Durante quatro semanas de observação foram recolhidos dados das interações das crianças a partir da realização de jogos, através da observação sistemática, que é aquela que “coloca em relevo a coerência dos processos e dos resultados obtidos, utilizando técnicas rigorosas, em condições bem definidas e com possibilidade de validação e repetição” (Reuchlin, 1969, citado por Estrela, 1986, p. 42). Nesta forma de observação, o observador dispõe de um método de anotação de observações “orientado para a recolha de dados susceptíveis de tratamento estatístico” (Paquay, 1974, citado por Estrela, 1986, p. 42). Definiram-se, então, técnicas de recolha de dados que permitissem “recolher os dados empíricos que são uma parte fundamental do processo de investigação” (Sousa & Baptista, 2008, p. 70).
Como auxiliar da observação, recorreu-se a diferentes instrumentos para a recolha de dados. Um dos recursos utilizados foram as notas de campo, que me ajudaram a facilitar algumas observações e que permitiram “o relato escrito daquilo que o investigador ouve, vê, experiencia e pensa no decurso da recolha, refletindo sobre os dados de um estudo qualitativo” (Bogdan & Biklen, 1994, p.150), o que me ajudou a ter mais dados pormenorizados. Segundo os mesmos autores, as notas de campo têm como objetivo
65 registar o que aconteceu durante a observação, tirando eventualmente notas interpretativas.
Além disto, recorremos aos registos audiovisuais, que, posteriormente, foram transcritos. Este tipo de registo permite ao investigador “observar, analisar, parar, voltar atrás, rever, repetindo as vezes que se desejar voltar a ver uma determinada cena, em alturas diferentes” (Sousa, 2009, p.200).
Após a transcrição dos vídeos e a leitura e interpretação das notas de campo, recorre-se à análise de conteúdo com incidência nos dados resultantes das transcrições dos vídeos e das notas de campo. Esta técnica de análise auxilia o investigador a obter, através de “procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a influência de conhecimentos relativos às condições de produção/receção (variáveis inferidas) destas mensagens” (Bardin, 2000, p.42). Ou seja, é um processo no qual são organizados os dados recolhidos, para que depois seja possível compreender o que neles está contido (Bogdan & Biklen, 1994). Para De forma a organizar os dados para se proceder à análise dos conteúdos, os dados foram dispostos em categorias e subcategorias, uma proposta de classificação de Bogdan e Biklen (1994) que ajuda e facilita na redução da quantidade de informação, simplificando a interpretação dos dados recolhidos (Coutinho, 2013).
Vala (1986, p. 111), defende que uma categoria é “habitualmente composta por um termo- chave que indica a significação central do conceito se que quer apreender”; por outras palavras, “são classes ou agrupamentos de unidade de conteúdo, organizadas em conformidade com características comuns dessas unidades” (Sousa, 2009, p. 270). Ao organizar os dados recolhidos em categorias e subcategorias, tornou-se mais claro interpretar o que foi recolhido. Esta categorização é considerada um “sistema de codificação para organizar os dados” (Bogdan & Biklen, 1994, p. 221), que “permite reunir maior número de informações à custa de uma esquematização e assim correlacionar classes de acontecimentos para ordená-los” (Coutinho, 2013, p. 195).
De acordo com Bardin (2011, citado por Coutinho, 2013), esta análise de conteúdos divide-se em três fases. Na primeira fase é feita uma pré-análise dos dados, na segunda exploram-se os dados recolhidos, e, na terceira, é realizado o tratamento dos resultados, em que estão inseridos os processos de interpretação.
66 Assim sendo, na primeira fase foi feita uma leitura das notas de campo e das transcrições dos vídeos (Anexo VI – Notas de Campo e Transcrição de Vídeos). Seguidamente, os dados recolhidos foram organizados em categorias e subcategorias, consoante a informação presente no enquadramento teórico, e por último, procedeu-se ao tratamento e análise dos dados, para assim compreender os resultados obtidos nos dados recolhidos (Anexo VII – Tabela relativa às interações emergentes no Jogo das Cadeiras; Anexo VIII - Tabela relativa às interações emergentes no Jogo Mamã, dá licença?; Anexo IX - Tabela relativa às interações emergentes no Jogo Macaquinho de Chinês; Anexo X - Tabela relativa às interações emergentes no Jogo do Lencinho; Anexo XI - Tabela relativa às interações emergentes no Jogo da Mímica; Anexo XII - Tabela relativa às interações emergentes no Jogo do Espelho; Anexo XIII - Tabela relativa às interações emergentes no Jogo do Galo; Anexo XIV - Tabela relativa às interações emergentes no Jogo Encontrar o Par).
A seleção das categorias e subcategorias, como mencionado anteriormente, surgiu após a análise de conteúdo, em que se pode perceber quais as que emergiram em cada observação, organizando-se em 3 categorias e 6 subcategorias. Tal como se pode verificar no quadro abaixo (quadro 2), foram definidas como categorias a interação criança- criança, uma vez que as crianças interagiam entre si; a interação criança-adulto, em que houve também interação entre si; e a interação criança-objeto, visto as crianças interagiram com objetos que faziam parte de determinados jogos. Por conseguinte, as subcategorias subdividiram-se em interações verbais e não verbais (através do olhar, da expressão fácil, do toque, da imitação e dos gestos), e estão acompanhadas de uma pequena descrição acerca de cada uma.
Categorias Subcategorias Descrição
Interação Criança- Criança
Verbal A criança fala com outra criança.
Não- Verbal
Através do olhar A criança olha para outra criança. Através da expressão facial A criança sorri para outra criança. Através do toque A criança toca noutra criança.
Através da imitação A criança imita movimentos ou falas de outra criança. Através de gestos A criança faz diversos tipos gestos para outra criança.
Interação Criança-Adulto
Verbal A criança fala com o adulto.
Não- Verbal
Através do olhar A criança olha para o adulto. Através da expressão facial A criança sorri para o adulto. Através do toque A criança toca no adulto.
Através da imitação A criança imita movimentos ou falas do adulto. Através de gestos A criança faz diversos tipos gestos para o adulto.
Interação Criança- Objeto
Não- Verbal
Através do olhar A criança olha para o objeto. Através da expressão facial A criança sorri para o adulto. Através do toque A criança toca e/ou explora no objeto. Através da imitação A criança imita movimentos através do objeto. Através de gestos A criança faz diversos tipos de gestos com o objeto.
67 Visto que as crianças realizaram diversas interações, contabilizaram-se as interações por subcategorias, para assim poder perceber e comparar o número de interações realizadas em cada jogo. Além do caráter qualitativo - “observa, descreve, interpreta e aprecia o meio e o fenómeno” (Freixo, 2010, p. 146), este ensaio acaba também por assumir uma dimensão quantitativa, uma vez que apresenta a frequência dessas interações (Bardin, 1977, citado por Vilelas, 2009).
No próximo capítulo serão apresentados os dados recolhidos e algumas tentativas de interpretação, dando conta de quais as interações que maior frequência tiveram e que tipo de interações predominam durante a realização dos diferentes jogos.