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3. Materials and methods

3.2. Method

No campo das Ciências Sociais e Humanas, apesar da escassa quantidade de produções na área, principalmente nos Programas de Ciências Sociais e Serviço

Social.

Sobretudo no curso de Ciências Sociais não foi identificado qualquer estudo que se aproximasse da área de saúde do trabalhador. Até conseguimos encontrar pesquisas que debatem as transformações no mundo do trabalho, às quais não dotamos de maiores análises para não se distanciar do objeto desse estudo. Outra

60 Teorias da administração que formam o estudo das Relações Humanas no trabalho, defendendo a

importância da organização informal, da motivação, das necessidades humanas, da dinâmica de grupo, da comunicação e da liderança como determinantes para o desempenho organizacional dos trabalhadores. Assumem uma reação às idéias de Taylor e Fayol, negando alguns dos conceitos que estes consideraram mais importantes, como a organização formal, a autoridade, a

responsabilidade, a hierarquia ou a unidade de comando. Mesmo assim, trazem como principal referência a importância dos incentivos sociais e simbólicos para além das recompensas salariais e não avançam na análise da alienação e exploração dos trabalhadores, entendendo que esses sacrifícios poderiam ser recompensados.

grande parte das discussões nessa área concentra a reflexão sobre os valores e significados do trabalho, mas no entorno do simbólico do que é trabalhar. Identificamos análises que situam o contexto das mudanças contemporâneas do trabalho e seus elementos de precarização. Mas, em muitos casos, o trabalho é pensado em suas configurações atuais genéricas (no sentido universal/abstrato) e em alguns aspectos que envolvem os conflitos de classe relacionados à exploração do trabalhador.

Tal ausência de estudos nas Ciências Humanas/Sociais sobre a área da saúde do trabalhador pode ser um indicador do quão distante essa área do saber se encontra das mediações reais que dão concretude às reflexões teóricas, reproduções ideais do real. Uma hipótese para tal alheamento da realidade pode ser atribuída ao notório domínio das teorias pós-modernas no mundo acadêmico, particularmente entre os cientistas sociais.

Existem, ainda, estudos que se aproximam das discussões sobre Responsabilidade Social Empresarial, em diversos segmentos econômicos, investigando percepções e práticas do empresariado, que envolvem aspectos econômicos, sociais, culturais e simbólicos da relação “empresa-sociedade”.

No Serviço Social apenas um único trabalho foi contemplado para o estudo e, mesmo assim, não traz uma abordagem direta sobre a saúde do trabalhador, referindo-se às condições de trabalho da categoria profissional no âmbito hospitalar, situando a discussão sobre as condições de trabalho desse grupo e como isso afetava a saúde desses trabalhadores. Desse modo, analisa a inserção do profissional (assistente social) nos processos de trabalho no âmbito de atuação delimitado, pensando as condições objetivas de trabalho, nas quais são identificados processos de racionalização e reestruturação da organização do trabalho.

Este dado nos faz refletir que a produção científica no Serviço Social, apesar dos grandes avanços das análises mais universalizantes – seja sobre o serviço social, o mundo do trabalho ou a própria conjuntura societária – ainda pouco contempla as mediações concretas que marcam o cotidiano profissional. Ao constatar essa lacuna na profissão, Iamamoto (2005, p.197) afirma:

Nos anos 1980, o Serviço Social realizou um enorme avanço na análise das políticas sociais públicas e abriu o debate sobre as políticas sociais empresariais, inscritas no mundo do trabalho. Porém, não efetuou, com a mesma ofensiva, a apropriação das alterações históricas que vêm

ocorrendo nos quadros da sociedade, das mudanças no perfil das classes sociais em sua heterogeneidade, em sua inserção à produção/reprodução do processo social. A atenção para as políticas de Estado redundou em uma certa secundarização da análise dos sujeitos sociais, da dinâmica da

sociedade civil, e, em especial, da compreensão dos segmentos sociais que são o público alvo das ações profissionais, mais além da proximidade

cotidiana que se tem com o mesmo, de modo que retraduza esta convivência em explicações de sua existência. (grifos do autor).

Vemos que, no Serviço Social, mesmo como uma profissão interventiva, faz- se necessário avançar nas reflexões que capturem as mediações profissionais. Assim, relega-se a apreensão da vida cotidiana e a preocupação com o trabalhador no espaço fabril, fazendo com que essa análise acabe sendo incorporada por perspectivas conservadoras.

O assistente social, como profissional das Ciências Sociais Aplicadas, possui sensibilidade para valorizar o caráter social dos agravos à saúde, potencializando o diagnóstico, a intervenção, entendendo-os como um conjunto de problemas (de saúde) da coletividade - conforme a 3ªCNST. De forma contrária, à visão organicista encontrada em grande parte dos atendimentos e encaminhamentos médicos, que negam ou ocultam a centralidade do trabalho no processo saúde-doença, dificultando a resolutividade dos casos apresentados e a verdadeira incorporação do SUS em tal finalidade. O profissional pode possibilitar que o usuário seja ouvido, decodificando seus anseios e angústias na forma de intervenção social, tendo em vista que o trabalhador já chega ao atendimento não só com a saúde comprometida, mas como vítima, também, de uma peregrinação institucional irracional e perversa, perambulando de um lado para outro a procura da resolução de seu caso.

Diferentemente, as pesquisas no campo da Psicologia – que incluem os Programas de Psicologia e Psicologia Social – se voltam para a prevenção dos transtornos mentais e do comportamento relacionados ao trabalho, baseando-se nos

procedimentos de vigilância dos agravos à saúde e dos ambientes e condições de trabalho, além de análises sobre o bem-estar psicológico dos indivíduos,

considerando os ambientes de trabalho. Avaliam o que consideram de “disfunção e

incapacidade” causada pelos transtornos mentais e do comportamento relacionados com o trabalho. Esses estudos delimitam-se em análises sobre a realidade de

trabalho de determinadas categorias/setores, com abordagens específicas, mas que expressam as correntes e leituras teóricas preponderantes nessas pesquisas.

Há grande relevância nos estudos analisados da Área na reflexão sobre a

influência negativa que as atividades profissionais e os ambientes de trabalho exerce sobre a vida dos indivíduos. São identificados fatores de risco e o

comprometimento das ações de “Higiene” e segurança do trabalho. Reiteram a importância de se desenvolverem mais estudos sobre a área e destacam a necessidade de garantia de políticas públicas.

Apreendemos nas análises um distanciamento entre homem e trabalho, numa concepção do homem que não o trata como ser social, omitindo os elementos essenciais para o estudo da saúde do trabalhador, pensando o trabalho sob a sociabilidade capitalista. Identificam o que há de mais aparente na análise das realidades estudadas, limitados aos seus sintomas (psicológicos), desvinculadas do conjunto das relações sociais capitalistas, o que contribui para a naturalização e conservação desse modo de produção.

Na Psicologia Social o único trabalho existente se situa, predominantemente,

no âmbito da Psicologia Organizacional e do Trabalho, voltando-se para a análise

dos efeitos dos regimes de trabalho sobre a saúde mental de uma determinada categoria profissional, buscando construir um perfil biográfico e sócio-ocupacional desses trabalhadores. O estudo conclui que a maioria dos trabalhadores de um determinado grupo (petroleiros) tem sua saúde mental bem preservada, a despeito das condições de trabalho inadequadas. Tal conclusão se deve a uma noção de que os efeitos sobre o bem-estar psicológico dos trabalhadores são consequência da “auto-percepção” que esses desenvolvem frente às suas condições de trabalho, numa visão plenamente individualizante dos agravos.

A temática dos significados e sentidos do trabalho é pesquisada por diferentes autores com base em diversas vertentes epistemológicas e com múltiplas

perspectivas teóricas. Sabemos que grande parte dos estudos na Psicologia

relaciona o que é o sentido do trabalho à qualidade de vida no trabalho, não concebendo-o em sua contradição central de trabalho concreto e trabalho abstrato, nem considerando as mudanças pelas quais vêm passando na contemporaneidade.

Apropriando-se de autores como Hackman e Oldhan (1975), Morin (1996) definem o sentido do trabalho como uma estrutura afetiva formada por determinados significados, ou seja, por representações que o sujeito tem de sua atividade, assim

como o valor que lhe atribui, pensando ainda o que o sujeito busca (como forma de satisfação pessoal) com o trabalho e o que orienta suas ações. Todo esse entendimento é pautado numa perspectiva de coerência, harmonia e equilíbrio na sua relação com o trabalho, na sua relação com o ambiente de trabalho.

O que é preponderante nos estudos da Psicologia, que se baseiam em muitas referências de Dejours (1992, 2006), é trazer a significação do trabalho como própria para cada indivíduo, sendo criada a partir das técnicas particulares desenvolvidas por cada sujeito (Dejours, 1992). Em tal obra, sustenta-se que a divisão do trabalho conduz a maioria dos trabalhadores a ignorar o “verdadeiro” sentido do trabalho - representativo de uma dimensão mais pessoal – limitando-o a uma tarefa individual e o desconhecendo o seu sentido de atividade coletiva.

Pensa-se o homem como indivíduo, dotado de uma história personalizada e, por outro lado, a organização do trabalho como portadora de um caráter despersonalizante, no qual emerge uma vivência e um sofrimento do homem. Assim, o trabalho só tem sentido por meio da transformação do sofrimento – decorrente da divisão das tarefas pela organização do trabalho – em prazer pela utilização das competências e liberdades individuais. Compreende-se que o prazer no trabalho é fundamental para a manutenção da saúde e da normalidade.

Desse modo, o que se torna presente é a visão do sujeito trabalhador como um indivíduo isolado, considerando as representações de sua vida como diferente, ou distanciada da realidade que o cerca, deixando de concebê-lo como produção histórica, com determinações genéricas e fruto de condições e relações sociais particulares.

4.3 O DEBATE ACERCA DA SAÚDE DO TRABALHADOR: TENDÊNCIAS TEÓRICAS NO CAMPO TEMÁTICO

A produção de conhecimento na universidade contribui, quando socializada, para explicitar tanto a sua relevância social, quanto a perspectiva teórica (conservadora ou crítica) que predomina na academia.

Segundo Mészáros, a reprodução social da sociedade do capital depende de concepções de mundo que representem idealmente os seus fundamentos:

Por maior que seja, nenhuma manipulação vinda de cima pode transformar o imensamente complexo processo de modelagem da visão geral do mundo de nossos tempos – constituída por incontáveis concepções particulares na base de interesses hegemônicos alternativos objetivamente irreconciliáveis, independentemente de quanto os indivíduos possam estar conscientes dos antagonismos estruturais subjacentes – num dispositivo homogêneo e

uniforme, que funcione como um promotor permanente da lógica do capital.

Nem mesmo o aspecto da “manutenção” pode ser considerado um constituinte passivo da concepção de mundo que predomina entre os indivíduos. (MÉSZÁROS, 2007, p. 209).

Desse modo, o domínio do capital se realiza em assegurar que os sujeitos sociais adotem os parâmetros reprodutivos do capital como metas próprias, individuais, com a intenção primeira que essas questões sejam internalizadas pelos indivíduos, legitimando essas posições como deles, induzindo ao conformismo e subordinação à ordem estabelecida. Nesse contexto, Mészáros (2007) nos faz lembrar bem que as instituições formais de educação são parte importante, pois induzem a uma aceitação ativa dessas perspectivas, das dimensões mais visíveis às ocultas. Romper com essa lógica na educação equivale “a substituir as formas onipresentes e profundamente enraizadas de internalização mistificadora por uma alternativa concreta abrangente” (p. 207), pois mantêm como raiz de seus determinantes a alienação do trabalho. Esse rompimento será conquistado, apenas, pela organização coletiva e consciente desses sujeitos, como elementos de pressão capazes de modificar o modo de internalização historicamente prevalecente – que oprime e sustenta a concepção dominante de mundo – rompendo, em definitivo, com essa lógica.

[...] fica bastante claro que a educação formal não é a força ideologicamente

primária que consolida o sistema do capital; tampouco ela é capaz de, por si só, fornecer uma alternava emancipadora radical. Uma das funções

principais da educação formal nas nossas sociedades é produzir tanta conformidade ou “consenso” quanto for capaz, a partir de dentro e por meio de seus próprios limites institucionalizados e legalmente sancionados. (MÉSZÁROS, 2007, p. 206).

Segundo o mesmo autor, a missão de uma proposta educativa que se paute numa perspectiva emancipatória, ou seja, o reino fundamental da liberdade dos homens, pressupõe a adoção de uma totalidade de práticas educacionais, culturais e, principalmente, políticas, que conjuguem uma contraconsciência de classe e se realizem numa transformação da sociedade. Considerando ainda que:

[...] a necessária intervenção consciente no processo histórico, orientada pela adoção da tarefa de superar a alienação por meio de um novo metabolismo reprodutivo social dos “produtores livremente associados”, esse tipo de ação estrategicamente sustentada não pode ser apenas uma questão de negação, não importa quão radical. (MÉSZÁROS, 2007, p. 215).

Esse é o grande destaque que trazemos para a educação – a partir da concepção aqui abordada -, como um espaço que desempenha importante papel na transformação social, contribuindo vitalmente para romper os processos de internalização dominantes, numa construção autônoma e alternativa de contracorrente.

A necessidade imperante de desconstruir o discurso e o curso das supostas ações de prevenção de acidentes e doenças do trabalho nos leva a desvelar as falsas virtudes do sistema capitalista, bem como a dar maior destaque às relações de trabalho como relações de exploração e conflitos de classe.

Os discursos hegemônicos operam em nome de um (neo) desenvolvimentismo imperialista, em nome da macroeconomia neoliberal que flexibiliza direitos e suprime garantias sociais e trabalhistas. Essas idéias são, ainda, elaboradas e difundidas no campo intelectual e têm grande circulação nas universidades, mas seus desafios extrapolam o campo acadêmico e levam à batalha das idéias até o cotidiano da vida dos sujeitos.

O padrão de acumulação capitalista vem sendo aprofundado com alto grau de consentimento e adesão as massas populares, persistindo e ampliando as mais aviltantes desigualdades e reiteradas e violentas formas de exploração e expropriação do trabalho, não deixando de lado as ações coercitivas, mas agora com um forte componente educativo, em que o consenso pactua uma dimensão de coerção. Essas ideias são elaboradas e difundidas, principalmente, no campo intelectual, que tem as universidades como grande referência (NEVES, 2010).

O que vemos é uma busca incessante dos corações e mentes dos trabalhadores, que se baseia numa larga teia de ações que exigem um manejo ideológico, e que se configuram hoje com novos elementos e estratégias de dominação, mas que mantêm a ideologia dominante com a reprodução dos fundamentos do capital.

Pode-se dizer que as idéias difundidas nos estudos aqui analisados trazem perspectivas que, em geral, fundamentam as concepções de mundo do projeto burguês. Os sujeitos trabalhadores são abordados na perspectiva histórica da individualidade burguesa, como indivíduos independentes.

Segundo Antunes (2007), para que exista uma vida cheia de sentido fora do trabalho é necessária uma vida dotada de sentido dentro do trabalho, pois não é possível compatibilizar trabalho assalariado, fetichizado e estranhado com satisfação, realização e pertença que trazem sentido para a vida dos indivíduos. Uma vida desprovida de sentido no trabalho é incompatível com uma vida cheia de sentido fora do trabalho.

Reportando-nos à Mota (1998), podemos dizer que está em curso a construção de uma nova cultura do trabalho, um novo comportamento produtivo regido pelo capital, repercutindo no conjunto da sociedade. Essa orquestração se faz ancorada numa nova institucionalidade neoliberal, o que contribui para reformular os mecanismos reguladores da gestão da força de trabalho, pretendendo, assim, reorganizar as bases da cidadania burguesa.

Agora essa cidadania deve ser consolidada sobre as requisições do mercado e da grande empresa. A condição para isso é a quebra de direitos adquiridos, numa ação agenciada pelo Estado e consentida pelos próprios trabalhadores, além da difusão da nova noção de individualidade, portadora da racionalidade técnica e da negação de uma sociabilidade pautada no coletivo. Como o trabalho, desde a consolidação do modo de produção capitalista, sempre esteve subordinado ao capital, “o que de ‘novo’ emerge é a tentativa de obter o consentimento ativo dos trabalhadores ao atual processo de recomposição do capital” (MOTA; AMARAL, 2008, p. 36).

A análise da sociedade – e, em consequência, o próprio trato da saúde do trabalhador – presente nos estudos investigados aponta para uma clara hegemonia de abordagens conservadoras. Mesmo quando fazem a crítica, a realizam baseada numa perspectiva de humanização do capitalismo, configurando numa forma

atualizada de “anticapitalismo romântico”, nos termos de Netto (2009)61. Esses

elementos coadunam com o controle da força de trabalho por meio de um discurso pseudo-libertador.

O que em geral observamos nos estudos é a perspectiva de saúde do trabalhador como um elemento que potencia o capital, já que o trabalhador deve estar sempre bem e saudável para produzir mais e melhor, como uma espécie de “higienismo” sofisticado e de controle da vida privada.

O conjunto das produções científicas aqui estudadas acaba por renovar a formação de intelectuais do capital, mesmo que não intencionalmente. Apresentam um conhecimento a serviço da ordem burguesa e atuam – mesmo no campo da saúde do trabalhador – no sentido de obter o “consentimento ativo” dos trabalhadores.

Essas perspectivas, que ganham certa hegemonia nas pesquisas aqui analisadas, corroboram, nos termos de Mota (1998), com a construção de uma “nova cultura do trabalho” que incorpora as necessidades do capital e se apresenta revestida em outra “racionalidade política e ética” compatível com o processo de acumulação, ou seja, com a sociabilidade do atual projeto capitalista. Ações forjadas pela “cultura do antiradicalismo e das soluções negociadas”, de ideais conservadores que pensam a construção de saídas possíveis, sacrificando as massas trabalhadoras, estimulando “a ‘indiferenciação’ de projetos políticos como modo privilegiado de administração da desigualdade social” (p. 11).

61

José Paulo Netto, em sua obra “Capitalismo Monopolista e Serviço Social” (2009), levanta a discussão sobre o sincretismo ideológico e faz referência ao “anticapitalismo romântico”, enquanto categoria já concebida e aprofundada por outros autores.