentação ao sugerirem que o consumo tem papel decisivo na construção, manutenção e representação dos corpos masculinos, que podem ser examinados “como um efeito discursivo criado no cruzamento de consumo e vários discursos de marketing como segmentação de mercado, publicidade e comunicação visual (...)”.

Observa-se que, para homens e mulheres, o cuidado com o corpo é uma estratégia discursiva ao prover legitimidade às práticas de transformação da aparência física. Tal estratégia discursiva é posta em ação através, por exemplo, de apelos ao bem estar e saúde que acompanham produtos e serviços de embelezamento. Kligman (2002: 72) afirma:

Os profissionais de marketing descobriram o potencial de crescimento dos seus produtos que vão além da visão tradicional que se tem dos cosméticos, isto é, de meros objetivos de decoração ou de camuflagem. Os produtos para tratamento da pele já podem ser vistos como medicinalmente ativos: estes realizam algo útil e benéfico. Suas fórmulas trazem bioativos que, embora não sejam medicinais, estão embasados em atributos funcionais mensuráveis.

Enquanto o processo de construção do eu no ambiente social é uma prática cultural relacionada à apresentação diante do outro, o culto ao corpo tem apelo hedonista, estando fortemente relacionado à proposta de “cuidar de si mesmo”, numa busca de melhor autoestima. Mas não seria o inverso: a boa autoestima é o que leva ao cuidado de si? Na visão de Crocker e

72 Nuer (2003), por exemplo, a autoestima não é algo que possamos perseguir, devendo esse objetivo ser substituído pela busca de satisfação em nossas necessidades humanas básicas.

Diante desse cenário, julgamos pertinente trazer a reflexão de Giddens (2002:158) de que, ao contrário da autoadmiração, o que existe é uma busca incessante de satisfação que leva a uma procura frustrada da autoidentidade. Tem-se tentado encontrar a si mesmo por meio de um narcisismo exacerbado, e esta “não é uma procura realizável”. Há quem faça cirurgia plástica ou tinja os cabelos porque crê que seu corpo não traduz seu eu, ou seja, porque “não se sente” daquele jeito. Depois, segue recorrentemente se transformando, procurando encontrar o corpo que melhor lhe cabe, no que parece ser uma busca sem fim.

Em consonância, Gimlin (2000: 94) defende que o corpo, mesmo transformado, continuará em desalinho com autoconceito do indivíduo: “Como grande ironia, as mesmas mulheres que são atraídas pela cirurgia plástica porque acreditam que o corpo é um indicador do self devem agora lidar com o fardo de que o corpo alterado é uma decepção, é uma representação não autêntica do self”. Thompson e Hirschman (1995: 143) citam, neste sentido, a visão dualista “do indivíduo como um self cuja verdadeira identidade não se restringe ao corpo que habita”.

A partir dos conceitos e reflexões levantadas neste referencial teórico, acreditamos ter legitimado a curiosidade que move o presente estudo que, como já citado, busca explicar o olhar dos indivíduos em relação a seus próprios corpos e como esse olhar se conecta à sua segurança ontológica, dentro de um contexto de normatividade estética definida pelo mercado. Seguimos, então, para o próximo capítulo, dedicado à apresentação e detalhamento da metodologia de pesquisa adotada para o levantamento dos dados primários deste trabalho.

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