Ao longo desse estudo as reflexões tecidas permitiram a compreensão sobre a possibilidade de desenvolvimento do pensamento criativo mediante a leitura literária. Por meio dos episódios destacados e analisados, foi possível reconhecer a relevância de privilegiar práticas que favoreçam o desenvolvimento do pensar criativamente, através da promoção de situações dialógicas, de interações e da exposição de ideias e pontos de vista, em situação coletiva.
Importante considerar que as conclusões aqui registradas não se restringem apenas a esse tópico, uma vez que elas estão diluídas em todo o corpo do texto, nas inferências elaboradas em cada item dessa pesquisa.
Retomando o caminho percorrido, iniciou-se o registro desse estudo assegurando que conhecer o grupo junto ao qual se vai atuar é necessário, pois influencia, diretamente, as estratégias e os modos de aproximação dos sujeitos.
Nesse sentido, esse olhar revelou que para se estabelecer relações significativas e exercer atividades de mediação de leitura é necessário conhecer os sujeitos, seus modos de ver o mundo, o que apreciam e também as práticas já existentes que pudessem ser reveladoras de algum indício de trabalho que favorecesse o pensamento criativo.
Pensar a literatura como um modo de promover a criatividade em contexto escolar foi preponderante ao se considerar a teoria do efeito estético, uma vez que à luz dessa teoria, a linguagem do texto literário revela mais do que pronuncia, e essa revelação é o seu verdadeiro sentido. O texto literário, portanto, está intimamente atrelado ao ato de representação do leitor. No ato de
representar, de inferir e de experienciar está envolto pressupostos do pensamento criativo, que são o pensamento divergente, a capacidade de perceber diversos pontos de vista e a capacidade de lidar com informações que não são tão precisas, como as informações do texto literário que sempre permitem um espaço de atuação para o leitor.
Outra necessidade do estudo foi conhecer o conceito de criatividade, em sua complexidade conceitual, demonstrando que a diversidade desse constructo sinaliza que algumas concepções ainda veiculadas sobre criatividade são evidências de vertentes clássicas que ressoam até hoje, como por exemplo, a compreensão de que a criatividade é um dom, uma inspiração e não uma característica de todos os sujeitos, como apontou os estudos de Vigotski (2009).
A escola sociocultural, nesse sentido, trouxe grandes contribuições ao considerar que a criação é uma condição humana, acrescentando que há uma ênfase coletiva e histórica no próprio ato de criar. Dessa forma, encontrou-se consonância teórica entre os postulados de Vigotski (2009) e De Masi (2005) ao salientarem a força do coletivo na dimensão criativa do homem. O que de certo modo concorreu para a concretização desse estudo, tendo em vista que a sua realização se deu em uma sala de aula, onde a interação é sempre uma atividade no coletivo, em que as várias vozes fertilizam o discurso polifônico do contexto escolar.
As teorias sobre leitura que abrangem a concepção de um processo complexo se mostraram eficazes, uma vez que situa o sujeito que lê em processo dinâmico, referencial e inferencial na atribuição de sentidos às marcas textuais. O entendimento sobre leitura, nessa linha conceitual, prevê atitudes cognitivas complexas do leitor mediante o texto a ser lido. O que favorece, também, a
promoção do ato de pensar atendendo as habilidades de antever, selecionar, elaborar, julgar, que são afins ao pensar criativo.
Assim, gerenciar as vozes, considerando a leitura de texto literário, revelou a importância da mediação pedagógica como um instrumento que pode levar os alunos-leitores a outros patamares de compreensão do texto e da própria relação entre os sujeitos em sala de aula. Esse entendimento favoreceu a criação de um espaço democrático, onde os sujeitos puderam falar sobre suas compreensões e opiniões sobre o texto e sobre as relações que a leitura suscitou, em atitude de criação: criação de sentido, de novas relações e de compreensões.
Com essas relações provocadas a partir da leitura literária, foi possível estabelecer clima de liberdade mental, no qual os alunos ouviam-se uns aos outros em atmosfera colaborativa, na qual todos aprenderam em conjunto, a partir do entendimento dos colegas. Esse ambiente de interlocução ativa foi favorecido, também, pela metodologia de leitura adotada: a andaimagem. Com a sequencia de pré-leitura, leitura e pós-leitura foi possível aproximar ainda mais os sujeitos da perspectiva pesquisada, ao poder estabelecer pontos de ancoragem nos quais os alunos apoiaram seu entendimento sobre o texto e foram recorrendo à habilidades do pensamento criativo: fluência, flexibilidade, elaboração e originalidade.
Essa metodologia promove a criança para a condição de sujeito que tem voz e vez na sala de aula, auxiliando a estruturação e a verbalização do pensamento, o que torna a sala de aula um ambiente valioso e fecundo para o trabalho com o pensamento criativo.
Em suma, esse trabalhou aponta para a possibilidade de formação do sujeito criativo em sala de aula, mediante a leitura de literatura e para a
possibilidade de reposicionar, também, o ensino literário frente às novas demandas da sociedade, da escola atual e dos interesses dos aprendizes, considerando a urgência da formação de sujeitos criativos para a sociedade contemporânea; redimensionando a função da escola no desenvolvimento das crianças, visto que é neste meio que o aluno poderá explorar, elaborar, testar hipóteses e fazer uso de seu pensamento criativo, em clima de liberdade mental.
E sinaliza, por fim, a importância da figura do professor como mediador, na intenção de promover um ambiente favorável ao desenvolvimento do pensamento criativo, numa atmosfera estimulante, que valorize o pensamento divergente e autônomo, a oposição lógica e a crítica fundada.
Não obstante, este estudo aponta alguns direcionamentos e desdobramentos futuros, como pesquisas sobre: a argumentação e o pensamento criativo em aula de leitura literária; a produção cultural para crianças, favorecedoras do pensamento criativo e o clima criativo em aula de leitura literária são alguns temas que se pode elencar. Estima-se que a pesquisa empreendida possa ressoar em outras realidades, cabendo aos profissionais da educação compreenderem que a formação do sujeito criativo mediante a leitura literária pode constituir eixo fundante das práticas com a linguagem no ambiente escolar, que deve corresponder a um grupo criativo.
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