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construção de raiz de tal plano editorial que deverá ser concreti- zado só entre os dois, referindo-lhe:
É claro que eu vejo esta combine com você. Um jornal deste género não pode ter muita gente. Basta um que escreva e outro que desenhe e que os dois se entendam. Você não é propriamente um humorista, mas eu creio que um escritor jocoso à maneira do Brun, por exemplo. O que é necessário é bom senso e tesão no texto e nas imagens. Coisas claras e vibrantes que entrem pelos olhos dentro. Interessa-lhe a ideia? .73
Leal da Câmara demonstra uma total confiança em Aquilino Ribeiro para levar em frente um projeto desta natureza jorna- lística em Portugal, tendo cada um dos amigos a capacidade que se exige para a publicação do jornal satírico – Aquilino Ribeiro para a escrita e Leal da Câmara para o desenho humorístico. Leal sente afinidades com Aquilino na seriedade, na honestidade e na vontade em realizar, um conjunto de virtudes que são necessá- rias para o sucesso do projeto. Só é preciso dinheiro para avan- çar. Leal, apreciador das crónicas de Aquilino Ribeiro, escritas nos periódicos lisboetas, dá a entender que Aquilino tem um tipo de escrita que se deseja para o novo projeto editorial. Compara as crónicas de Aquilino Ribeiro sobre a sociedade portuguesa às crónicas do humorista e escritor de ascendência francesa, André Brun, na forma como define as personagens da sociedade peque- no-burguesa, com o seu estilo zombeteiro.
Leal é muito claro nas intenções para com Aquilino quando lhe pergunta se lhe agrada a sua proposta. Se lhe interessa a ideia do projeto deve dispor-se a:
Tratar do assunto com rapidez e sem cair nas panaceias de limonadas (…) de compromissões com grupos ou chafaricas que não darão vintém e impe- dirão o êxito. O dinheiro, repito, é melhor que seja adquirido como affaire. Se se busca a solidariedade política que esses patuscos confundem alguns com Caridade, as probabilidades de recomeçar as fatigosas démarches que aqui fizemos [em Paris], sem resultado (…) isso não quer dizer que V. ponha de lado os dinheiros dos correligionários (…). Um jornal destes não pode senão convir aos Afonsos, aos Limas, e outros Macieiras (…). Enfim você verá, isto é, segredo entre nós. 74
Leal da Câmara já se tinha pronunciado sobre como conse- guir financiamento para o lançamento da publicação da revista. Nada de andar atrás dos amigos republicanos
democráticos. Leal tinha bem presente a má experiência por que passaram com o projeto da revista Génio Latino, em Paris, com Magalhães
Lima. Aquilino Ribeiro não deixa de referir no seu livro dedicado a Leal da Câmara que, no projeto para publicação da revista Génio
Latino, Magalhães Lima, o homem que deveria arranjar os fundos
para custear o projeto, não se envolveu o suficiente, desistindo do projeto.
O artista Leal da Câmara sabe que uma publicação como a que ele deseja lançar com Aquilino Ribeiro, em prol da defesa do re- gime republicano e democrático, será um projeto que interessa- rá às figuras republicanas democráticas que querem combater os evolucionistas, os unionistas e os militares conservadores e apoiantes de Pimenta de Castro. Leal enumera alguns nomes de republicanos do partido democrático: Afonso Costa (Pasta da Justiça entre 1913 e 1914, acumulando a pasta das Finanças), Ma- galhães Lima (Deputado à Assembleia Constituinte, candidato às presidenciais de 1911) e António Macieira (Pasta da Justiça, 1911 a 1912), três figuras de renome na construção da arquitetura do re- gime republicano e que ocuparam cargos na governação de Por- tugal até 1915.
Leal da Câmara confia inteiramente no amigo Aquilino Ribei- ro. Pede-lhe para que não fale com ninguém sobre a idealizada publicação para que a revista possa aparecer de surpresa ao pú- blico da capital lisboeta. Num postal de 14 de abril de 1915, para Soutosa, Leal acusa a sua preocupação pelo facto de Aquilino não ter ainda dado notícias sobre a sua proposta da publicação da re- vista humorística. A aceitação do projeto, por parte de Aquilino Ribeiro, que não veio a acontecer, poderia ter sido para os dois amigos republicanos um começo de um modo de vida em Portu- gal não precisando da “caridade” dos republicanos governantes para terem um emprego.
Desta vez, Aquilino não avançou. Precisava de um emprego mais estável que lhe desse mais alguma segurança económica para sustentar o núcleo familiar. O escritor, menos empolgante e mais terra-à-terra do que Leal da Câmara, não acreditava na edi- ção de um jornal em 1915, altura em que o contexto político con- servador que se respirava com a ditadura de Pimenta de Castro seria deveras ameaçador à liberdade de expressão no país e, por isso, Aquilino diz no seu livro biográfico sobre Leal da Câmara “Nada mais movediço que o termo político em Portugal, naquele ano de graça em Portugal de 1915 (…) construir um jornal com certa independência? Seria mais fácil lançar uma ponte de arcos sobre os lodos do Tejo” (Ribeiro, 1951, p.56).
73. Carta de Paris, 30 de março de 1915, D11/1062. 74. idem
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2.3.3. Comentários de Leal da Câmara sobre Portugal republicano e a sociedade portuguesa
Em Paris, durante os dois anos que lá permanece, desde que em finais de 1913 escolhe ir novamente viver na cidade das artes, Leal da Câmara nunca deixa de estar a par da trajetória política, social e cultural do Portugal republicano, como das suas tensões e contradições.
Em 21 de maio de 1915, quando o movimento militar liderado por Álvaro de Castro já tinha deposto Pimenta de Castro (14 de maio), com o apoio do partido democrático de Afonso Costa, Leal da Câmara tece comentários para o amigo Aquilino Ribeiro sobre a situação política no país. Em tom de desabafo, sobre notícias que lhe vão chegando a Paris da atual situação política em Portu- gal, escreve para Aquilino “Agora vamos à política”. Leal expres- sa opinião sobre a revolta militar contra a governação ditatorial de Pimenta de Castro que tinha sido nomeado pelo Presidente da República, Manuel de Arriaga, referindo “Sei o que aconteceu (…) Era de certo natural que estalasse uma revolta, esse Pimenta de Castro era uma besta sem tacto e velho casmurro. Com essas
qualidades é impossível governar muito tempo (…)”.75
O movimento revolucionário que pôs fim ao governo de Pi- menta de Castro tinha partido da organização da Junta Revolu- cionária para o derrube do governo de ditadura, constituída por republicanos bem conhecidos de Leal da Câmara e de Aquilino Ribeiro - António Maria da Silva (1872-1950), Alfredo Sá Cardoso (1864-1950) e Álvaro de Castro. Após a Junta Revolucionária go- vernar por três dias (de 14 a 17 de maio), o décimo governo seria entregue a João Chagas, o camarada jornalista e amigo de Leal da Câmara, que, por ter sofrido um atentado, será Álvaro de Castro a governar, interinamente, até 19 de junho de 1915 (Martins, 1981).
Leal da Câmara está mesmo desiludido com a República e a falta de cultura dos portugueses. Na mesma carta, para Souto- sa, em que Leal comenta sobre a queda do governo de Pimenta de Castro, pergunta a Aquilino pela Grete, admirando-se como essa mulher de cultura alemã não está farta da montanha e da tacanhez da aldeia e como “a pobre suporta estar tanto tempo na cultura portugueza! Ella deve estar um pouco atounée desses assassinatos e revolução, são o sintoma evidente da falta de edu- cação cívica e da ordem”.76 Leal critica a cultura política republi-
cana de Lisboa e o desentendimento entre os diferentes partidos republicanos que tem levado até à data a várias revoltas entre os partidos e a quedas de governos. E faz observações sobre o divi- sionismo do partido republicano “A verdade é que é difícil, como
burro, compreender as diferencias entre a política de Camacho, António José de Almeida e Afonso Costa (…). A última crise do Chagas que tentou explicar o imbróglio fez-me dores de cabeça tão grande era a complicação”.77
Leal da Câmara referia-se aos três partidos formados a partir do partido republicano logo em 1911, com a fundação do partido unionista por Brito Camacho (1862-1934), o partido democrático à volta da figura de Afonso Costa (1871-1937) e o partido evolu- cionista de António José de Almeida, em 1912. Leal dá entender a falta de atitude cívica para com a pátria pelas figuras da Re- pública, perguntando onde estão as tão grandes diferenças en- tre estes grupos políticos partidários. Via neste partidarismo não mais do que guerras e questiúnculas entre os homens da Repú- blica não sabendo desenvolver uma política para a modernida- de do país. Leal da Câmara não tem mesmo paciência para esta guerra partidária, porque é um homem sobretudo interessado em mudanças educativas e culturais em Portugal. A seu ver, é a construção destes dois pilares que mudará a mentalidade da sociedade portuguesa.
2.3.4. Pedidos a Aquilino Ribeiro para interceder junto de governantes para arranjar emprego em Portugal
Na carta de maio de 1915 para Soutosa, Leal da Câmara, con- fiante em conhecidos e amigos republicanos que integravam o X Governo, presidido por João Chagas (José Castro interino), como Magalhães Lima, Ministro da Instrução Pública (maio – junho de 1915), e Manuel Monteiro (1879-1952), Ministro do Fomento (maio-novembro de 1915), entende que Aquilino Ribeiro já deve- ria ter-se deslocado a Lisboa “arranjar as suas coisas” e vai mais longe “Eu desejaria que Você o tomasse sob a sua aza protectora
e pozesse a questão que para mim é capital”.78 Leal da Câmara
solicita a Aquilino Ribeiro que interceda junto dos amigos Maga- lhães Lima e Manuel Monteiro, certo de que um ou outro irão ver de um emprego para si.
Leal da Câmara vê nos republicanos que constituem o novo go- verno de Álvaro de Castro uma oportunidade para organizar a sua vida em Portugal, não podendo deixá-la perder. Por isso, mani- festa a Aquilino que se “eu não estivesse tão mal
de saúde e tão pouco endinheirado, iria até Lis- boa, mas eu conto com você”. De facto, só pode contar com o amigo Aquilino. Leal da Câmara
75. Carta de Paris,