• No results found

METEOROLOGISKE FORHOLD

In document OR-17-90.pdf (4.618Mb) (sider 24-52)

3 MÅLERESULTATER APRIL-SEPTEMBER 1989

3.1 METEOROLOGISKE FORHOLD

Júlia apresenta um enfrentamento das perdas vividas (luto primitivo, separação, morte dos pais) excessivamente voltado para a restauração e evita engajar-se no enfrentamento voltado para a perda, o que dificulta a construção de significado e a elaboração do luto. Não podendo integrar determinadas vivências e afetos, a construção de uma narrativa sobre si mesma e sobre o mundo é dificultada e ela acaba por

distanciar-se dela mesma (falso self). Tem dificuldade de fazer a revisão da relação com o falecido e sua própria identidade, movimentos que fazem parte do processo de luto pois, para tanto, precisa poder entrar em contato com seus sentimentos e está distanciada dela mesma. Vivencia um sentimento de profundo vazio e sua grande perda não é de algo que ela teve e perdeu, mas de algo que ela nunca teve: a própria identidade.

O momento que está vivendo é claramente um momento de crise, de colapso do falso self, em que se evidencia esse vazio e o quão distante sempre esteve de si mesma, mas também uma preciosa oportunidade: pode deparar-se com o fato de ser uma pessoa separada dos pais, romper a simbiose presente nessa relação, entrar em contato com um eu mais inteiro, integrar seus aspectos negados, libertar-se e construir um caminho próprio.

No entanto, para engajar-se nesse processo precisa sentir-se segura, que há uma continência interna e externa para essas transformações, com a confiança de que irá sobreviver e tolerar o sentimento de desamparo inerente à percepção de que somos seres separados dos demais.

As entrevistas contribuíram para o enfrentamento voltado para a perda, bem como a proximidade do aniversário de morte dos pais. Parece ter encontrado continência em nossa escuta, o que favorece a integração de seus aspectos negados. Contudo, fica muito assustada ao perceber sua fragilidade, retornando ao antigo padrão de busca de auto-suficiência, procurando reorganizar-se sozinha e rejeitando a oferta de seguir em um processo psicoterápico.

Os significados centrais construídos por Júlia foram agrupados no quadro 5. Estão relacionados à busca de um sentido para a morte e transformação da identidade e da relação com a pessoa perdida e com o mundo, e encontro de benefícios.

Quadro 5: Significados centrais construídos por Júlia Atividades de construção de significado: Sentimentos, desejos e mecanismos psíquicos: Significados: Busca de sentido

Culpa Sou responsável pela morte

Outra pessoa é responsável pela morte

Abandono O falecido é responsável por sua morte

Aceitação da não onipotência Não sou responsável pela morte Transformação da

identidade e da relação com o falecido e com o mundo

Colapso do falso self e busca da identidade

Não sei quem sou Desejo de autonomia Quero viver

Desejo de fusão Quero morrer

Expressão do amor Demonstrar o amor ao falecido é confortador

Insegurança O mundo não é cuidador e confiável

Encontro de benefícios

Identificação de recursos para a sobrevivência

Sou forte

Há determinados significados construídos pela participante que refletem sentimentos de culpa, abandono, desejo de fusão com o falecido, colapso do falso self e insegurança, que apareceram associados ao risco para a complicação do luto:

- Sou responsável pela morte;

- O falecido é responsável pela morte; - Quero morrer;

- Não sei quem sou;

- O mundo não é cuidador e confiável.

No entanto, esses significados também refletem sua tentativa de atribuição de sentido às perdas vividas e transformação de identidade, apropriação de sentimentos e angústias, indicativos de elaboração.

O seguinte significado: “Não sei quem sou”, está relacionado ao colapso do falso self e busca de identidade, pode estar associado à transformação positiva após a perda ou à complicação do luto e depressão. Entrar em contato com o vazio é, como apontamos acima, uma oportunidade de transformação; entretanto, se o enlutado não se sentir seguro para caminhar no processo elaborativo, pode ter seu processo de crescimento dificultado.

Há significados associados à facilitação do processo de luto de Júlia: - Quero viver;

- Sou forte;

- Não sou responsável pela morte;

- Demonstrar o amor ao falecido é confortador.

Relacionam-se à busca de sentido, transformação de identidade e relação com a pessoa perdida e encontro de benefícios na perda, e estão associados ao desejo de autonomia e identificação de recursos para a sobrevivência, aceitação da não- onipotência e expressão do amor na relação. Devemos apontar, no entanto, que, embora se sentir forte seja um recurso para o enfrentamento, se tal significado está calcado em defesas, acaba por não atuar como base sólida e ser somente mais um indicador do distanciamento de si mesma. Portanto, pode tanto ser um facilitador como indicador de complicação.

Embora ter podido demonstrar o amor ao falecido esteja relacionado à elaboração, se há sentimentos hostis que não podem ser revelados, há risco para complicação.

Há determinados fatores que estavam associados à facilitação da construção de significado e elaboração do processo de luto, enquanto outros pareceram dificultar o processo de construção de significado e estão associados aos significados expostos acima e ao risco de luto complicado.

Fatores dificultadores da construção de significado, após a morte dos pais: a) Dinâmica familiar

- Enfrentamento das perdas: utilização acentuada do mecanismo de defesa de negação; não-aceitação; falta de continência para expressão de tristeza e raiva; - relações e papéis: funcionamento e papéis rígidos de força e fragilidade na família; relações caracterizadas pela dependência, simbiose, indiferenciação dos membros e idealização;

b) Enlutada

- Aspectos de insegurança no estilo de apego (baixa auto-estima, dificuldade de receber cuidado, cuidado compulsivo, necessidade de controle, evitar entrar em contato com sua necessidade de apego, temor de não- sobrevivência psíquica, crença de que não tem recursos para enfrentar a perda, dificuldade de individuação, o outro visto como não-confiável e capaz de cuidar; evitar entrar em contato com sentimentos hostis nas relações; dificuldade de integrar os aspectos de força e fragilidade de seu self, evitando entrar em contato com sua fragilidade, falso self);

- perdas não-elaboradas (luto primitivo, separação do ex-marido); - percepção de que teve ganhos com a morte.

c) Falecidos

- Pai gozava de boa saúde.

d) Relação com os pais

- Insegurança no apego (idealização dos pais e desvalorização, não- tolerância da ambivalência, aspectos de identificação fusional, dependência e simbiose); - considerada frágil e incompetente pelos pais.

e) Circunstâncias da morte

- Perdas múltiplas e sucessivas (separação do marido, saída dos filhos de casa, morte da mãe, morte do pai).

f) Rede de suporte

- Rede de suporte considerada inexistente.

Fatores facilitadores da construção de significado, após a morte dos pais: a) Enlutada

- Aspectos de segurança no apego (crença em seus recursos de trabalho e para o enfrentamento de adversidades);

b) Falecidos

- Pais eram idosos (participante avalia que concluíram um ciclo).

c) Relação com os pais

- Ter podido demonstrar o amor na relação com os pais.

d) Rede de suporte

- Apoio recebido da família e amigos; - participação na pesquisa.

CASO 3: RENATA

Renata (40 anos) Antonia: mãe (62 anos)

Geraldo: pai (falecido aos 33 anos) João: ex-marido (40 anos)

Julian: filho (faleceu aos 15 anos) Jack: filho (14 anos)

Mark: filho (5 anos)

Karina: filha (faleceu com 1 ano e 5 meses)

A) Contato inicial

Renata entrou em contato conosco, após sua psicoterapeuta ter-lhe contado a respeito da presente pesquisa. Depois de identificarmos que ela se enquadrava no perfil dos participantes da pesquisa, explicamos o procedimento e agendamos o primeiro encontro.

As entrevistas foram realizadas em sala de consultório psicológico, na mesma clínica-escola em que ela é atendida.

B) Histórico do caso

Renata tem 40 anos, é evangélica, separada, tem dois filhos, Jack (quatorze anos) e Mark (cinco anos), que moram com ela em uma favela.

Perdeu o filho mais velho, Julian, há dois anos e dez meses, vítima de um assassinato, e a filha, Karina, há onze meses, que teve septicemia, por causa desconhecida.

É empregada doméstica e recebe um salário mínimo por mês. Na última entrevista conta que pediu demissão na casa onde trabalhava e que decidiu trabalhar como diarista para poder ter mais tempo para cuidar dos filhos.

Nasceu em Minas Gerais e veio com os pais e irmãos para São Paulo. Eram dez irmãos; dois deles faleceram ainda bebês (com menos de um mês e aos nove meses). Seu pai tinha outra família e revezava-se entre ambas. Foi assassinado quando Renata tinha dez anos. Sua mãe, que é analfabeta, criou os filhos com bastante dificuldade,

contando com a ajuda de Renata e da filha mais velha, Rita, para o cuidado dos filhos mais novos.

Além do assassinato do pai, outras mortes violentas ocorreram na família: um tio foi assassinado, um tio e um primo assassinaram uma menina e a esposa, respectivamente.

Estudou até o quinto ano do ensino fundamental e começou a trabalhar aos quatorze anos, como empregada doméstica. Considera que foi uma adolescente desobediente até tornar-se evangélica.

Aos vinte e um anos Renata começou a relacionar-se com João, que também era seu primo, sem o conhecimento da mãe, e deixou a igreja. Ele era jogador de futebol e admirado pelas mulheres; usava álcool e drogas desde os doze anos de idade, envolvia- se em brigas e quase matou uma pessoa, esfaqueada. Após engravidar de seu primeiro filho, casou-se com ele, apesar da insistência da mãe de que não o fizesse por não aprovar essa relação. A mãe ofereceu ajuda para a criação do neto, mas ameaçou que, se Renata casasse com o primo, não poderia mais contar com ela.

Renata tinha a esperança de que, após o nascimento do filho, seu marido deixaria as drogas, o que não aconteceu. Ele a agredia fisicamente, maltratava os filhos, roubava objetos da casa e não contribuía para sustento da família, gastando seu dinheiro em drogas. Viviam em situação bastante precária, chegando a passar fome.

Durante muitos anos Renata não contou à mãe e irmãos sobre sua situação, por receio de não ser aceita. Depois de contar, por anos seguidos, vivia alguns meses na casa da mãe e, depois, retornava para sua casa, por não se sentir acolhida.

João inspirou-se nos integrantes de uma banda para escolher os nomes dos três primeiros filhos e, ainda que não os aprovasse, Renata aceitou sua escolha. Seu ex- marido desvalorizava o filho mais velho, Julian, comparando-o com Jack. Embora Renata não concordasse com sua atitude, não conseguia posicionar-se a respeito, calando-se. A professora de Julian recomendou que ela procurasse psicoterapia para seu filho, mas ela não o fez naquela ocasião, procurando ajuda somente mais tarde.

No início da adolescência, Julian é introduzido na criminalidade pelo pai, começa a usar drogas e envolve-se com tráfico, chegando a ser preso diversas vezes. Quando é detido pela primeira vez, Renata percebe a gravidade da situação do filho. Após quinze anos vivendo uma relação caracterizada pelos maus-tratos, ameaça e medo, com a ajuda de um programa da prefeitura, sai de casa com os filhos, separando-se do

marido. Embora separada, mantinha relações sexuais eventuais com o ele e engravidou, sem ter desejado, de Mark e Karina. Atualmente seu ex-marido é mendigo e vive na rua e nos albergues. Ela não tem mais contato com ele, mas diz ainda gostar dele, embora considere que essa relação não lhe faz bem. Não se envolveu em novas relações após a separação.

Mora com os filhos em uma casa próxima à de sua mãe. Karina e os irmãos ficavam com a avó enquanto Renata trabalhava. No entanto, quem cuidava de Karina era Jack porque sua mãe não estava disponível para tanto.

Após a morte da filha, pensou em processar o hospital por considerar que a filha não recebeu um atendimento adequado e que o hospital falhou ao não descobrir a causa da doença e conseguir curá-la. No entanto, desistiu.

Renata e seu filho Jack foram encaminhados para atendimento psicológico (pelo hospital em que ele faz tratamento há dois anos em função de sobrepeso), em decorrência da falta de atenção e comportamento afeminado do filho e histórico de perdas da família. Ambos estão em psicoterapia individual há cinco meses.

C) Análise Geral

In document OR-17-90.pdf (4.618Mb) (sider 24-52)

RELATERTE DOKUMENTER