No final da primeira metade do século XX, a Geografia de cunho tradicional entra em crise, seus pressupostos não condizem com as políticas socioeconômicas e sociais do capitalismo, que tornaram a realidade mais complexa. A urbanização atingiu graus antes inexistentes e o quadro agrário modificou-se com a industrialização e a mecanização agrícola. O surgimento de rede de relações próprias da economia globalizada ou do capital globalizado defasou o instrumental de pesquisa da Geografia Tradicional, provocando uma crise das técnicas de análise dessa ciência.
O movimento de Renovação da Geografia está relacionado à crise da Geografia Tradicional. Esse novo discurso geográfico expressa a fragilidade de seus pressupostos, que não dão sustentação às exigências demarcadas pelo novo século, tais como: o desenvolvimento de idéias, as duas grandes guerras mundiais, o surgimento dos países socialistas, o confronto entre países socialistas e capitalistas e a revolução tecnológica. Além disso, ocorreram crises econômicas oriundas das produções tecnológicas que levaram o Estado a intervir novamente na economia.
O capitalismo chegou a sua fase financeira ou monopolista marcado pelo processo de concentração e centralização de capital. A acirrada concorrência favoreceu grandes empresas, levando à fusões e incorporações que resultaram na formação de monopólios ou oligopólios em muitos setores da economia.
Com essas mudanças, o limiar entre o homem submisso à natureza e senhor dela chega ao fim e os impactos ambientais passaram a crescer em ritmo acelerado, chegando a provocar desequilíbrios em escala global.
Esses acontecimentos culminaram com a eclosão de abordagens do pensamento geográfico, procurando aprimorar os seus conhecimentos, conforme interesses da conjuntura político-social de um determinado momento histórico.
Desse modo, surgiram as abordagens Renovadas da Geografia: a Pragmática, comprometida com o planejamento estatal, e a Crítica, comprometida com mudanças e propostas atuantes de transformações sociais.
2.5.2.1 Abordagem Pragmática
A Abordagem Pragmática, apoiada em critérios técnicos, mascarava a realidade das relações sociais a respeito do modo de produção manifestado pelos pressupostos do neopositivismo, possibilitando não só o processo de crescimento e a dominação das classes burguesas nas sociedades capitalistas, como também provocava efeitos atenuantes no tocante aos impactos ambientais, para que não ocorressem restrições ao expansionismo das relações capitalistas de produção. Os instrumentos de dominação burguesa, diagnosticando quantitativamente dados de uma determinada área, apenas relacionavam resultados numéricos de interesse do capital. Nesses dados não eram citadas as contradições de produções existentes.
Mudanças expressivas apareceram principalmente nos instrumentos de análise da Geografia, pois a preocupação estava em verificar os fatos no campo através de observações diretas e empíricas. As críticas ao trabalho de campo empírico-tradicional são inovadas com o uso de sofisticadas técnicas de análise para obtenção de dados, como o emprego em larga escala da Matemática, Estatística e o uso dos computadores, permitindo a manipulação de um grande número de variáveis. “A Nova Geografia que continuou, portanto, a ser a via conservadora dos discursos geográficos, embora tivesse apresentado uma sofisticação ferramental de análise, seguiu sombreando a heterogeneidade da sociedade”. (TONINE, 2003, p.62).
A autora ainda enfatiza esse pensamento destacando que: “O discurso da Nova
Geografia, em geral, ignorou as estruturas sociais e concebeu um espaço abstrato e sem rugosidades, eliminando de suas preocupações o espaço da sociedade em movimento permanente”. (SANTOS apud TONINE, 2003, p.62).
A relevância do ideário neopositivista para a ciência geográfica foi inquestionável, no sentido de apresentar novas análises, novas dimensões metodológicas e preocupações com a teoria geográfica. No entanto, os dados técnicos da realidade somente serviram aos interesses econômicos de ordem do capital instalado. Este mantém os princípios conservadores que engajam o pensamento geográfico de manutenção da ordem econômica vigente.
2.5.2.2 Abordagem Crítica
O centro de preocupação, no final do século XX, em relação ao pensamento geográfico, passa a ser as relações entre a sociedade, o trabalho e a natureza no que concerne à apropriação dos recursos materiais. Para se compreender essas relações, lança-se mão de explicações históricas e econômicas no contexto das relações produtivas. A Geografia Crítica passa a estudar o espaço e as relações que nele ocorrem sendo, portanto, um canal de reflexão para uma ação transformadora, objetivando a construção da cidadania.
Os enunciados da Geografia Crítica surgem da constatação de que, apesar de o espaço geográfico ser construído pelos seres humanos por meio do trabalho, não são todos os que se beneficiam dos frutos dessa construção. Conforme aponta Tonine (2003, p.70): “O discurso da Geografia Crítica explica que as sociedades produzem o espaço conforme seus interesses em determinados momentos históricos, mostrando que tal espaço está implicado na movimentação das relações econômicas”.
A relação homem/natureza na Geografia Crítica prioriza as relações sociais na sua totalidade de produção. Ela se preocupa em estudar a sociedade por meio das relações de trabalho e da apropriação humana da natureza, pois as contradições provocadas no espaço social pelas determinações ocasionadas pelo modelo econômico capitalista monopolista e suas relações de força produtivas provocam grandes distorções na constituição das classes sociais.
Os saberes geográficos da Abordagem Crítica expressam como ocorre a apreensão do processo de apropriação das forças produtivas e a aplicação dessas pelo agente indireto do modo de produção, dono absoluto dos meios de produção, instrumentos e técnicas. Esse agente se apropria dos saberes produzidos pelas ciências e utilizando-os, passa a dominar a força produtiva que, por sua vez, permanece alienada das contradições ocorridas no espaço das relações sociais de produção. Tonine (2003, p.70-71) discorre acerca dos pressupostos contidos na Geografia Crítica afirmando que:
[...] O discurso da Geografia Crítica explica que as sociedades produzem o espaço conforme seus interesses, em determinados momentos históricos, mostrando que tal espaço está implicado na movimentação das relações econômicas. Mostra também como essas relações produzem sociedades desiguais – pobres/ricos – e, também, espaços desiguais – rural/urbano, metrópole/cidades, centro urbano/periferia urbana -, entre outros.
O discurso da Geografia Crítica rompe com os ideais do Positivismo e do Neopositivismo que orientam a abordagem da Geografia Tradicional. Este discurso incorpora
os fundamentos do materialismo dialético trazendo outros elementos interpretativos e metodológicos, apontando novas perspectivas para o entendimento do contexto socioeconômico do espaço geográfico. A concepção do materialismo dialético apresentou-se eminentemente crítica em relação à Geografia Positivista, uma vez que esse mantinha compromisso ideológico com a classe dominante.
A ruptura epistemológica nas ciências humanas ocorre a partir dos fundamentos marxistas que direcionam as explicações existentes nas relações de produção, situando o sujeito social como parte eminentemente imprescindível a sua sustentação e, por essa razão, necessita contestar o seu entorno social. Segundo Silva (1989, p. 4),
A Geografia Crítica [...] se interessa com o porque. o como e o onde, encontram respostas, na aparência, a resposta do porquê está na essência. Para atingí-la, não podemos permanecer com os métodos convencionais, indutivos, comparativos, racionalistas, estruturalistas, sistêmicos, etc. A experiência fala mais alto nesse sentido e não nos deixa ficar em afirmações teórico-abstratas.
Tonine (2003, p.68) corrobora com esse pensamento, destacando que:
A construção desse outro discurso, inventado pelas matrizes da Geografia Crítica, deve-se à concepção de que a Geografia deveria ser um campo de conhecimento preocupado com os problemas sociais. Por isso, tal discurso passa a examinar a relação sociedade e natureza como um processo. Assim, os elementos da natureza deveriam ser estudados apenas como recursos para a sociedade. A Geografia não estaria mais preocupada em examinar os processos naturais em si, mas a natureza como elemento a ser utilizado e apropriado pela sociedade.
A Geografia Crítica aponta para o entendimento das relações sociais de produção de cada momento histórico, com ênfase a respeito do enfoque positivista das interpretações biológicas de cunho naturalista, que explicam, na dinâmica da sociedade, o espaço geográfico.
A respeito do espaço geográfico, novos questionamentos com perspectivas humanísticas surgem nos últimos anos. Tonine (2003, p.72) cita Gomes para afirmar que:
A Geografia abandonou o projeto de construir, por intermédio do marxismo, uma ciência total. Hoje, os geógrafos que invocam o marxismo o fazem a partir de uma perspectiva muito mais limitada, como uma filiação ideológica ou inspiração de ordem geral. De qualquer forma, não existe mais crença em uma via metodológica única, que será aquela da ‘verdadeira’ Geografia, e se reconhece a importância e a riqueza de outras condutas possíveis para a Geografia.
Nesse sentido, o discurso da abordagem geográfica aponta para novos pressupostos vinculados à cultura dos grupos sociais e sua manifestação diante do espaço social.