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Para pensar abordagens de um discurso literário sob o mirante discursivo, é preciso, segundo Maingueneau e onde também nos inscrevemos de muitas maneiras, contrariar duas posições atinadas à doxa dos que são abrigados convencionalmente como especialistas e conhecedores de literatura.

A primeira dessas posições versa no sentido de que não deve existir uma “extraterritorialidade” do fato literário; a estética e a interpretação pura do espírito da obra encontram, ora em si, ora na visão de mundo escritor, um fechamento da alma a um corpo e de um corpo a uma alma, um elo circular sem emendas, mas fechado. Diferentemente disso, a AD não se esgota em estudar apenas os chamados textos “comuns”, ou ainda fazer diferenciações de estudos entre textos de maior prestígio, textos de menor prestígio; autores mais consagrados, autores menos consagrados. A proposta de análise do discurso literário sob o escopo de um discurso constituinte, tal como prevê Maingueneau, por exemplo, desloca-se, afastando-se, da premissa de a literatura ser “o” discurso, subjugando seus efeitos de sentido a uma esfera de comunicação, com suas peculiaridades, é verdade, mas jogando, por seu turno, com a gestão de elementos linguístico-discursivos, o que se aparta peremptoriamente da concepção posta a funcionar pela estética romântica, para a qual existiriam “textos ‘intransitivos’, ‘autotélicos’, e textos ‘transitivos’, ligados ao curso da história, aos acontecimentos documentais e, acima de tudo, distantes de textos e autores reconhecidamente militantes da literatura” (MAINGUENEAU, 2006b). Tal prática, ainda argumenta Maingueneau, reside no âmago dos departamentos de Letras, sobretudo os que tiveram marcadamente influência francófona e o que, sob em muita medida, observar-se nos departamentos do Brasil Para aqueles que cursaram alguma modalidade do curso de letras – e nos incluímos sob essa perspectiva – na maioria das universidades e das faculdades brasileiras

tem-se talvez um exemplo para essa ideia de consagração da visão de mundo do autor como o ditame maior das obras, assim como estas obras serem “o todo complexo de sentido”, a partir a estética romântica, no fato de que, durante as disciplinas de estudos literários, textos, por exemplo, de Jorge Amado eram vistos como literatura “menor”, textos de pouco prestígio, assim como os de Bernardo Guimarães, Júlio Diniz, entre outros.

Longe disso, a AD não se prende a uma divisão que separaria a água do óleo ou que incitaria a repartir as duas faces de uma folha. Dizemos isso porque a divisão que se pensa existir entre textos “profanos”, pertencentes a ciências sociais e humanas, e textos “sagrados” da literatura é de certa maneira tudo que a AD tenta escapar, apreendendo, para isso, as múltiplas discursividades, ao explorar e tentar explicar, em um mesmo movimento, o texto – unidade – em toda a sua singularidade, e todas as formas que o discurso adquire, seja numa visada de pré-construídos, efeitos ideológicos, gênero do discurso, cena enunciativa, imagens de si e de outros na representação discursiva. Assim, a AD “(...) não se contenta com a mobilização de noções tomadas à Psicanálise, à Sociologia, à Antropologia etc. para ‘aplicá- -las’ a textos literários: não se trata de projetar um universo (as ciências humanas) noutro (a literatura) que lhe seria estranho, mas de explorar o universo do discurso.” (MAINGUENEAU, 2006b, p.38)

A segunda dessas posições diz respeito ao desenvolvimento de teorias que têm como objeto principal o discurso, e, tal como o pretendemos descrever aqui, reconfigura-se também a distribuição de “papéis”,ao dizer de Maingueneau, entre ciências da linguagem e estilística epistemologicamente e institucionalmente. Isso devido ao fato de que o estilista clássico mobiliza o arcabouço teórico da linguística para dar determinações técnico-científicas às inferências e às intuições que ele depreende de determinada obra que está a analisar. O valor heurístico, ou seja, o caminho e a validação dos sentidos buscados para o texto em análise, viria do saber intuitivo do estilista, e não da linguística, embora este analista que fala do mirante da estilística mais clássica esteja lidando com uma materialidade textual. No entanto, na perspectiva analítico-teórica em que nos inscrevemos, a da AD, portanto, busca-se uma direção diametralmente oposta: a de que a ciência da linguagem não é mera coadjuvante. Ratificamos o dito à linha anterior com as palavras do mentor teórico da perspectiva epistemológica de que falamos sobre um estudo do discurso literário:

O recurso à linguística não é mero uso de ferramentas elementares ou, como no caso do estruturalismo, de alguns princípios de organização sobremodo gerais; ela constitui um verdadeiro de investigação: em vez de se contentar em validar mediante

noções da gramática descritiva conclusões que uma compreensão sutil do texto seria suficiente para fundar, deve-se a partir de então elaborar interpretações que a intuição não seria suficiente para produzir. (MAINGUENEAU, 2006b, p.38-39)

O que a teoria do discurso nos possibilita em termos de apreensão do texto literário desloca a linguística de coadjuvante para uma das protagonistas, pois dela também virão algumas categorias para a análise enunciativo-discursiva, além de trazer consigo todos os avanços adquiridos nesse constructo teórico – pensamos aqui nos gêneros do discurso, a heterogeneidade enunciativa, os processos interdiscursivos interagindo e constituindo o fio discursivo do texto, a relação intertextual, relações anafóricas, progressão temática, enfim, com o olhar discursivo sobre o objeto literário faz-se possível a coalizão analítica num todo da obra – o discurso como um todo de suas possibilidades; todavia, o discurso sendo investido num dispositivo enunciativo de comunicação, do qual também fazem parte os textos da literatura.

A parte que se segue tentará, em breves linhas, versar sobre as teorias, e vez ou outra sobre os teóricos que antes da concepção de um discurso literário se engajaram nas tratativas do objeto literário. O percurso feito tenta desembocar na abordagem discursiva da literatura, tal como pretende à base dos estudos, principalmente, de Dominique Maingueneau.