Como sugerido pelo título do trabalho, o propósito inicial que fundamentou esta pesquisa foi identificar que condicionantes inibem ou viabilizam a geração de ideias mais disruptivas para inovação em produto nas unidades do caso selecionado para estudo.
A partir de conversas com gestores da empresa estudada e leituras preliminares sobre teoria e história sociológica das inovações entendeu-se que se deveria primeiramente questionar se a falta de ideias para produtos conceber produtos mais ousados e inovadores consistiria de fato em um “apagão criativo” ou seria algo deliberado pela empresa (adotando- se intencionalmente um escopo de inovação mais conservador).
Por isso a primeira parte desse estudo objetiva explorar a orientação à inovação na empresa estudada para posteriormente se debruçar sobre as fontes de ideias para inovação em produto em diferentes unidades de filial brasileira de empresa multinacional.
Assim, do lado da direção da inovação em produto, busca-se entender o posicionamento da empresa no que tange aos esforços empreendidos e objetivos perseguidos (tacita ou deliberadamente), o que, como representado na figura 22, é condicionado por determinantes internos e externos à firma, tal como sugerido pelo modelo de Pieracciani (figura 10 do item 3.1.), compreendendo assim: cultura organizacional, processos de inovação, disponibilidade de recursos, ambiente (dinâmica setorial e conexões externas) e estratégia de inovação correlacionada (estratégia da matriz bem como estratégia e grau de autonomia da filial).
Do lado das fontes de ideias, busca-se identificar quais as principais fontes de ideias à inovação na empresa (no âmbito das amplas possibilidades trazidas com a perspectiva não linear da ciência e tecnologia e frente à perspectiva da inovação aberta). Deseja-se apreender quais os caminhos (formalmente sistematizados ou mesmo informalmente perseguidos) mais comumente empregados e aqueles considerados mais eficazes para captar ideias para inovação em produtos, o que, acredita-se ser determinado pela orientação à inovação previamente abordada.
Colocado de forma resumida, o objetivo central reside em identificar, a partir de uma abordagem integrativa, as idiossincrasias (caracterização do setor industrial, dinâmica competitiva, estratégia da empresa, grau de autonomia da unidade de negócios com relação à matriz, etc.) de cada unidade estudada a fim de se entender os correlatos condicionantes
(internos e externos à empresa) que impelem a dada orientação à inovação e ao correlato emprego de algumas fontes de ideias em específico.
Ademais, colocam-se ainda como objetivos secundários:
a) Identificar qual o principal gargalo que obsta um maior dinamismo inovador (concepção de propostas inteiramente novas, calcadas em efetivamente resolver problemas do usuário) nas unidades estudadas;
b) Verificar se, de forma atrelada à descentralização das atividades de P&D globais (MINBAEVA, ET AL., 2003; YANG, MUDAMBI, MEYER, 2008; MINBAEVA, 2008) e iniciativas de inovação reversa (IMMELT e GOVINDARAJAN, 2009), a concepção de propostas para novos produtos adquire maior autonomia nas unidades estudadas da filial brasileira, permitindo que as propostas estejam assentadas sobre particularidades demográficas, comportamentais, de infraestrutura e renda locais. c) Identificar quão deliberada é a orientação à busca de inovação, em termos de
programas, metas e diretrizes corporativas sistematizadas formais;
d) Comparar os resultados com pesquisas internacionais recentes sobre o tema (trazidos por BOOZCO, 2012; COOPER e EDGETT, 2008).
A hipótese inicial é de que há de fato, tal como refletido nos estudos internacionais recentes sobre o tema, um hiato em inovações mais disruptivas em produtos, o que parece trata-se de uma postura deliberada, sendo a falta de um portfólio de ideias mais amplo uma consequência natural de tal posicionamento. Isso deve ser sobremaneira verdadeiro em filiais, sendo que os maiores esforços de pesquisa básica, aplicada e engenharia de desenvolvimento (estratégia ofensiva da tipologia de Freeman e Soete apresentada na sessão 3.1.) potencialmente estão ainda concentrados na matriz, que mantém recursos, capacitações e orientação estratégica para tanto. Assim, acredita-se que a orientação à inovação da filial deva refletir primordialmente adaptação de produtos globais à realidade local (e não busca de novos conceitos e entendimentos para criação de tecnologias e plataformas integralmente novas – inovação radical), sendo, portanto, as práticas de ideação mais calcadas neste fim do que para a identificação de novas ideias para produtos efetivamente inovadores.
Acredita-se que isso leve ainda uma baixa sistematização de muitas das práticas que, acredita-se, acabam sendo criadas pela própria unidade de negócios para driblar restrições organizacionais e promover maior adequação à realidade da área. Tem-se assim também como hipótese que as fontes de ideias mais utilizadas e eficientes no caso estudado (à
semelhança do revelado nas pesquisas realizadas no exterior) são ainda aquelas mais tradicionais (respondendo a demandas originadas do cliente, utilizando tecnologias criadas nas áreas internas de pesquisa e desenvolvimento, distantes portanto do conceito de inovação aberta) havendo sensível heterogeneidade entre as diversas unidades de negócio, sendo ainda pouco sistematizadas e dependentes da matriz.
Primeiramente, a aposta em fontes de ideias mais tradicionais deve-se à perspectiva quanto a um maior conservadorismo do setor e da cultura empresarial (sobretudo nas unidades focadas em vendas a de bens intermediários nas quais se pressupõe haver na inovação feita como resposta às demandas mais específicas dos clientes), caráter ainda incipiente da inovação aberta no âmbito institucional brasileiro (no que tange à legislação de incentivo à aproximação entre empresas, universidades e institutos de pesquisas) e à própria posição de dependência do país com relação à tecnologia do exterior (e, por conseguinte, às definições da matriz e de outras unidades do grupo) em vários setores.
A crença quanto às distinções entre as unidades de negócio (mesmo estando todas dentro de uma mesma empresa) deve-se à existência de distintas estratégias de inovação de cada unidade (condicionantes internos), bem como os múltiplos condicionantes externos relacionados às particularidades de cada setor industrial. Configurar-se-iam, segundo essa perspectiva, especificidades não apenas a cada empresa (como sugerido de forma mais genérica pela BoozCo (2012)), mas dentro dela mesma dada a diversidade de sua atuação.
Já a crença na semelhança dos resultados dessa pesquisa com as referências internacionais está assentada no fato de que mesmo nas matrizes (onde há geralmente pioneirismo das técnicas de gestão) ainda há certa reticência com formas mais abertas de inovação, o mesmo devendo ser refletido nas filiais brasileiras. Algumas diferenças mais sutis são apenas esperadas ao passo em que há a expectativa de que nas matrizes sejam feitas mais exercícios de prospecção tecnológica (inovação na fronteira do conhecimento) enquanto as filiais devam estar mais assentadas apenas em adaptação ao mercado nacional.
Em outras palavras e em consonância com o que já fora aqui colocado, acredita-se que a despeito da descentralização produtiva e do fato da inovação se apresentar cada vez mais frequentemente como atributo competitivo central, a busca por inovações mais ousadas em produto (produtos novos ou novas linhas de produtos) ainda não ocupa posição central no pipeline da subsidiária brasileira (o que impede uma maior sistematização das práticas), sendo nela mais costumeiramente fomentada a inovação dependente (e mais frequentemente atrelada a processos, com enfoque em atributos de qualidade e produtividade)
ou de execução de diretrizes vindas das matrizes (sem que a geração de ideias para novos produtos, ponto de partida para a inovação, seja realizada no Brasil).