Após a Guerra do Pacífico (1879-1883), o Peru entrou no século XX com um governo que iniciou inúmeras reformas fiscais, militares, religiosas e civis para se recuperar dos prejuízos da guerra. É o período chamado de República Aristocrática e que se estende até os anos 20. Já, em 1924 Victor Raúl Haya de la Torre funda a Aliança Popular Revolucionaria Americana, APRA, e conjuntamente com José Carlos Mariátegui, líder do Partido Comunista Peruano, chefiavam duas forças importantes da política peruana. O APRA foi um partido político inicialmente projetado a escala continental com uma postura mais próxima do centro- esquerda e membro da Internacional Socialista. Ele foi fundado para construir a justiça social com Pão e Liberdade no Peru e, depois, em Hispanoamérica. Entre os partidos políticos peruanos é o mais antigo. Os seus militantes são chamados companheiros devido à fraternidade criada pelo seu fundador, o qual fazia parte do grupo de jovens de César Vallejo.
Belaúnde Terry ganhou as eleições em 1963, com o seu próprio partido, Ação Popular. O exército, no entanto, teve um papel relevante na história peruana. Golpes de Estado interromperam várias vezes o governo constitucional. O militar Juan Velasco Alvarado (1968-1980) depôs Belaúnde e iniciou um programa nacionalista de governo militar, com reforma agrária, nacionalização da indústria pesqueira, nacionalização de companhias de petróleo, de bancos e de mineradoras. Segundo Donghi (1990, p. 722), “os primeiros anos de governo militar foram de reativação econômica e inflação em descenso”. Se isto deveria servir para ter apoio da população, não aconteceu o esperado. Mesmo quando os militares criaram em 1971 o Sistema Nacional de Apoio à Mobilização Social, Sinamos, confiada pelo governo a antigos dirigentes da esquerda política e guerrilheira, que eram desejosos de um regime com base nas massas, a preocupação do corpo de oficiais para controlar o processo corporativamente acabou deixando o mesmo um tanto isolado. Isso porque, ainda segundo Donghi (1990, p. 723), o presidente Juan Velasco Alvarado viria a ter considerável autonomia frente a seus camaradas.
Sem dúvida, a falta de mobilização popular contribuiu assim como a temporária bonança econômica para fazer possível a mais audaciosa experiência reformista conhecida pelo Peru. (...) Isso explica também, em
parte, que tenha havido relativamente pouca reação quando se suprimiu a autonomia universitária, apreenderam-se os jornais tradicionais de Lima, El Comércio y La Prensa e dissolveu-se a Sociedad Nacional Agraria (fortaleza da classe dos grandes fazendeiros). Por isso, a moderação na repressão que tinha caracterizado o regime desde o início não precisou ser abandonada (DONGHI, 1999, p. 723).
Contudo, a partir de 1973, o estilo do reformismo militar começou a ter consequências negativas. A nacionalização da indústria pesqueira foi seguida de uma exploração abusiva, com a qual a Fazenda arrecadou recursos adicionais, mas que, por pouco, não produziu o extermínio da anchova. O Oleoduto da Amazônia teve um custo que não conseguiu ser amortizado rapidamente com as reservas do petróleo peruano. Enfim, a pouca experiência empresarial e uma corrupção crescente que começava a se fazer presente no governo resultaram em adversidade econômica (DONGHI, 1999, p. 723).
Deste modo, havia um aprismo que desejava salvar a existência legal que pela primeira vez tinha-lhe reconhecido um governo militar, então, incitava à prudência, bem como o comunismo que tinha conseguido ampliar a sua base sindical com o favor militar, mostrava-se pouco disposto a novas aventuras. Mas o aprismo de inspiração trotskista ou maoísta dava vida a uma oposição mais dinâmica do que a das outras facções. Velasco Alvarado foi identificado com um ativismo reformista esgotado e foi substituído, em 1975, pelo general Bermudez.
Este teve que fazer frente à divida externa com o FMI. A saída para a economia foi procurada por meio de um ortodoxo liberalismo econômico e conseguiu-se uma melhoria, graças, também, às exportações do setor ilegal. E nesse contexto, a fração maoísta do partido comunista começou a se destacar com o lema “Avançar pelo Sendero Luminoso”. O Sendero estabeleceu um foco de insurreição em Ayacucho e tornou-se célebre por resistir à tentativas de erradicação.
A dependência da política externa e os jogos internos do poder submergem o país em graves crises econômicas. Os problemas causados pelas diferenças sociais que se gestaram na época colonial ainda persistem, e têm motivado altos índices de violência. O país passou por uma guerra civil que durou quinze anos, inclusive mergulhado no terrorismo. Nos anos 90, o presidente Fujimori esforça-se para diminuir a inflação e consegue combater os terroristas até antes do fim dos anos 1990.
O milênio inicia-se com um tumulto político e econômico devido à reeleição de Fujimori, quem tinha cometido muitas atrocidades. Os escândalos que se seguiram à sua eleição o forçaram a convocar novas eleições para as quais ele não concorreria. Um escândalo
envolvendo o Chefe de inteligência do governo acabou revelando uma teia de atividades ilegais, de desfalques, tráfico de drogas e violação dos direitos humanos. Em 2001, houve novas eleições nas quais venceu o opositor de Fujimori, Alejandro Toledo. Este governo conseguiu recuperar algum grau de democracia no Peru, após o autoritarismo e a corrupção. Mas, devido ao descontentamento dos trabalhadores e também por motivo de um escândalo familiar, a popularidade de Toledo acabou caindo. Em 2006, Alan García, o qual já tinha vencido uma vez em 1985 com o partido APRA, vence novamente as eleições. E, um novo governo presidido por Ollanta Humala assume, a seguir, o poder em 28 de julho de 2011 (CONTRERAS; CUETO, 2000, passim).
Paradoxalmente, porém, no Peru convivem concomitantemente eras antigas e modernas, permanecendo um país, simultaneamente, arcaico e contemporâneo. E que, no entanto, no milênio atual, mantém um compasso de crescimento e de superação digno de saldo positivo. Segundo a World Cities Study Group and Network (GaWC) desde 2008, a cidade de Lima, capital do Peru, foi classificada pela sua economia, cultura, patrimônio histórico, acontecimentos políticos, no mesmo patamar de outras áreas metropolitanas do mundo de grande destaque, como Miami e Boston, nos EUA, Bangalore na Índia ou Berlim, na Alemanha. E a culinária peruana tem sido reconhecida internacionalmente como uma das melhores, sendo uma tendência forte em grandes cidades por todo o mundo, devido a seus sabores marcantes, temperos variados e características saudáveis.
No Peru há uma variedade enorme de tipos e cores de milho, bem como da batata que tem a sua origem nesse país, assim como também o mamey e outros frutos regionais e ainda, a quinoa, famosa pela sua riqueza protéica. Isso para citar alguns recursos naturais. E assim, mesmo sem vislumbrar uma solução para os seus problemas, o Peru mantém a admiração e o encanto que tiveram desde sempre todos aqueles que o descobriram.