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4.1 Metodologia da pesquisa Clínico-qualitativa

Seguindo Turato (2003), faremos uma síntese da revisão da literatura que nos norteou na escolha dos instrumentos metodológicos da pesquisa Clínico-Qualitativa. Conforme indicação deste e dos autores Minayo (1996) e Thiollent (2003), realizamos o primeiro levantamento bibliográfico sobre o tema da pesquisa, assim como sobre a metodologia a ser empregada para coleta, tratamento e análise dos dados. Este levantamento inicial foi posteriormente revisado num segundo levantamento bibliográfico, em função dos dados encontrados no trabalho de campo, na interação dialógica com os atores sociais envolvidos (sujeitos da pesquisa).

4.1.1 Análise de Conteúdo

Segundo Turato (2003), “as técnicas de análise de conteúdo estão para as pesquisas qualitativas, assim como as técnicas estatísticas estão para as pesquisas quantitativas.” As diversas modalidades de técnica de análise de conteúdo remontam à prática da Hermenêutica, desenvolvida a partir dos métodos de análise das comunicações (BERELSON apud TURATO, 2003, p. 443), “em que o material analisado era jornalístico com objetivos de investigação política (as ditas propagandas subversivas), e em que se buscavam sentidos escondidos que convinha desvendar e significações profundas em linguagens obscuras” (BARDIN

apud TURATO, 2003, p. 442).

As características do método Clínico-Qualitativo proposto por Turato (2003) são: 1. “Interpretação dos sentidos e significações dos fenômenos da saúde-

doença em contraposição à enunciação de fatos;

2. Campo como ambiente natural do sujeito para coleta de dados;

3. Valorização das angústias e ansiedades existenciais como fundamentais; 4. Valorização de elementos psicanalíticos como ferramentas básicas; 5. Pesquisador como instrumento principal da investigação em campo; 6. Pesquisador como “bricoleur” no trato com a pesquisa;

7. Processo como norteador do interesse do pesquisador;

8. Saberes teóricos e práticos como pontos simultâneos de partida;

10. Validade dos dados como força do método;

11. Apresentação dos resultados e interpretação como fases concomitantes; 12. Pressupostos revistos como conclusão da pesquisa em primazia sobre a

busca de generalizações.” (TURATO, 2003, p. 245-267)

4.1.2 Conexões com a Sociologia

Analisando este Projeto de Pesquisa sob o ponto-de-vista da metodologia de pesquisa Social, segundo Minayo (1996), podemos remontar as origens desta proposta à Sociologia Compreensiva de Weber (2003). A partir da Sociologia Compreensiva se desenvolveram, por sua vez, a Etnometodologia e a Fenomenologia Sociológica. Incluída como uma vertente da Etnometodologia, encontramos o Interacionismo Simbólico de Blumer (BLUMER apud MINAYO, 1996, p. 54). Acrescentamos, ainda, a contribuição de Durkheim, citado por Minayo (1996), com o seu desenvolvimento do conceito de “representação social.” (DURKHEIM

apud MINAYO, 1996, p. 159)

Este projeto de Pesquisa-Ação, ou pesquisa colaborativa, apresenta alguns pontos em comum com a Fenomenologia Sociológica:

1. Uma crítica radical ao objetivismo da ciência positivista, na medida em que propõe a “subjetividade” como fundante do sentido, e

2. A “subjetividade” como constitutiva do ser social.

Entretanto, esta proposta diverge da mera descrição fenomenológica, na medida em que implica em ir mais além disso:

a) Nos aprofundamentos verticalizados, como por exemplo nas supervisões dos Casos Clínicos - em que se fazem necessárias construções teóricas baseadas nos referenciais da psicanálise lacaniana, inseridas nos debates conjuntos com os participantes da pesquisa para as tomadas de decisão acerca da condução dos casos, e

b) Nas interfaces horizontalizadas – quando, baseando-nos no método Dialético, nos defrontaremos com a moderna crítica marxista da Fenomenologia.

4.1.3 A medicalização da vida e a “Medicina Defensiva”:

Ivan Illich, em sua profética obra de 1975 “A expropriação da Saúde” (ILLICH

apud MINAYO, 1996, p. 60), previu o “crescimento mórbido da medicina”, o que

- A perda da capacidade da população de se adaptar ao meio social, de aceitar a dor e o sofrimento, por causa da medicalização da vida, e

- Ao mito de a medicina acabar com a dor, o sofrimento e a doença.

4.1.4 Viés da influência da expectativa do pesquisador

Seguindo-se nesta direção, corre-se o risco de “psicologizar” a realidade social ou cultural observada (Thiollent, 2003). Para se evitar este viés, as técnicas devem ser apropriadas aos objetivos da pesquisa, em termos de formas de raciocínio e argumentação, hipóteses e comprovação.

A formulação de hipóteses (ou de “quase-hipóteses”), no contexto da pesquisa em Psicologia Social, foi examinada por Rosenthal e Rosnow, que analisaram “a interferência das expectativas dos pesquisadores sobre os resultados da pesquisa e também a interferência dos pesquisados em função das expectativas que eles têm para com os pesquisadores.” (ROSENTHAL e ROSNOW apud THIOLLENT, 2003, p. 34).

Segundo Thiollent (2003), as distorções e as constatações dos fatos controvertidos devem ser controladas por vários pesquisadores e deve haver um controle mútuo estabelecido de forma dialógica, a partir da discussão entre pesquisadores e participantes.

Segurança: adiante-se que, no ítem Metodologia da pesquisa, foi controlado este viés através da triangulação inter-avaliadores.

4.1.5 A “práxis”

Acrescente-se a tudo isso que, segundo o marxismo, a ética e a ciência são duas formas de consciência em relação dialética com as condições materiais de sua produção. Segundo Marx citado por Minayo (1996), na perspectiva dialética, é na práxis que se dá a emancipação subjetiva e objetiva do homem. A transformação de nossas idéias sobre a realidade e a transformação da realidade caminham juntas.

Práxis: daí a idéia de que a intervenção (Ação) sobre a prática do ensino seja baseada na assistência, ou seja, no atendimento à realidade global do paciente, com a presença concreta do professor.

4.1.6 A construção conjunta do conhecimento

Destaque-se o recorte teórico de Gramsci (1981) apud Minayo (1996, p. 82), que revaloriza o campo ideológico não apenas como forma de dominação, mas também de conhecimento. Outros autores ainda, como Anderson (1984) apud Minayo (1996, p. 82), buscam superar as dicotomias na área da Saúde entre as estruturas objetivas e as relações subjetivas (Minayo, 1996), Para finalizar, acolhemos a citação de Minayo: “A construção de referencial é o desafio da nova etapa de conhecimento.” (MINAYO, 1996, p. 82)

5 OBJETIVOS - OBJETO DA PESQUISA

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