Um ano depois de Windelband haver pronunciado seu discurso reitoral
História e ciência da natureza (1894), Dilthey escreve Sobre psicologia comparada
(1895-6) publicação esta que se destinava em grande parte a responder estes afrontes de Windelband ao seu sistema. O texto inicia-se justamente citando partes de dois trechos de Windelband apresentados no tópico anterior e reclama para si um fundamento já exposto em Introdução às ciências do espírito. As referências diretas a Windelband do primeiro parágrafo compunham a versão de 1895, mas foram suprimidas em 1896, quando provavelmente Dilthey tinha já em vista uma resposta mais elaborada. Assim será apresentada abaixo uma primeira resposta de Dilthey presente na versão de 1895:
Gostaria de partir da diferença entre ciências da natureza e ciências do espírito. Windelband expressou recentemente algumas reservas contra essa distinção e tratou de substituí-las por outra classificação superior das ciências. Ao expor meu
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ponto de vista contrário frente a seus sagazes desenvolvimentos, me será mais fácil manifestar a circunstância geral em que se fundamenta a psicologia comparada. (DILTHEY. 1945, p. 332)
Dilthey, como foi visto restaurou a fundamentação interior para a compreensão, por inspiração do romantismo, sobre uma forma sistemática, isto é, na forma de um sistema científico-empirista. Por isto encontram-se referências a Goethe, Fichte e Schleiermacher, isto é a corrente romântica. O argumento de 1895 apresenta-se em defesa da tradição romântica da experiência interior, ou como era denominada, das “experiências do coração”. Partindo da perspectiva romântica Dilthey defendia que não há uma diferença rígida entre experiência interior e exterior, pois “sempre se trata de um eu rodeado por circunstâncias” (cf. Dilthey. 1945, p.334). Embora faça menção do que seria o método transcendental kantiano, essa referência ao “eu” está muito mais próxima do fundamento fichteano.
Vemos pois, como o conceito da experiência interior corresponde exatamente com o da experiência exterior ou sensível. E como caem na percepção interior somente aqueles estados ou processos que transladamos do exterior, quer dizer, sentimentos, paixões, processos mentais e volitivos, do conceito da experiência interna se segue que a mesma se limita a processos e estados deste gênero. (...) Assim encontram sua expressão na lírica e se compreende que esta, em suas formas mais perfeitas, como ocorre em Goethe, representa sempre a vida própria do poeta em alguma situação, quer dizer, rodeado pelas circunstâncias que se expressam nas representações objetivas. Servem de base a toda a poesia. Constituem o fundamento da teologia e da moral. Fazem possível a psicologia geral. E o que mais importa no nosso caso, faz possível também a captação da própria conexão psíquica individual. (...) é aplicada de modo muito feliz nos monólogos de Schleiermacher, mas neste caso, como no de Fichte, a reflexão sobre o eu ultrapassa seus próprios limites. Predomina ainda nas passagens mais poderosas do Fausto de Goethe. Por todas as partes atua em consumar com as experiências exteriores, que neste caso fazem possível a transposição do mundo interior a um corpo alheio. Se chega a captar assim a individualidade dentro de sua circunstância, a individualidade que se destaca de outras individualidades. (DILTHEY. 1945, pp.334-335)
Dilthey manifestava de forma muito convincente que a experiência externa é em princípio uma experiência interna. Ele argumenta que não existe experiência com o mundo que não passe pelo nosso complexo psíquico. As chamadas experiências internas tampouco são exclusivamente interiores; mesmo as sensações
e estados mais íntimos foram provocados uma vez por algo exterior ao eu. O princípio de indissociação entre experiências interiores e exteriores era útil, não somente para contrapor-se a classificação de Windelband, mas para fundamentar, como foi dito na primeira referência deste tópico, seu método de psicologia comparada: “Ao expor meu ponto de vista contrário frente a seus sagazes desenvolvimentos [i.e., de Windelband], me será mais fácil manifestar a circunstância geral em que se fundamenta a psicologia comparada.” (DILTHEY. 1945, p.332). A questão fundamental não é que a classificação não agradasse a Dilthey, ele inclusive a elogiou mais de uma vez, a questão é que essa classificação deslegitimava sua fundamentação para as ciências do espírito.
Como as ciências do espírito de Dilthey não só visam à psicologia comparada, mas também a história, o elemento que permitia “captar assim a individualidade dentro de sua circunstância, a individualidade que se destaca de outras individualidades” não servia apenas para a psicologia, mas tornava “possível a transposição do mundo interior a um corpo alheio”. A passagem do mundo de um indivíduo para outro permite também a passagem do campo da psicologia para o mundo histórico. O outro apresentava em sintonia com o mundo alheio a possibilidade desse mesmo exercício de captação do mundo interior, operar a constituição e “o fundamento da teologia e da moral”. (cf. Dilthey. 1945, p.335). É também neste sentido que Dilthey divergia dos neokantianos que defendiam que a
Weltanschauung é produzida exclusivamente pela religião, enquanto que Dilthey
defendia que ela é tanto religiosa, artística, como filosófica. Opinião de Dilthey que implica a indistinção intencional das noções hegelianas de “espírito absoluto” e “espírito objetivo”, o que faz com que a religião se mostre como um dentre os
diversos produtos da vida humana em geral, não possuindo um estatuto superior do que a arte, a ciência etc., na formação das visões de mundo.
A segunda elaboração deste texto, que data de 1896, exclui tudo isto que foi apresentado anteriormente, mantendo o que será apresentado adiante.
A primeira versão da crítica é importante, porque ela manifesta a própria tônica original da elaboração da resposta de Dilthey, sobretudo a sua visão romântica; demonstra também, o que de fato estava ruindo diante da crítica de Windelband como os muros de Jericó ao som das trombetas. Nesta segunda versão, a resposta não busca expor o fundamento psicológico das ciências do espírito, mas ao invés disto, apresenta uma resposta mais próxima dos propósitos do cientificismo. É uma resposta que manifesta, não só o problema da psicologia dentro das classificações idealizadas por Windelband, mas das demais ciências reais, no modo como de fato operavam nesta época, (como a psicologia, a economia e a história).
A segunda elaboração de Dilthey se foca menos em apresentar a indissociablildade entre experiência interior e exterior, deixando de argumentar em termos de “ideais” e para as ciências, passando a argumentar, de modo agora mais pragmático, ou menos formalista. Dilthey apresenta então as condições reais que as ciências operam. Isto é, opõe-se a classificação formal de Windelband pela constituição real das ciências.
Windelband pretende re-situar a classificação de ciências do espírito e da natureza, que parte da pluralidade de conteúdo, por outra fundamentada no caráter formal de seu fim cognitivo. (...) Havia exposto, como por extenso aqui, já em minha Introdução às ciências do espírito, a diferença entre o pensamento científico-natural e o histórico, de que parte Windelband. Se não pude tirar das proposições, no que estou de pleno acordo com os belos desenvolvimentos de Windelband, as conseqüências que ele tira, e se tampouco as pude tirá-las agora, isso se deve as seguintes razões. (...) Segundo as características assim definidas [por Windelband] entre ciências históricas e ciências naturais, também a
economia que investiga as leis da vida econômica teria que constar, como a psicologia, dentre as ciências da natureza. (DILTHEY. 1945, pp.346-47)
Em oposição a este formalismo de Windelband, Dilthey defendia uma proposta que visava uma interdependência entre as diversas áreas das ciências humanas. As ciências do espírito para Dilthey deveriam ter, como era característico do contexto de Hegel, o caráter de um sistema. O contexto de Hegel era marcado pela multiplicidade de sistemas filosóficos (cf. Hegel: A diferença dos sistemas de
filosofia de Fichte e Schelling), como foi visto no capítulo anterior, Dilthey
comparava seu sistema presente na Introdução às ciências do espírito com o caráter sistemático que Hegel deu a Fenomenologia do espírito, e de fato há na noção de ciências do espírito de Dilthey a pretensão de apresentar um sistema geral para as ciências humanas.
Hodges traz uma conclusão para este primeiro embate. Segundo ele, colocada nestes termos, a crítica de Dilthey demonstra que todas as ciências operam pelos dois métodos, e neste aspecto Windelband reconhece a validez da correção feita por Dilthey. Mas isto não faz com que Windelband abra mão da diferença segundo os propósitos das ciências. Os estudos (e não ciências) históricos devem reconhecer o seu limite em encontrar leis, mesmo que operem pelo método comparativo. Isto não muda o fato de que o estudo histórico não é capaz de encontrar em seu campo teórico valores universais, mas apenas valores dados como fenômeno temporal.
Windelband admitiu, anos depois, que seria errado dizer que as ciências naturais são exclusivamente nomotéticas ou que os estudos históricos exclusivamente idiográficos. Cada grupo tem elementos de ambos os métodos. Mas na ciência natural a descoberta de leis válidas atemporalmente é o propósito final e toda descrição de particularidades é uma mera etapa nesta estrada; enquanto que para os estudos históricos o significado de algo está baseado em suas peculiaridades, e as idéias gerais, ou leis reveladas pelo estudo comparativo, só servem para auxiliar a análise e a descrição (cf. Os princípios da lógica, em Enciclopédia das
naturais, o idiográfico e o nomotético são indissociáveis. (HODGES. 1952, p.229-230 n.1)
Como se pode notar neste trecho, a questão do método difere quanto ao objetivo científico, essa conclusão é próxima ao que defendia Weber em seu artigo sobre a objetividade nas ciências sociais e políticas. Isto é, que as ciências naturais visam de fato leis gerais ou visam encontrar categorias científicas que correspondam às regularidades empíricas. Neste sentido Hodges acrescenta que Dilthey tinha em vista as ciências como de fato operavam em seu contexto, enquanto que Windelband e Rickert buscavam parâmetros ideais para classificá-las, e até mesmo para orientá-las. Neste debate fica clara a preocupação de Dilthey em buscar nas ciências históricas regularidades que conduzam a leis de importância tanto teórica quanto heurística, enquanto que Rickert e Windelband mostravam-se críticos a estes fins, porque julgavam que tais fins eram exclusivos das ciências naturais. Não diferenciavam mais as ciências por seu método nem por seu objeto, mas pelos seus objetivos.
Capítulo 6: Sobre a noção de tipo de Wilhelm Dilthey e a proposta de Max