• No results found

metabolite profiling of polar compounds

4. Discussions

4.1 metabolite profiling of polar compounds

O pensamento de Araujo Castro, assim como qualquer pensamento, é situado historicamente, produto de determinada conjuntura social, política e cultural. Dessa forma, é relevante, para melhor compreender seu pensamento, repassar brevemente sua biografia, que tangencia com vários dos momentos mais importantes da política exterior brasileira do século XX32.

Nascido em 1919, Castro ingressou no Itamaraty em 1940, aos 21 anos. Em 1943, partiu para seu primeiro posto, o Consulado em Porto Rico, onde permaneceu menos de dois anos, para ser então removido para o Consulado em Nova York.

A carreira de Castro começou a tomar novos rumos em 1948, quando voltou ao Rio de Janeiro. Depois de um breve período no Departamento de Administração do Ministério das Relações Exteriores, foi designado para trabalhar na Secretaria-Geral, onde participou de sua primeira Assembléia Geral das Nações Unidas (1949; participou, também, da Assembléia do ano seguinte). Em 1951, foi removido para a Delegação brasileira em Nova York, onde pôde, pela primeira vez em sua carreira, dedicar-se exclusivamente aos temas multilaterais. O contato com o multilateralismo seria a característica mais marcante de sua carreira e influenciaria seu pensamento de forma decisiva.

A missão de Castro em Nova York durou até 1953, quando foi removido para Roma. Em 1957, retornou ao Brasil e já no ano seguinte foi encarregado da chefia do Departamento Político e Cultural. No cargo, Castro pôde participar da formulação da Operação Pan-Americana, que marcou a política externa do Governo Juscelino Kubitschek, além, é claro, de estar encarregado de todos os temas políticos tratados no âmbito das Nações Unidas. Nesse período, importa lembrar, o processo de descolonização começava a deslanchar, e o Brasil encontrava-se de certa forma preso na contradição entre sua condição de país em desenvolvimento e de aliado de Portugal. Essa tensão, que permaneceria por muito anos, seria de grande interesse para Castro: ele enxergava, no processo de descolonização, uma reorganização do sistema internacional, e temia

32

Este esboço foi feito com base nas seguintes fontes: o currículo de Araujo Castro, disponível em Amado (1982); a breve biografia disponível no site do CPDOC (http://www.cpdoc.fgv.br/nav_jgoulart/htm/biografias/Araujo_Castro.asp. Acesso em: 31/5/2008); a nota biográfica em Barreto (2001, p. 330-331) e a breve biografia no volume de Abreu e Lamarão (2007, p. 79 -84).

que as posições pró-portuguesas defendidas pelo Brasil poderiam azedar as relações com os jovens Estados africanos, dificultando o trânsito brasileiro na nova ordem.

Em 1959, Castro foi indicado para o cargo de Ministro-Conselheiro na Embaixada brasileira no Japão. Exercia a função há dois anos quando foi escolhido para participar de missão comercial liderada pelo então Vice-Presidente João Goulart à República Popular da China. Essa participação foi importante, pois lhe trouxe à atenção de Goulart – que, como se sabe, seria alçado à Presidência do Brasil após a renúncia de Jânio Quadros, que ocorreu enquanto a missão comercial ainda se encontrava na China.

Ainda naquele ano, Castro foi chamado de volta ao Brasil para chefiar a Secretaria-Geral Adjunta para Organizações Internacionais. Já na época da chamada “Política Externa Independente”, participou da formulação do programa de política externa do Chanceler San Tiago Dantas (vide COSTA FRANCO, 2007). Foi promovido a Embaixador em 1962, aos 43 anos.

1963 foi, de certa forma, o ano-chave da carreira de Castro. Evandro Lins e Silva, que o conhecia da missão comercial à China Popular, foi designado Chanceler, e escolheu Castro para ser seu Secretário-Geral. Na época, quando era raro um diplomata de carreira ser escolhido para comandar o Ministério, ser Secretário-Geral era o ápice da carreira de um diplomata, o posto mais alto a ser galgado. Todavia, menos de dois meses mais tarde, Castro rompia a barreira da tradição: com a indicação de Evandro Lins para o Supremo Tribunal Federal, foi efetivado como Ministro das Relações Exteriores do Brasil, o primeiro diplomata de carreira a assumir o cargo no pós-Segunda Guerra (vide BARRETO, 2001).

Apesar de seu curto período como Chanceler, Castro deixou um legado importante, marcado principalmente pelo seu “discurso dos três ‘D’s” – discurso de abertura do Brasil no Debate Geral da 18ª Assembléia Geral – e pela participação brasileira na primeira UNCTAD, que levaria à formação do Grupo dos 77 (G-77), agremiação política de países em desenvolvimento que exerce importante influência nas Nações Unidas até hoje. Conforme destaca Brito Cruz (1999), Castro operou uma importante mudança na Política Externa Independente, afastando-a da idéia de “neutralismo” político e enfatizando os temas relativos à estrutura das relações econômicas internacionais.

Ao longo desse período, ficou clara a visão de Castro de que os foros multilaterais – em particular as Nações Unidas – representavam, devido ao princípio da igualdade soberana dos

Estados, uma arena onde os países em desenvolvimento poderiam fazer valer seus interesses, particularmente ao agirem em conjunto. Essa idéia seria retomada e refinada por ele ao longo de sua carreira.

O golpe militar de 1964 pôs fim ao ministério de Araujo Castro. Embora o Itamaraty tenha sido, em grande parte, preservado de uma “inquisição” pelo novo regime, em boa parte devido aos esforços do Embaixador Vasco Leitão da Cunha (2003) e à percepção da diplomacia como “carreira de Estado”. Todavia, Castro fora “exilado” a um posto de pouco relevância, sendo designado Embaixador junto à Grécia. Lá permaneceu por menos de três anos, pois no começo de 1967, foi removido para Lima.

Já em 1968, todavia, Castro foi reintroduzido ao centro da diplomacia brasileira, escolhido para chefiar a Missão do País junto às Nações Unidas. No período em que ocupou o cargo (de 1968 a 1971), teve atuação enérgica não só na Assembléia Geral, como também no Conselho de Segurança, que presidiu durante agosto de 1968, e nos demais órgãos da Organização. Durante seu tempo em Nova York, sem divergir da política externa do regime militar, seus discursos e ações refletiram várias das mesmas preocupações que haviam marcado seu período como Chanceler, sobretudo a valorização do multilateralismo e das Nações Unidas como meios privilegiados para a atuação dos países em desenvolvimento. A negociação do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que se deu durante sua estadia em Nova York, confirmou essa visão de Castro, ao apresentar de forma nítida o ponto de encontro entre a construção de normas internacionais e as realidades de poder.

Em 1971, Castro foi removido para seu último posto, a Embaixada do Brasil em Washington. Lá, embora estivesse distante do palco multilateral que era sua paixão, pôde desenvolver seu pensamento ainda mais, observando de perto a política externa americana conduzida por Richard Nixon e Henry Kissinger e as suas implicações para a relação entre o poder e a ordem internacional – tema que informou boa parte de seus escritos. Castro permaneceu nos Estados Unidos até 9 de dezembro de 1975, dia em que faleceu na sua sala na Embaixada.