Suely Trevisan Araújo & Maria Gil Lopes Maltez em seu artigo na revista Nexus, número 7, ano IV, 2000, fazendo uma retrospectiva histórica da formação a distância, colocam, em primeiro lugar, que “em sua forma embrionária e empírica é conhecida desde o século XIX, mas somente nas últimas décadas assumiu status que a coloca no cume das atenções pedagógicas de um número cada vez maior de países”.
Ainda, segundo as autoras:
Inicialmente na Grécia e, depois, em Roma, existia uma rede de comunicação que permitia o desenvolvimento significativo da correspondência. As cartas comunicando informações científicas inauguram uma nova era na arte de ensinar. Segundo Lobo Neto (1995) um primeiro marco da educação a distância foi o anúncio publicado na Gazeta de Boston, no dia 20 de março de 1728, pelo professor de taquigrafia Cauleb Phillips: "Toda pessoa da região, desejosa de aprender esta arte, pode receber em sua casa várias lições semanalmente e ser perfeitamente instruída, como as pessoas que vivem em Boston." Em 1833, um anúncio publicado na Suécia já se referia ao ensino por correspondência e na Inglaterra, em 1840, Isaac Pitman sintetiza os princípios da taquigrafia em cartões postais que trocava com seus alunos. No entanto, o desenvolvimento de uma ação institucionalizada de educação a distância tem início a partir da metade do século XIX. (ARAÚJO & MALTEZ, 2000, p. 6-7).
Em 1892, segundo Loyolla & Prates, William R. Harper, Reitor da Universidade de Chicago, tendo antes experimentado a utilização da correspondência na formação de docentes para as escolas dominicais, criou uma Divisão de Ensino por Correspondência no Departamento de Extensão daquela Universidade. As palavras do reitor, escritas em 1886, afirmam que:
Chegará o dia em que o volume da instrução recebida por correspondência será maior do que o transmitido nas aulas de nossas academias e escolas; em que o número dos estudantes por correspondência ultrapassará o dos presenciais. (LOYOLLA & PRATES, 2000, p. 6-7).
O desenvolvimento dos serviços de correio, a evolução dos meios de transporte e, acima de tudo, o desenvolvimento tecnológico aplicado ao campo da comunicação e da informação influenciou, de forma decisiva, os destinos da educação a distância.
Em 1922, a antiga União Soviética organiza um sistema de ensino por correspondência, que em dois anos passou a atender 350.000 usuários.
A França cria em 1939 um serviço de ensino por via postal para um contingente de alunos deslocados pelo êxodo. Como o rádio está, nesse momento, em grande desenvolvimento, começa, também ele, a ser usado no ensino formal da América Latina em países como o México, Brasil, Colômbia,Venezuela.
Para Araújo & Maltez:
A partir das décadas de 60 e 70, a educação a distância, embora mantendo os materiais escritos como base, passa a incorporar articulada e integradamente o áudio e o videocassete, as transmissões de rádio e televisão, o videotexto, o computador e mais recentemente, a tecnologia de multimeios, que combina textos, sons, imagens, assim como, mecanismos de geração de caminhos alternativos de aprendizagem (hipertextos, diferentes linguagens) e instrumentos para fixação de aprendizagem com feedback imediato (programas tutoriais informatizados), etc. (ARAÚJO & MALTEZ, 2000, p.8)
Já nos anos 1980, o ensino não presencial mobiliza os meios pedagógicos de quase todo o mundo, tanto em nações industrializadas como em países em desenvolvimento. Novos e mais complexos cursos são desenvolvidos, tanto no âmbito dos sistemas de ensino formal quanto nas áreas de treinamento profissional.
As novas tecnologias de informação e de comunicação como o vídeo, a televisão, a internet ganham espaços cada vez maiores, dispondo amplamente suas possibilidades em benefício da educação superior, média ou básica.
Otto Peters (2003), pedagogo e humanista, afirma que houve três períodos significativos na educação a distância, cada um deles “importante em suas funções especiais dentro dos então sistemas educacionais vigentes”:
(1) A instrução por correspondência, que acompanhou a industrialização do trabalho, preenchendo lacunas e compensando as deficiências do sistema educacional, especialmente no treinamento profissional, e facilitando o primeiro curso alternativo (um segundo) para a preparação para a entrada na universidade. (2) A educação a distância nos anos 1970, 1980 e 1990, que ajudou as universidades nos países industrializados e nos países em desenvolvimento a canalizarem um crescente número de alunos que não completaram o segundo grau para a educação superior. Não apenas expandiu a capacidade das universidades, como também desenvolveu novas formas da combinação de trabalho e estudo, introduziu estudos universitários regulares na educação de adultos e inspirou e efetuou importantes inovações pedagógicas. (3) A educação a distância informatizada, que nos permite reagir e lidar com as principais mudanças sociais mencionadas. Isso representa maior desafio no futuro. Ela agora irá assumir a maior importância, já que pode contribuir substancialmente por meio de suas abordagens, técnicas, estratégias, avanços para o desenvolvimento da universidade do futuro. Uma “reengenharia” (Collis, 1996, p.17) está na ordem do dia. (PETERS, 2003 p. 45-6, sublinhado nosso)
No Brasil, a educação a distância tem sido utilizada como recurso para corrigir deficiências educacionais, para a qualificação profissional e, ainda, para atualizar conhecimentos. Hoje, é também usada em programas que complementam formas tradicionais de ensino, como o ensino face a face, e é vista por muitos como uma modalidade de ensino substitutivo ao sistema regular de ensino presencial.
Em 2003, noticiava o jornal Folha de S. Paulo:
O Brasil tem atualmente 84.713 pessoas que cursam o ensino superior por meios virtuais, nas chamadas universidades a distância. Diante dos escassos investimentos feitos nessa modalidade de ensino no país, o número é representativo, segundo a Unesco. O dado é do primeiro censo feito no país sobre o tema, a ser divulgado hoje em um seminário realizado pelo Iesalc (Instituto Internacional da Unesco para a Educação Superior na América e no Caribe), no Equador. "O número total de alunos [que estudam virtualmente], ainda que modesto diante do contingente de pessoas matriculadas no ensino presencial [cerca de 3 milhões, segundo o MEC], tem significativa importância. No Brasil, não houve investimento público ou privado para a criação de universidades a distância nas décadas de 70 e 80, disse João Vianney, diretor de Educação a Distância da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina) e coordenador do levantamento. (FOLHA DE S. PAULO, 14-02-2003)
De acordo com o censo de 2003, 54.757 pessoas freqüentavam cursos virtuais autorizados pelo MEC e outros 21.141 estavam em cursos credenciados por conselhos
estaduais de educação. Os demais estudantes acompanhavam cursos em fase final de credenciamento.
Alguns exemplos da educação a distância são: a Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), que concentrava, em 2003, o maior número de alunos virtuais na graduação - 14.320 - e a Ufla (Universidade Federal de Lavras), que liderava o ranking de inscritos na pós-graduação - 8.500 alunos. Por outro lado, em 2005, o recurso é realidade em várias faculdades e universidades do país, que começam a colocar em prática até 20% da carga horária dos cursos regulares da graduação, com aulas ministradas a distância.
Segundo o jornal O Estado de S. Paulo (2005):
Não é possível saber quantas faculdades usam o método, já que o MEC não precisa dar uma autorização especial para elas. No entanto, os exemplos vão aparecendo e já chegam a algumas dezenas. Universidade de Brasília (UnB), Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Anhembi-Morumbi, UniFMU e algumas federais, como as da Bahia, Alagoas e Espírito Santo, estão entre as pioneiras. A Faculdade Sumaré é um exemplo de adesão total: aplicou os 20% a distância a todas as suas 15 carreiras. (O ESTADO DE S. PAULO, 6/11/2005, cad. A, p. 26)
Ressalve-se que há algumas regras a serem consideradas: a permissão é válida para todos os cursos superiores, desde que as avaliações sejam presenciais, o conteúdo deve ter uma pedagogia voltada para a internet e é obrigatória a presença de um tutor, assim como devem acontecer encontros regulares.
Outro exemplo de educação a distância, agora para professores do ensino fundamental, é o Centro de Formação Continuada de Professores do Ensino Fundamental (Cefor)4 da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais, que, no mês de março de 2005, esteve elaborando os cursos de desenvolvimento da educação especial com enfoque na área de ciências humanas, e metodologia do ensino de ciências humanas e sociais através de cursos a distância.
4 O Cefor integra a rede Nacional de Formação Continuada de Professores, iniciativa da Secretaria de Educação
A valorização do ensino a distância reside no fato de ajudar, define Peters (2003, p.6), no “difícil processo de romper com a tradição e planejar algo novo, mais relevante para a sociedade pós-industrial do conhecimento.”