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junto à margem dos rios Tietê e Tamanduateí, onde se concentraram equipamentos públicos de gran- de porte, perpetuando a vocação institucional deste setor da cidade (MAPA 4.4). Desses equipamentos

públicos, alguns se destinam ao lazer, como é o caso do campo de futebol do Clube da Comunidade (CDC) Nacional Bom Retiro, que tem um histórico de passagens de colônias de imigrantes do bairro. Há alguns anos, o campo era um dos centros sociais da colônia boliviana e chegou a abrigar campeo- natos de futebol aos domingos e também a Feira Kantutita (BOLíVIA CULTURAL, s/d) – uma feira itinerante que oferece evento de socialização parecido com aquele da Praça Kantuta, com barracas de comida, artesanato e músicas tradicionais, mas de porte menor. Mas, antes que voltasse a ser um cam- po de futebol, ali funcionava uma academia de prática de golfe, que era frequentada pelos membros da colônia coreana. Até hoje, podemos ver parte da estrutura de apoio que restou dessa instalação (FIGURA

4.28). Depois da construção de Prince Tower na Rua Matarazzo, um complexo hoteleiro inaugurado no ano de 2004 com o primeiro driving range do país anexo a um hotel (FIGURA 4.29), ela foi desativa-

da, dando lugar novamente ao campo de futebol.

O golfe é o esporte favorito dos coreanos que têm condições econômicas para susten- tar tal tipo de lazer, pois demanda um investimento alto. Aos sábados, grupos de coreanos, principalmente os donos de confecções e os funcionários transferidos de empresas multina- cionais, frequentam os campos de golfe dos arredores de São Paulo e participam de campeo- natos organizados por diversas associações da colônia. Ao contrário das atividades de lazer dos moradores do Bom Retiro que acontecem nos espaços públicos ou nas dependências dos equipamentos coletivos da colônia, o golfe se pratica nos clubes privativos que, muitas vezes, possuem critérios particulares de seleção de associados, fazendo com que cada clube proporcione diferente status social para seus membros. E o bairro do Bom Retiro oferece apoio para isso, com uma loja de artigos de golfe, localizada na Rua Prates, e o driving range do hotel, que é frequentado por aqueles que querem fazer aulas particulares e treinar diaria- mente para aprimorar as técnicas de tacada.

O Estádio Municipal de Beisebol Mie Nishi é um monumento público que foi inaugurado em 1958 em homenagem aos 50 anos de imigração japonesa (SECRETARIA MUNICIPAL DE ESPORTES, LAZER E RECREAÇÃO, s/d). Trata-se de um complexo esportivo localizado no alargamento do canteiro da Marginal Tietê no ponto de confluência do Rio Tamanduateí com o Rio Tietê, junto com um barracão de uma escola de samba e o conjunto habitacional Parque do Gato. Podemos dizer que a escolha do local para a construção do estádio se deve à dispo- nibilidade do terreno institucional à margem do rio, então recém-retificado, e não à história da colônia japonesa, que não possui ligações com o bairro. O movimento dos praticantes de beisebol no estádio do Bom Retiro tem diminuído ao longo dos anos: nas décadas de 80 e 90, as escolas do estádio tinham sete instrutores e cerca de 300 alunos; em 2005, havia apenas 40 alunos (MOREIRA, 2005). O pouco movi- mento ainda se concentra nos finais de semana, quando há campeonatos e treinos de sumô e beisebol, deixando as instalações do estádio subutilizadas durante o restante da semana. Até os meados dos anos 90, ainda havia idosos da colônia japonesa que frequentavam o estádio para jogar o gateball43, mas hoje eles exercem suas ativida-

des no Clube Esportivo Municipal Ryuso Ogawa, que disponibiliza oito quadras de gateball e é localizado próximo ao bairro do Jabaquara, na zona sul da cidade, onde há uma grande concentração da população de origem japonesa.

Quando o grupo de coreanos chegou ao estádio na década de 90, ainda não havia quadras de gateball. Na época, era um grupo de 60 jogadores que treinavam onde havia um espaço aberto de terra batida; 25 anos depois, alguns faleceram e outros se mudaram para os Estados Unidos, restando apenas 25 deles, todos, atualmente, com mais de 80 anos de idade. Pouco a pouco, eles foram construindo as quadras com as próprias mãos: levantaram as divisórias de alvenaria, alisa- ram a terra e plantaram as cercas vivas – hoje, existe demarcação para quatro quadras, mas apenas duas delas são utilizadas (FIGURA 4.30). Ao lado da quadra, há um quiosque com a instalação de

apoio e, ao lado, construíram um pergolado e fizeram uma pequena cozinha onde preparam os lanches a serem oferecidos nos treinos. O grupo não só tem um espaço exclusivo como também a liberdade para entrar antes do horário de abertura oficial, que é às oito da manhã. Um adminis- trador diz que os coreanos não atrapalham a gestão do estádio:

Eles ficam lá, no cantinho deles. O vestiário também é só para eles. A gente não opina muito. São muito fechados.4 4

Apesar de terem levantado recursos e investido com o próprio trabalho para a melhoria das quadras, eles não se sentem donos do lugar. Uma senhora lamenta a falta de equipamentos próprios da colônia coreana para exercer as atividades de terceira idade:

43. O gateball foi criado em 1947 no Japão e é um jogo adaptado do críquete inglês. A princípio, o esporte foi pen- sado para crianças, mas, com o tempo, passou a ter grande aceitação entre os idosos. UCGB, s/d.

44. Trecho de anotações do campo.

Não tínhamos um espaço para nossas atividades. Então, pegamos isto (o estádio) emprestado.45

Sobre o significado da homenagem a uma etnia específica como acontece no caso do Estádio Municipal de Beisebol Mie Nishi, que originalmente era um equipamento público destinado ao lazer da colônia japonesa, faremos uma breve reflexão aqui. Em contraposição à permanência de um espaço e da sua estrutura física, a dinâmica social de uma colônia de imigrantes costuma transformar-se com a mesma rapidez do passar das gerações. Uma vez que o lugar foi construído para abrigar as atividades de uma colônia e nomeado para home- nageá-la, superar essa identidade num eventual processo de sucessão étnica ou na abertura para o aproveitamento da população geral, fazendo com que ela se torne simbólica e aceita por todos pode ser uma tarefa difícil. Se isso não acontecer, esse lugar fica suscetível ao aban- dono. Honrar a memória de um povo que deixou o lugar e manter a vida social ativa para evitar a situação de abandono depois da evasão é um problema a ser solucionado por muitos equipamentos coletivos e instituições de caráter étnico do Bom Retiro.

Enquanto isso, os idosos coreanos que o frequentam para suas partidas diárias de gate-

ball vão continuar a “pegar emprestado” o que presumem que outros deixaram para trás na falta do que possa ser chamado de seu, sem a consciência de que se trata de um bem público, portanto, um bem para todos. Vistos os exemplos de apropriação dos espaços públicos pelos coreanos do Bom Retiro, podemos dizer que a gestão desses espaços numa sociedade divi- dida por etnias, como a do Bom Retiro, precisa estar preparada para lidar com a existência de fronteiras tênues de afirmação e reconhecimento da identidade étnica e também com a ten- dência à territorialização.



Ao observarmos, nos casos expostos acima, a maneira os coreanos do bairro se apropriam dos espaços públicos para a socialização entre eles, podemos evocar nova- mente algumas características da convivência interétnica do Bom Retiro anterior- mente mencionadas, tais como a invisibilidade pública e a sociabilidade voltada para o âmbito privado.46 Recorrendo a recursos como alternância de horário de ocupa-

ção entre diferentes grupos e pequenas negociações com o poder público, os corea- nos do bairro constroem um mundo privado nos espaços públicos, exercendo uma espécie de gestão privada desses espaços: promovem alterações de acordo com as necessidades específicas do grupo e não costumam contar com o recurso público para empreender a melhoria do espaço.

45. Trecho de anotações do campo.

FIGURA 4.25

Caminhadas matinais. O parque é um importante local de socialização dos idosos coreanos do bairro. Fotos da autora, 2015.

FIGURA 4.26

Sessões de ginástica para a terceira idade na Casa do Chá, Parque da Luz. Foto da autora, 2015.

FIGURA 4.27

Partidas de badminton. A montagem das quadras começa diariamente às sete da manhã. Fotos da autora, 2015.

MAPA 4.4

Sucessão de equipamentos públicos ao longo da margem dos rios.

1. Creche e escola municipais 2. CDC Nacional Bom Retiro 3. CDC Roberto Russo

4. Estádio Municipal de Beisebol Mie Nishi

5. Conjunto Habitacional Parque do Gato

6. Estação de transbordo de lixo 7. Departamento de Investigações

sobre Narcóticos - DENARC

8. Departamento de Estradas de Rodagem - DER

9. Departamento Estadual de Trânsito - Detran

10. Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo - Sabesp 11. Departamento de Estradas de

Rodagem - DER 12. Centro Esportivo Tietê RIO T AMAND UATEÍ RIO TIETÊ 6 7 8 9 10 11 12 1 2 3 4 5

Foto aérea: Google Earth 2014

LEGENDA

FIGURA 4.28

Resto do antigo driving range do Clube da Comunidade (CDC) Nacional Bom Retiro. Fotos da autora, 2015.

FIGURA 4.29

Driving range do Hotel Prince Tower com 3500 m2, 140 jardas de profundidade e 50 baías. Fotos da autora, 2015.

FIGURA 4.30

Quadras de gateball do Estádio Municipal de Beisebol Mie Nishi, nos anos 90 e agora. Foto do acervo pessoal de Claudia Kim e foto da autora, 2015.

FIGURA 4.31

Campeonato de gateball de abril de 2015. Fotos da autora, 2015.

4.2.3.